Enquanto a maior cidade do País enfrenta problemas graves, a nova gestão quer fazer faxina nos muros de São Paulo

BIXIGA - Diversos estilos colorem o bairro tradicional que fica na região central. Foto: Luiza Sigulem

BIXIGA – Diversos estilos colorem o bairro tradicional que fica na região central. Foto: Luiza Sigulem

Em apenas seis horas de seu primeiro dia como prefeito de São Paulo, João Doria Jr. e boa parte de seus secretários posavam para as câmeras enquanto varriam por uns segundos a Praça 14 Bis, na região central da cidade. Essa seria a primeira de uma série de ações para divulgar o carro-chefe da gestão até agora: o programa Cidade Linda. Na ocasião, Doria prometeu voltar à atividade de gari todas as semanas. Mas, em vez disso, vestiu-se de pintor para tingir os muros da cidade de cinza, apagando grafites e pichações, e inaugurando uma campanha contra manifestações que, há tempos, são consideradas “patrimônios culturais” da cidade.

Uma decisão judicial do dia 13 de fevereiro proibia que a Prefeitura de São Paulo apague grafites espalhados pela cidade sem a autorização do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo). A ação foi movida após Doria apagar um mural na Avenida 23 de Maio e pintar o muro de cinza.

A Prefeitura de São Paulo recorreu da decisão e a Justiça derrubou a liminar no dia 24 de fevereiro: “Cabe lembrar que a Prefeitura não está removendo grafites de maneira indiscriminada. Na Avenida 23 de Maio somente foram apagadas obras pichadas e em mau estado de conservação –no local, será feito um trabalho paisagístico que cobrirá as paredes com vegetação. A Prefeitura de São Paulo é, portanto, favorável aos grafites e contrária às pichações”. 

A discussão é antiga. Nos anos 1960, o grafite surgiu como forma de protesto. “Artistas pioneiros, como Alex Vallauri e Maurício Villaça, foram presos por realizarem trabalhos sem autorização”, diz Lilian Amaral, especialista em arte urbana. “Mas hoje as pessoas se acostumaram com essa estética.” Para ela, limpar os grafites é apagar memórias. Lilian explica: “Não é todo mundo que se identifica com esse tipo de expressão. Mas nem todos gostam do Cristo Redentor, no Rio, ou do edifício do Banespa, em São Paulo. Mesmo assim, eles fazem parte da cidade e de sua história”.

Mas a questão está longe de ser unânime. A produtora cultural e jornalista Perla Nahum não pensa da mesma forma. “Sou entusiasta de tudo que João está fazendo. Ele é competente. Adoro a proposta do Cidade Linda. Não dá para cada um fazer o que quer num ambiente em que todos vivem. São Paulo é uma cidade que já tem muita informação. Pichação deprime, as pessoas querem deixar marcas de ódio indiscriminado. Isso agride as pessoas, e eu não quero ser agredida, muita gente não quer.”

Seja como for, diversos pontos de São Paulo reúnem desenhos, como grafites e pichações, que estão incluídos em roteiros turísticos: Beco do Batman, na Vila Madalena, esquina das ruas Santo Antônio e 13 de Maio, no Bixiga, as pilastras do Minhocão, no centro, avenida Cruzeiro do Sul, na zona norte, muros da avenida 23 de Maio, que liga o aeroporto de Congonhas, na zona sul, ao centro…

MINHOCÃO - No bruto elevado que liga o centro à zona oeste, imagem suaviza a paisagem. Foto: Luiza Sigulem

MINHOCÃO – No bruto elevado que liga o centro à zona oeste, imagem suaviza a paisagem. Foto: Luiza Sigulem

A decisão de “limpar” a cidade, começando justamente pelos grafites e pichações, gerou reação nas ruas e fora delas. “Doria: Pixo é arte” informa uma das frases que irromperam nos muros. Nos gabinetes, a proposta estaria causando divergências dentro da prórpia administração. Nada confirmado, mas dizem que André Sturm, secretário municipal de Cultura, estaria fotografando obras consagradas no concreto público para preservá-las. 

As redes sociais, como de hábito, não perdoaram. “Quando será que Doria vai se fantasiar de prefeito?”. O novo gestor recebeu até o apelido de Doria Grey (cinza em inglês), em referência ao personagem do escritor Oscar Wilde, no romance O Retrato de Dorian Gray.

Mas o que seria lindo para a gestão municipal, levando em conta que a beleza e a feiura de São Paulo não são tão óbvias assim? Pense: segundo o Mapa da Desigualdade, feito pela Rede Nossa São Paulo, que reúne mais de 700 organizações da sociedade civil e é coordenada pelo empresário Oded Grajew, a expectativa de vida de quem mora em Cidade Tiradentes, no extremo leste, é de 53,85 anos, enquanto no distrito de Pinheiros, na zona oeste, é de 79,67 anos. Uma diferença de mais de 25 anos.

São Paulo, a maior, a mais rica e a mais influente cidade do País, ainda sofre com um déficit de 25% na coleta e tratamento de esgoto dos imóveis regulares. Esgoto, bueiros e escombros, aliás, são suportes usados pelo artista plástico Zezão, que começou a grafitar nos anos 1980 e ganhou espaço justamente porque se aventurou pelos subterrâneos do rio Tietê, jogando luz em problemas sérios de infraestrura da cidade.

Seu nome hoje é conhecido pelo mundo por causa de suas obras – ele já expôs em cidades dos Estados Unidos, em diversos países da Europa, como Inglaterra, Alemanha, Suíça, França e Itália, e na Argentina. Em São Paulo, é representado pela galeria Zipper, onde suas obras são avaliadas, em média, em R$ 25 mil.

De acordo com o texto publicado no site da prefeitura, o programa Cidade Linda contempla “serviços de manutenção de logradouros, conservação de galerias e pavimentos, retirada de faixas e cartazes, limpeza de monumentos, recuperação de praças e canteiros, poda de árvores, manutenção de iluminação pública, reparo de sinalização de trânsito, limpeza de pichações, troca de lixeiras e reparo de calçadas”.

Além de expectativa de vida e falta de rede de esgoto, outras questões implicam a dinâmica de melhoria de uma cidade do porte de São Paulo e há exemplos de sobra. Oficialmente, faltam 65 mil vagas em creches municipais. O déficit habitacional é de 358 mil famílias. A cidade tem ainda uma frota de oito milhões de carros e uma carência de áreas verdes. Rios e córregos também precisam de ajuda e existem 167 parques propostos no Plano Diretor que precisam ser tirados do papel. Isso sem falar na poluição do ar e no desemprego que afeta quase dois milhões de pessoas na região metropolitana. A pergunta é: o que incomoda mais?

Há ainda uma contradição nessa discussão localizada, totalmente paulistana, porque os grandes grafiteiros brasileiros são conhecidos no mundo todo. Além de Zezão, OsGêmeos, Eduardo Kobra, Nunca, Speto… correm o mundo para mostrar suas obras em muros, galerias e museus.

Cenas captadas em grafites espalhados pelos muros do Bixiga. Foto: Luiza Sigulem

Cenas captadas em grafites espalhados pelos muros do Bixiga. Foto: Luiza Sigulem

Promessas

Não importa. Ainda neste mês de fevereiro a prefeitura pretende fazer a “faxina” nas avenidas Mateo Bei, Ipiranga, Cruzeiro do Sul e São Luis, além de assepsia no centro histórico (Praça da Sé, Líbero Badaró e Pateo do Colégio). “A atividade do grafite precisa ser disciplinada. Todo mundo sabe produzir coisas maravilhosas, mas existem formas de fazer isso chegar ao público”, afirma Perla. “Sobre os painéis da 23 de Maio, prefiro que aquilo seja verde. Existe até uma proposta de tornar aquilo um jardim vertical.”

Miguel Chaia, pesquisador do Núcleo de Arte, Mídia e Política da PUC-SP, afirma que o Cidade Linda é fruto de uma política conservadora, que quebra com tradições anteriores e cria rupturas em cima da ideia de excluir. “O programa enfatiza a importância de repressão e controle. O grafite é o pretexto para dizer que os radicais, que ele iguala com marginais, serão controlados. É o apagamento tanto do desenho e da escrita quanto do personagem e ator radical.”

Para ele, o programa Cidade Linda é um marketing, digamos, perverso. “Começa polemizando, cria a relação amigo-inimigo e se mostra à sociedade como quem está enfrentando os rivais, opositores. Política é o reino da aparência, Maquiavel já dizia que político precisa aparentar ser o que não é. Doria se transveste de trabalhador, indo contra a ideia do político que não trabalha.”

Outra relação construída por Doria, de acordo com Chaia, é a da política com a arte. “O conceito de arte é polissêmico, ele se altera, tem camadas. O novo prefeito é uma pessoa arguta, que sentiu o espírito do tempo. Se pensar bem, ele faz performance. Não no mesmo conceito da arte, mas se apropriando da linguagem da arte. Isso conduz a situações trágicas, como o realismo socialista, a arte nazista e a arte fascista. Esses regimes se utilizaram da arte. Aliás, quem sacou primeiro essa fonte da relação entre política e estética foram os regimes totalitários.”

O urbanista Martin Corullon concorda. “O programa é mais um conjunto de ações de marketing do que políticas públicas de fato, que não resolverá os problemas que, em tese, pretendia solucionar, como os de moradia e lazer. E isso tudo é feito de forma violenta. Em vez de buscar o diálogo, é por meio da repressão.”

Wellington Neri, educador e artista plástico, diz que a gestão é um grande equívoco. “Doria não conhece nada da cidade. Isso já ficou evidente. Em todas as metrópoles do mundo, existe um grande avanço com relação à cultura urbana e a apropriação da cidade. Mas ele está por fora dessas discussões.” Neri é membro do Imargem, coletivo que nasceu no Grajaú, na zona sul, e hoje atua por toda a extensão da cidade com ações artísticas e pedagógicas.

Enquanto Neri concedia entrevista à reportagem da Brasileiros, o grafiteiro Mauro, do Veracidade e do Imargem, era detido pela polícia no Parque do Ibirapuera e levado para a Delegacia de Crimes Ambientais. Mauro estava lavando com água a tinta cinza que encobria uma de suas pinturas. “Doria quer criminalizar a cultura da rua”, diz Neri. “Ele declarou guerra e isso não é bom para ninguém, nem para ele nem para nós. O braço pesado do Estado, que é a polícia, vai cumprir a função de reprimir. E todo mundo sabe onde a corda estoura: nas costas do negro da periferia.”

Fato é que o pixo e a desigualdade são íntimos. “É uma forma de a população que é esquecida, deslocada pelo capital, se fazer presente. A importância de um espaço urbano sendo ocupado e os confrontos socioeconômicos por trás da questão. Existem sujeitos ativos, criativos, que querem se colocar no espaço público, e a reação da política conservadora é não admitir isso, que eles consideram uma intromissão”, diz Miguel Chaia.

Grafites espalhados pela cidade de São Paulo fazem parte de roteiros turísticos. Foto: Luiza Sigulem

Grafites espalhados pela cidade de São Paulo fazem parte de roteiros turísticos. Foto: Luiza Sigulem

Retirada

Embora no programa Cidade Linda não conste nada que se refira a moradores de rua, a prefeitura cutucou os sem-teto, que somam, de acordo com o último censo, de 2015, 15.905 pessoas. Nos primeiros dias de governo, moradores dos arredores da Praça 14 Bis foram expulsos dali para serem realocados em uma quadra e em um estacionamento construídos debaixo do Viaduto 9 de Julho. O espaço foi cercado de tela colorida. Desta vez, a preferência foi pelo verde. A prefeitura alegou tratar-se de uma medida de proteção aos sem-teto.

Mas há quem a considere higienista. Para o padre Julio Lancellotti, da pastoral do Povo da Rua, esta gestão quer “esconder a população de rua da região”. Ainda de acordo com ele, o grupo é ameaçado pelos moradores do bairro, que são contra o uso da quadra para acolher pessoas que não têm teto. Mesma opinião tem a urbanista Raquel Rolnik, professora da FAU-USP. “O Programa Cidade Linda inclui ações de limpeza urbana, com alvos como grafites e pichações e moradores de rua”, escreveu em seu blog.

Esse não foi o único ataque a quem vive em calçadas e sob marquises. Em 21 de janeiro, Doria revogou um decreto que dizia que as ações de “zeladoria” deveriam ser preferencialmente realizadas das 7h às 18h, de segunda a sexta, para evitar ações, por exemplo, enquanto as pessoas estivessem dormindo. Agora, estão liberadas as ações em qualquer dia e horário sem justificativa.

Também era vedado recolher “itens portáteis de sobrevivência” – papelões, colchões, colchonetes, cobertores, mantas, travesseiros, lençóis e barracas desmontáveis. Se surgisse um vacilo, a recomendação era clara: “em caso de dúvida sobre a natureza do bem, os servidores responsáveis pela ação deverão consultar a pessoa em situação de rua”.

Em resposta ao cancelamento desses dispositivos, três dos quatro servidores da Coordenação de Políticas para a População em Situação de Rua pediram exoneração. A prefeitura afirmou ser um mal-entendido e defendeu que “a retirada de quaisquer objetos pessoais, dentre eles cobertores e lençóis, continua proibida, até porque seria desumano”.

Sobre ter ou não ter grafites, a urbanista Paula Santoro, também da FAU-USP, diz que a política de Doria é autoritária e gera um acirramento de conflitos, reforçando um discurso de ódio que ganha força nas redes sociais. “Não tem respaldo popular, nem testou quem é a favor e contra, usa um discurso de beleza e feiura para escamotear a tentativa de inviabilizar as ações de resistência e contestação das pessoas e dos movimentos sociais através do grafite. E essa invisibilização se dá por meio do apagamento da presença simbólica dessas pessoas, dessa periferia. Tentando mostrar que essa diversidade não existe.” Mas todo mundo sabe que ela existe.

Link curto: http://brasileiros.com.br/usolY
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  • Eduardo Kono

    A limpeza visual do projeto de João Dória traz tranquilidade aos olhos e cria um ambiente de organização. Quem picha não respeita nada. Essa ainda é a principal filosofia desses grupos. Se antes significava protesto, hoje não passa de puro vandalismo, ou você acha que “Os Nóia” tem algum significado político? Vale dizer que passei pelo bairro do Bixiga e à noite parece uma daquelas vielas abandonadas em filme americano forradas de pichação, mendigos, sujeira e desorientados.

    Já estive em mais de 20 países e fica evidente que grafites e pichações são costumes de periferia. Alguns grafites podem ilustrar algum muro ou as costas de um prédio em lugares melhores, mas são detalhes que complementam a cidade e não sobrepõe cada centímetro disponível como um câncer. Há equilíbrio. Aliás, monumentos públicos como pontes e estátuas são respeitados e não vandalizados massivamente.

    Todo planejamento de cidade leva em conta uma estratégia de priorização. E sempre que alguém começar por um lado (limpeza), sempre vão criticar por outro (habitação). Não vale à pena ouvir certas críticas, pois sempre vai haver motivo de falar mal. Além disso, Dória está dando outro passo que é de criar núcleos espalhados de arte para
    grafiteiros e afins, como ocorre no Beco do Batman. Cadê a política de exclusão,
    agora?

    Doria não quer criminalizar a cultura de rua, quer criminalizar o vandalismo e a falta de respeito. O que a Revista acha da pichação no monumento da Tomie Ohtake do Centro Cultural? Lindo? Forma de expressão? Pra mim é falta de respeito. E essa referência pode ser levada a 99% da cidade. Depois de restaurada levantou o moral tirando aquela cara de cidade abandonada. Pessoas estão pagando caro para restaurarem fachadas de lojas e moradias por causa de uma minoria baderneira que para mim está no nível de bandido.

    Quanto à remoção de itens pessoais de sem-tetos, o que mais ocorre é que quando os moradores de rua não precisam, eles simplesmente abandonam. Ficou muito evidente quando houve em 2016 uma queda acentuada da temperatura da cidade e diariamente toneladas de cobertores eram abandonadas no centro da cidade, mas isso ninguém comenta. Ninguém faz coisas de graça, mas a mídia conta meias verdades quando quer.

    E as ações do Prefeito quanto às pichações podem não ter respaldo social dentro das pesquisas de mercado, mas ultimamente não parece que as pesquisas profissionais tenham acertado muita coisa. Considerando a grande fatia de “pagadores de impostos”, ou seja, classe média e alta, ainda não ouvi nenhuma crítica ativa das ações de limpeza visual da prefeitura.