Na contramão do regionalismo ortodoxo, miscigenando harmonias, ritmos e melodias, o cantor e compositor Nei Lisboa mantém, há mais de três décadas, a reputação em alta. Aos 58 anos, com 11 álbuns insuspeitos, ele segue firme e seduz novos ouvintes

Nei Lisboa em 2015, durante as gravações do álbum Telas, tramas & Trapaças do Novo Mundo, registrados ao vivo. Foto André Feltes

Nei Lisboa em 2015, durante as gravações do álbum Telas, tramas & Trapaças do Novo Mundo, registrados ao vivo. Foto André Feltes


Alguns o classificam como roqueiro, embora ele tenha uma mão no blues, outra na bossa nova e os pés plantados na ampla diversidade da MPG (Música Pop Gaúcha), apêndice sulino da MPB (Música Popular Brasileira). Seja como for, a carreira de Nei Lisboa mostra que não é fácil brilhar fora do eixo dominante do show business brasileiro. Com uma centena de canções gravadas em 11 discos, ele está na estrada há mais de 30 anos, possui um público fiel no Rio Grande, mas não pode nem pensar em aposentadoria, ainda mais depois que a filha Maria Clara, nascida em 2003, impôs-lhe a responsabilidade de olhar mais seriamente para o futuro.

Visto geralmente como um típico porto-alegrense, Nei Lisboa nasceu em janeiro de 1959 em Caxias do Sul. Tinha seis anos quando foi morar na capital. O pai, Eurico, era funcionário público federal e mudava de cidade com certa regularidade. A mãe, Clélia, uma dona de casa que soube manter a prole unida depois da separação do casal em 1967.

Com o racha familiar, a nova morada passou a ser um apartamento no  décimo andar do edifício da esquina da rua Cauduro com a avenida Osvaldo Aranha, de frente para o Parque da Redenção e os prédios da UFRGS. Em pleno Bom Fim, o bairro boêmio da capital, o apê dos Tejera Lisboa virou ponto de encontro de estudantes e local de passagem de ativistas ambientais e políticos. Toda a família era engajada politicamente, mas somente o irmão mais velho extrapolou – do movimento estudantil para a luta armada. Depois do AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, Luiz Eurico (Ico) Lisboa caiu na clandestinidade. Em 1972 foi preso em São Paulo e nunca mais foi visto. Apenas em 1979 seus despojos foram localizados em cova clandestina no cemitério de Perus, na Grande São Paulo.

Embora tenha aprendido a tocar violão aos 8 anos, o caçula de seis irmãos só encarou seriamente a música durante a temporada que passou no sul da Califórnia. São dessa época de intercâmbio estudantil suas primeiras composições musicais, quase sempre baladas entre o blues e o rock. Sem ser hippie nem beatnik, herdou traços dessas duas culturas, mas manteve a identidade sul-americana. É um marginal no bom sentido, já que não se integrou a um centro liquidificador como o Rio ou São Paulo.

De volta ao Brasil, em 1977 passou no vestibular para o curso de composição e regência musical da UFRGS. Voltado para a música erudita, o curso tinha a duração de sete anos. Parada dura. Fugindo da chatice das aulas, Nei se envolveu com o movimento musical que agitava o Bom Fim no declínio da ditadura militar. “No começo, toquei com metade da cidade”, reconhece.

Nas férias do verão 1977/78, a inquietação dos 18 anos o levou para Salvador, onde morava uma de suas irmãs. Fascinado pela musicalidade da cidade, fez o vestibular de música da UFBA, onde pontificava, entre outros professores, o genial Walter Smetak (1913-1984), um suíço very tropicalist. Aprovado, viveu “um verão bem baiano, tocando violão e fumando maconha”. Compreendeu então por que Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros baianos, se colocaram um tom acima dos demais. Mesmo assim, talvez com saudade da “tchurma do Bom Fim”, consagrada mais tarde na canção Deu Pra Ti, de Kleiton e Kledir, voltou para o curso da UFRGS, no qual não ficou mais do que três semestres. Bailes, bares e corredores eram muito mais atraentes do que as salas de aula.

Três dos 11 álbuns lançados por Nei Lisboa: dois clássicos dos anos 1980, Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983), seu álbum de estreia, o sucessor, Carecas da Jamaica (1987), e o mais recente de estúdio, A Vida Inteira (2013) – em 2015, ele lançou um álbum ao vivo

Três dos 11 álbuns lançados por Nei Lisboa: dois clássicos dos anos 1980, Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983), seu álbum de estreia, o sucessor, Carecas da Jamaica (1987), e o mais recente de estúdio, A Vida Inteira (2013) – em 2015, ele lançou um álbum ao vivo


ANOS DE CHUMBO

Nei tinha 20 anos quando os exilados começaram a voltar nos braços da Lei da Anistia (agosto de 1979). Bem ou mal, o espectro dos “anos de chumbo” transparece de forma velada nas suas letras. Em seu primeiro disco, a canção-título Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina (1983) é uma divagação filosófica cujo refrão fala da fome do povo. Com essa balada, ele inaugurou uma carreira solo em meio a uma multidão de bandas de rock, como Papas na Língua e Nenhum de Nós. E foi se firmando como um desses fenômenos musicais que ocorrem de tempos em tempos em Porto Alegre, que já revelou talentos como Lupicinio Rodrigues, Radamés Gnatalli, Elis Regina, Renato Borghetti, Adriana Calcanhotto e Yamandu Costa. Contratado pela EMI Odeon, lançou em 1986 seu primeiro sucesso, Carecas da Jamaica, Prêmio Sharp daquele ano. Diz a letra: “Se me derem um pedaço de plutônio/Minha turma se encarrega de explodir a pobreza das ideias dessa gente/Que comanda o shopping center do país”.

O vínculo com gravadoras baseadas no eixo Rio-São Paulo o levou a viver por algumas breves temporadas nas duas maiores cidades brasileiras, mas sem se submeter às exigências da indústria cultural. O crítico Juarez Fonseca, com 45 anos de vivência nos meios musicais do RS, conta uma historinha de 30 anos atrás: “A gravadora quis que Nei Lisboa gravasse uma canção dos Beatles. Ele recusou”.

Voltar às origens foi a saída: em 1986, o insubmisso compositor do Bom Fim criou Verão em Calcutá, canção repleta de metáforas de alto nível poético: “A vaca foi pro brejo e atolou/ Na esteira desse new old rock ‘n roll/E a velha limusine da canção/Virou lambreta de segunda mão/Cho-rando sobre uísque derramado/Rescaldos de uma mágoa a la Vandré/Que tanto mais feroz, tanto mais passa/Ao som dos novos reis do iê-iê-iê”.

Nei em 1998 com o violonista e guitarrista Paulinho Supekóvia

Nei em 1998 com o violonista e guitarrista Paulinho Supekóvia


Quem, chapado ou em sã consciência, saberia que “a velha limusine da canção” era a MPB, transformada numa “lambreta de segunda mão”? Como em outras canções, sempre sobrava um cantinho para citar, en passant, um ídolo das esquerdas. Antes foram Glauber Rocha e Jean-Luc Godard, agora foi a vez de Geraldo Vandré.

Caminhando e cantando novas canções no Bom Fim, Nei trabalhou solito, pois sempre achou complicado compor com parceiros e harmonizar-se com algumas das raízes musicais locais. “Não tenho nada contra a música regional gaúcha”, explica Nei, “mas me incomoda o seu enredo conservador”. Ele não se deixou contaminar pelo surto “nativista” que mobilizou centenas de cantores e instrumentistas, todos atraídos pelo sucesso de dezenas de festivais municipais. O pioneiro (1971), denominado Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, chegou a ter transmissão ao vivo da TV Bandeirantes, de São Paulo, em meados dos anos 1980. Alguns amigos e colegas do mundo musical porto-alegrense, como Bebeto Alves e os irmãos Ramil, andaram pelas trilhas da chamada “música de grosso”, e até contribuíram para lhe retirar parte do ranço passadista, que transpira um tradicionalismo guerreiro.

Firme na convicção de que “o melhor de Porto Alegre é a diversidade musical”, expressa na existência de grupos de samba, choro, rock, tango, bolero e música erudita, Nei não se atreveu a explorar o nicho campeiro – vanerão, rancheira, xote, milonga, chamamé –, que desfruta no Sul de um mercado equivalente ao dos “sertanejos” no centro do Brasil ou do baião no Nordeste.

Embora não seja um grande vendedor de CDs – nunca ganhou um disco de ouro, equivalente à venda de 100 mil cópias de um lançamento –, Nei Lisboa é bastante tocado nas emissoras de rádio de Porto Alegre, do interior do Rio Grande do Sul e até de outros estados, mas os direitos autorais não bastam para lhe garantir a sobrevivência. Ter canções gravadas por estrelas como Cida Moreira, Ná Ozetti e Zélia Duncan mexe bastante com sua autoestima autoral, mas pouco afeta sua conta bancária. Na real, sua maior fonte de renda é a bilheteria de shows, com ingressos custando menos da metade dos preços cobrados por astros nacionais.

Seria tanta assim a diferença de qualidade? Não, o diferencial é apenas geográfico. Nei é um artista marginal “irrotulável”. Para o radialista Nando Gross, músico e gerente-geral da Rádio Guaíba, “Nei Lisboa é um verdadeiro relator do cotidiano: grande letrista, com uma linguagem jornalística da vida, tem a capacidade de discorrer com fina ironia sobre temas aparentemente banais.” Musicalmente, diz Gross, “ele usa harmonias influenciadas pela bossa nova, acordes maiores, junto com sextas e nonas, mas tem a diversidade na veia, com melodias inesquecíveis e muito integradas com as letras”. 

Quando mergulha na criação de novas canções, visando um novo disco ou um show diferente, Nei sai pouco de sua toca. Há alguns anos, quando ativistas políticos de Porto Alegre começaram o movimento para criar um memorial no casarão onde funcionou nos anos 1960 uma seção clandestina de torturas do Dops (Dopinha), na rua Santo Antônio, 600, ele foi ao local, enfim batizado com o nome do mano Ico Lisboa. Em março/abril de 2016, participou de manifestações contra o impedimento da presidenta Dilma. Fãs o incitaram a atuar como menestrel antigolpe, mas ele se manteve distante, deixando claro que prefere dar seus recados em canções como A Lei, lançada no segundo semestre de 2015: “A lei é cega/Cega que tão bem enxerga/ Quando lhe convém/A lei não quer ver/ Serve a quem melhor lhe paga/Para o mal e o bem”.

Foto: Ricardo Chaves

Foto: Ricardo Chaves

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