Idealizador, curador e apresentador de uma série documental exibida pelo canal
de TV a cabo Arte 1, o pianista Marcelo Bratke antecipa outras ações globais de exaltação à obra do maestro carioca, um dos maiores símbolos culturais do País

O pianista Marcelo Bratke posa  para foto inspirada em um célebre retrato de Heitor Villa-Lobos. Foto: Romulo Fialdini

O pianista Marcelo Bratke posa para foto inspirada em um célebre retrato de Heitor Villa-Lobos. Foto: Romulo Fialdini

Lançada em 9 de janeiro, segue em cartaz até 6 de março, no canal de TV a cabo Arte 1, a série documental O Tempo e a Música: Villa-Lobos. Composto de oito episódios, cada um com 30 minutos de duração, o projeto audiovisual, que tem direção de Janaína Dalri, produção da Cine Group e apoio do Sesi (Serviço Social da Indústria), é apresentado pelo pianista paulistano Marcelo Bratke.

Também responsável pela curadoria do projeto, ao lado de sua mulher, a artista plástica Mariannita Luzzati, Bratke é escolha mais que acertada para capitanear a série. Afinal, há 13 anos empreen­de projetos que o tornaram uma espécie de guardião da rica memória de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), maestro que, nas primeiras décadas do século XX, documentou e definiu, em um processo criativo de retroalimentação a partir de suas pesquisas de campo, parte expressiva da identidade musical e cultural do País.

A paixão do pianista pela obra do maestro carioca foi intensificada a partir de 2004, quando Bratke deu início a um projeto social com cinco jovens do Jardim Miriam, bairro periférico da zona sul de São Paulo. Somando piano a instrumentos percussivos, ao lado do quinteto, que foi batizado como Camerata Brasil, Bratke realizou, em setembro daquele ano, no Carnegie Hall, a legendária casa de shows de Nova York, o primeiro de uma série de concertos nacionais e internacionais marcados, sobretudo, pela predominância de composições de Villa-Lobos no repertório.

Em 2006, beneficiado pelo Programa Vale Música, da mineradora Vale, o grupo foi expandido para 13 músicos e rebatizado como Camerata Vale Brasil. Em 2007, que marcou os 120 anos de nascimento do maestro, Bratke deu início ao projeto Alma Brasileira. Inteiramente dedicada à obra do compositor e regente, a iniciativa inspirou uma derivação ainda mais significativa, o projeto Villa-Lobos Worldwide, que já percorreu mais de 50 cidades ao redor do mundo. Além dos concertos, a proposta global inclui registros fonográficos da obra completa do maestro para piano solo. Produzida pela gravadora britânica Quartz, a série de CDs contará com distribuição em mais de 30 países.

Villa-Lobos audiovisual
Autoexplicativos, os títulos dos oito episódios de O Tempo e a Música: Villa-Lobos dimensionam momentos divisores na trajetória do gênio carioca (o último deles aborda, por fim, seu legado para sucessores como Tom Jobim e Edu Lobo): Infância e Chorões; Saudades das Selvas Brasileiras; A Semana de Arte Moderna de 22; Villa-Lobos em Paris; O Folclore Sou Eu; Villa-Lobos: o Educador; Villa-Lobos: Compositor sem Fronteiras; Os Ecos de Villa-Lobos.

Diversa, a seleção de depoentes elen­cados por Bratke é extensa. Entre eles, grandes personalidades da música, co­mo os regentes Isaac Karabtchevsky, Julio Medaglia, João Maurício Galindo, Cláudio Cruz, Edgard Poças, Roberto Tibiriçá e a maestrina Ligia Amadio; can­tores, compositores e instrumentistas, como Turíbio Santos, Arthur Nestrovski, Fabio Zanon, Rosana Lamosa, Edu Lobo, Yamandu Costa, Nelson Ayres, Camila Titinger, Fortuna e Gilberto Tinetti; jornalistas e historiadores, como Irineu Franco Perpétuo e Zuza Homem de Mello (responsável, aliás, pela primeira temporada da série O Tempo e a Música, dedicada à MPB dos anos 1960 e 70); os fotógrafos João Farkas e Claudia Jaguaribe.

“Eu pretendia mergulhar na intimidade dos convidados, para que a personalidade de cada um surgisse como uma personagem do documentário. João Maurício Galindo, por exemplo, é um cara que está nesse eixo erudito e popular, com a Orquestra Jazz Sinfônica, assim como Julio e Isaac que, em alguns aspectos, são artistas parecidos com Villa-Lobos. Essa mistura é a cara do Villa-Lobos, porque ele não era um artista aprisionado ao nicho da música. Ele observava tudo, era um cara realmente aberto. As influências, as fontes de inspiração dele foram muito além da música de concerto. Acho que, com essa tentativa de dar voz para quem não é do meio musical, a série tem a fisionomia do Villa-Lobos”, explica Bratke, que, além de conduzir a narrativa, a exemplo da maioria dos músicos convidados, interpreta composições do maestro.

Sem fronteiras
Contrariando o desejo da mãe, Noêmia Monteiro Villa-Lobos, de que o filho se tornasse médico, o menino Heitor foi cooptado para a música pelo próprio pai, Raul Villa-Lobos, um compositor amador, funcionário da Biblioteca Nacional, que deu ao garoto uma viola adaptada para ser tocada como um violoncelo. Na adolescência, extremamente musical e seduzido pela boemia carioca, Villa-Lobos trava contato com o violão. Na época, o instrumento era malvisto, atribuído à marginália do Rio de Janeiro, mas foi com ele que, tempos depois, o aspirante a maestro ganhou notoriedade e, com isso, também contribuiu para redimir o instrumento da condição de maldito, colocando-o, no século XX, como ponta de lança de nossos compositores populares. 

Nos episódios que tratam das expedições do maestro pela Amazônia – repletas de grandes feitos, mas também de casos considerados fantasiosos – e do profundo interesse de Villa-Lobos pe­­lo folclore brasileiro, fica patente a não distinção do maestro entre música eru­dita e popular. Essa faceta leva Bratke a crer que, se ainda estivesse entre nós, Villa-Lobos continuaria atento às produções contemporâneas mais destinadas ao mercado fonográfico.

“Em uma das últimas entrevistas que Villa-Lobos deu, antes de um concerto em Nova York, o entrevistador pergunta: ‘Maestro, o que o senhor vai tocar?’. Ele diz algo como: ‘Vou tocar algumas obras minhas, mas estou muito interessado em compositores jovens do Brasil e de outras partes do mundo. O que está me interessando hoje é justamente o que os jovens estão fazendo’. Ele tinha uma curiosidade imensa. Na produção de hoje a gente tem uma invasão de coisas sem qualidade em nossos computadores, nossos smartphones, mas sempre haverá em nossa música elementos que um compositor genial como Villa-Lobos captaria. Compositores são como radares. Ele, como sempre foi, seria hoje um cara aberto e não um desses que saem por aí dizendo que não existe futuro, que o mundo está perdido. Villa-Lobos, não era um cara careta. Sua obra simboliza isso.”

Bratke, no entanto, acredita que o maestro lamentaria enfrentar uma triste constatação, a diluição do projeto educacional defendido de forma aguerrida por ele durante as décadas de 1930 e 40, quando o maestro, espécie de proto-popstar, regeu mais de 30 mil vozes em estádios de futebol com a intenção de difundir no País o canto orfeônico.

“Acho que Villa-Lobos ficaria triste em perceber que, no Brasil de hoje, ainda não existem grandes incentivos para a formação de público e de compositores jovens. Algo que mudou muito pouco em relação à sua época, marcada por lutas individuais, como a dele. Em minhas passagens pela Inglaterra conheci, por exemplo, um projeto muito bonito da London Symphony Orchestra, um concurso em que jovens compositores passam meses acompanhando a rotina da orquestra e tem acesso a todos os ensaios. Cada um dos músicos tem o compromisso de ajudá-los no que tiverem de dúvidas relacionadas a questões composicionais, porque, a partir dessa experiência, eles vão escrever uma obra sinfônica, que depois será in­terpretada pela London Symphony Orchestra. Uma ideia bárbara, que não é tão custosa. Basta deixar as portas da orquestra abertas para o compositor e o cara retribui depois com um trabalho inédito. É um programa que aproxima o compositor da orquestra e teria, por exemplo, ajudado muito Villa-Lobos a compor suas sinfonias (ao todo 11). Os compositores daqui dependem hoje de programas que lancem ou ajudem novos talentos.”

Depois de encerrada a série, Bratke seguirá firme na missão de difundir a genialidade de Villa-Lobos ao redor do mundo. Alternando estadias no Bra­sil e na Inglaterra, ele e Mariannita compartilham criações em defesa do maestro – muitos dos concertos realizados por Bratke em escolas, núcleos de formação musical e até em presídios contam com projeções da artista plástica, apaixonada pela natureza, como Villa-Lobos. Feliz por, em meio à crise que assola o País, manter o mesmo ritmo de produções dos últimos anos, Bratke antecipa algumas delas.

“Estou concluindo as gravações da obra de Villa-Lobos para piano. Em breve serão lançados os volumes 4 e 5, com repertório do Guia Prático (método educativo de referência, baseado em composições folclóricas arranjadas pelo maestro), depois o 6 e o 7, que já estão gravados. No início de fevereiro, volto para Londres para gravar o volume 8 e até o começo de 2018 pretendo concluir os lançamentos dessa série. No Brasil o projeto será lançado pela gravadora Biscoito Fino. Além disso, estou com o plano de fazer uma temporada de música de câmara do Villa-Lobos com o maestro e violinista Cláudio Cruz. Quero também fazer concertos para piano e orquestra. Na Inglaterra, a partir de junho, e durante o segundo semestre de 2017, farei concertos-conferência sobre a obra e a vida de Villa-Lobos em universidades como Oxford, Cambridge e no King’s College.”

Reverberando a proposta de Bratke de levar a obra do maestro para além das fronteiras nacionais, O Tempo e a Música:Villa-Lobos também será exibida pelo Arte 1 em outros nove países onde o canal está disponível: Estados Unidos, Canadá, Argentina, Japão, Colômbia, Uruguai, Paraguai, Angola e Moçambique.
No que depender de Marcelo Bratke, não restam dúvidas, o legado de Heitor Villa-Lobos seguirá atemporal para milhares de ouvintes por muitos anos. A memória musical do Brasil agradece.

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