Em um mosteiro encravado no alto da montanha, em Subiaco, monges já produziam livros gravados em madeira desde o século XIII

Foto: Reprodução

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Desde que a impressão em tipos móveis foi inventada na pequena cidade da Mogúncia, nas margens do Reno, em meados do século XV, as oficinas tipográficas não cessaram de se desenvolver por toda a Europa. Logo no início os impressores, na maior parte alemães, saíram em busca de centros intelectuais e religiosos expressivos para apresentar a grande novidade.

Um dos sócios de Gutenberg, Johann Fust, seguiu para Paris, com alguns impressos nas mãos. A nova arte foi vista com reserva e não demoraram a aparecer os trocadilhos maldosos, que fizeram do jovem estudante alemão a expressão viva do Faust.

Na distante Subiaco, na Itália, em um mosteiro encravado no alto de uma montanha, a arte de gravar não era nenhum segredo. Sim, embora os monges não conhecessem a impressão tipográfica, eles eram exímios gravadores em madeira.

Porém, a arte xilográfica que ali praticavam era toda ela voltada para a ornamentação dos livros. Uma única matriz xilográfica composta apenas por textos, com a medida de 65 x 55 mm, do século XIII, chama a atenção por seu caráter extravagante. Afinal, estariam os monges tentando desenvolver uma nova técnica de reprodução dos livros?

Sabemos que a xilogravura se desenvolveu no Oriente e demorou a ganhar o território europeu. Algumas imagens xilogravadas na segunda metade do século XIV dizem muito da inserção dessa nova técnica. Porém, a maior parte dos estudos aponta para um uso popular, entre os iletrados que não tinham acesso aos códices manuscritos ilustrados e tampouco às pinturas.

Assim eles compravam seus santinhos xilogravados nas feiras, nas romarias, enfim, pelos caminhos por onde andavam. Ter um santinho no bolso era uma forma de se proteger contra os males do mundo. Mas daí a usar a matriz xilográfica para impressão do livro, eis um trabalho que logo de início se tornou muito complicado.

Embora relativamente distantes das cidades renanas, ou até mesmo de qualquer núcleo urbano e de qualquer universidade, os monges de Subiaco vão conhecer em primeira mão a chamada ars impressoria. É que, naqueles tempos, a comunidade beneditina que resguardava o museu e sua riquíssima biblioteca era composta por uma maioria alemã. Conhecedores desse fato, os tipógrafos Sweynheym e Pannartz se dirigem para lá, onde permanecem por alguns anos.

Como disse, esses impressores se comportam como verdadeiros andarilhos, uma vez que aprendem a arte de imprimir, seguem adiante, com suas prensas, seus tipos, com a finalidade de difundir a técnica e expandir o mercado. Foi assim que no início do outono de 1465 viria a lume um belíssimo exemplar impresso da obra De Oratore, de Cícero.

Nos anos seguintes saem novos livros, todos em grande formato, com textos extensos, comentários, ilustrações e uma tipografia impecável. É o que vemos na edição de Cidade de Deus, de Santo Agostinho, ou na obra coligida de São Jerônimo.
Graça e arte a serviço dos santos padres.

Graça e arte a serviço da cultura ocidental. Em Subiaco os livros estão por todas as partes. Nas vitrinas de seu belo museu do livro e da tipografia. Em sua biblioteca austera. E nos afrescos que ornam as suas capelas. Graça e arte que nos levam a conhecer um ideal de beleza elevado, o que faz dos livros de Subiaco exemplares únicos, divinos, inatingíveis.

*Professora da USP e autora de, entre outros, O Império dos Livros: Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista, Prêmio Jabuti, 2012. Para ler mais, entre na página 

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