Protestos, cartazes e manifestos voltam a frequentar as ruas de Nova York após a posse de Trump; pesquisadora aponta fenômeno de aproximação entre ativismo e arte também no Brasil

we the people

Cartazes que integram a série “We the people”,de Shepard Fairey


Em 1970, um grupo
de artistas ocupou as ruas de Nova York em protesto contra a Guerra do ­Vietnã e a morte de seis homens negros nas ruas de Augusta, na Geórgia. Denominado Greve da Arte, o movimento pressionava as instituições culturais a se posicionarem contra a guerra e as decisões bélicas do presidente recém-eleito Richard Nixon.

Passados quase 50 anos do episódio, artistas americanos voltam a encampar posicionamentos políticos mais diretos, mobilizando-se contra as ações do republicano Donald Trump, que assumiu a presidência do país no dia 20 de janeiro e logo em seguida colocou em prática várias das suas promessas de discriminação social e econômica.

 Performances, cartazes e petições foram produzidos, criando uma intersecção entre arte e protesto político, especialmente diante de um decreto que restringiu, em fevereiro, a entrada de muçulmanos em todo o território do país.

O britânico-indiano Anish Kapoor, por exemplo, concebeu uma obra inspirada no pôster da icônica performance I Like America and America Likes Me (eu gosto da América e a América gosta de mim), do alemão Joseph Beuys. Kapoor recriou o cartaz, inserindo a sua própria imagem à obra e a renomeando com o título I Like America and America Doesn’t Like Me (eu gosto da América e a América não gosta de mim).

Outro importante representante da arte contemporânea, Christo desistiu de um projeto no Estado do Colorado. O artista desenvolvia um toldo prateado que percorreria uma extensão de 68 quilômetros sobre o rio Arkansas. Porém, o trabalho beneficiaria uma propriedade federal, e, depois da posse de Trump, o artista decidiu interromper o projeto, no qual já havia investido 14 milhões de euros. Outros nomes como Barbara Kruger, Richard Serra, Richard Prince e Shepard Fairey também se manifestaram.

Além de artistas, várias instituições culturais se posicionaram contra as ações do atual presidente. O MoMA chegou a retirar das paredes quadros do seu acervo permanente e no seu lugar expôs trabalhos de artistas de nações muçulmanas (Irã, Iraque, Síria, Líbia, Somália e Sudão), cujos cidadãos entraram para a lista de barrados. Saíram do quinto andar Picasso, Matisse e Picabia; entraram, quase numa provocação, obras  da arquiteta iraquiana Zaha Hadid e do pintor sudanês Ibrahim el-Salahi, entre outros.
Em entrevista à ARTE!Brasileiros, o sociólogo Miguel Chaia comenta que ficou surpreso com o posicionamento do museu.  “Por funcionarem dentro da ordem, as instituições tendem a agir como elementos de controle. Normalmente são os artistas e não os museus que protestam. Mas existem momentos de exceção como esse do MoMA”.

 


Arte e resistência

Essa grande quantidade de manifestações trouxe à tona novamente a ideia do lugar da arte como um espaço de resistência. Isso esteve presente  em inúmeros momentos da história. Em entrevista à revista, a psicanalista Suely Rolnik afirma que a arte pode ser uma forma de militância e servir como veículo para uma mensagem política.

No entanto, há uma dimensão mais profunda que ­Rolnik chama de potência política da arte. “Na sociedade ocidental capitalista e colonizada, nós perdemos o contato com os conhecimentos tradicionais e com a potência criadora da natureza. Por conta disso, a única atividade humana na qual é possível manter essa germinação é a arte.” Para a psicanalista, a resistência está, portanto, no próprio ato de criação.

Rolnik ressalta que, ainda assim, com a consolidação do neoliberalismo, na década de 1980, o capital começa a se apropriar até mesmo da arte. “Hoje o capital tem uma inserção muito mais sutil e perversa do que anteriormente. Porque ele se alimenta da própria força de criação e nesse sentido a arte levou uma porrada. Quando a comunidade artística se deu conta, começou uma grande movimentação que permanece até hoje.”

Chaia concorda que no momento prevalece um tipo de produção que se aproxima do ativismo. “A relação entre a arte e a política depende do momento histórico. Com a ascensão de Trump e mesmo a de Temer, presenciamos uma politização da arte. Hoje, o artista ganha força como ativista e cidadão que atua no espaço público.”

 Para o pesquisador, a diferença é que, em períodos anteriores, as críticas sociais e políticas estavam implícitas nas próprias obras.  “Hoje, a resistência está muito mais no ativismo do que nos trabalhos em si. Quando o artista fala ‘Fora Temer’, ele não está produzindo um objeto estético, é um movimento. Há poucas produções que tratam disso.”

Chaia acredita que essa transformação não é boa nem ruim, sendo reflexo de uma nova conjuntura. “Hoje há uma urgência em se expressar, as coisas acontecem muito rápido, não é como no caso de Guernica, de Picasso, que era uma resposta a uma guerra longa.” Ele também cita as redes sociais como importante ferramenta de mobilização, permitindo que as pessoas tomem posições rapidamente. “Mesmo com a ascensão de políticos como Trump, não há censura e ainda há espaço para as pessoas se manifestarem. Antes, a crítica (de artistas) a um contexto político tinha que ser feita na própria obra, não havia outra forma.”

Outro fator apontado pelo pesquisador é a emergência de diversos coletivos de artistas: “Não é mais o tempo de uma vanguarda que aponta para uma única direção, são vários grupos que se manifestam”. Rolnik também comenta essa nova conjuntura: “Desde os anos 1990, o ativismo foi se distanciando da militância tradicional e incorporando novas formas. Isso se dá em vários setores, inclusive na arte. Hoje o ativismo e a arte estão interligados. Já não é mais como nos anos 60, quando de um lado ficava a prática cultural e, do outro, a militância”.

Chaia ainda pontua que é cada vez mais difícil definir o que é a arte ou a política. “São conceitos polissêmicos, não é possível fazer uma definição fechada. E o interessante é que, hoje, assim como a arte se aproxima da política, também acontece o inverso. Doria, por exemplo, está fazendo performances ao se vestir de gari. E, mais ainda, quando ele lança o programa Cidade Linda, há toda uma concepção de estética, do belo, que tem um sentido muito perigoso e autoritário”, afirma.

O tema da arte como resistência será debatido na próxima edição do TALKS, ciclo de debates organizado pela ARTE!Brasileiros em parceria com a SP-Arte. O evento será nos dias 6 e 7 de abril no auditório do prédio da Bienal de São Paulo.  Acompanhe em breve mais informações no site da revista.

Link curto: http://brasileiros.com.br/oM17F
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