Com uma aliança entre mulheres profissionais da música, o coletivo SÊLA quer transformar essa cena brasileira em busca da igualdade de gênero

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Cinco integrantes do SÊLA: em pé (da direita para a esquerda), Laíza Negrão, Flora Miguel e Fernanda Martinez. Abaixo (da direita para a esquerda), Cris Rangel e Camila Garófalo. Foto: Jamyle Rkain

 

Impulsionada pelo desejo de fomentar o protagonismo feminino no mundo da música, a cantora e compositora Camila Garófalo decidiu criar o coletivo SÊLA. Nos primeiros dias de divulgação do projeto, muito se falou sobre a iniciativa ser um festival ou um selo musical, mas a ideia central é criar uma aliança entre mulheres para se apoiarem nos palcos e nos bastidores da indústria fonográfica em busca de maior projeção.

Camila então chamou Laíza Negrão e Fernanda Malaco para integrarem o núcleo de formação do SÊLA. Também se juntaram ao grupo as produtoras culturais Marina Coelho e Cris Rangel, a designer Fernanda Martinez, a assessora de imprensa Flora Miguel e a produtora musical Érica Alves.

Juntas construíram a primeira ação da rede de mulheres, o Festival SÊLA, ocorrido entre 1º e 5 de fevereiro. A ideia de fazer um festival de cunho feminista rapidamente viralizou nas redes sociais e agregou grande público. Embora não descartem a pretensão de criar uma gravadora que dê conta de difundir os trabalhos de suas associadas, as integrantes do SÊLA querem multiplicar eventos coletivos como o primeiro festival.

É por meio deles, segundo Laíza, que pretendem chamar a atenção do mercado para a causa do grupo. A atuação do SÊLA também se dará nos bastidores da música, com a promoção da aproximação entre mulheres que trabalham como roadies, produtoras ou técnicas de som e a disseminação desses ofícios por meio do intercâmbio de experiências profissionais.

“Mulheres da música nos contam que é preciso pedir mais de uma vez para ser ouvida, deve-se ‘falar mais grosso’ para ser levada a sério, que uma mulher com conhecimento técnico não é bem-vinda e que é preciso ter um homem na equipe para que ele repasse informações técnicas e reafirme o que a mulher disse”, defende.

Por mais que reclamações referentes a comportamentos machistas sejam recorrentes, ela, no entanto, afirma que o coletivo está aberto para colaborações masculinas. “É importante ressaltar que o papel do homem é fundamental na nossa trajetória. Não queremos menos homens na música, queremos sim um espaço que é nosso por direito. E isso acontecerá com a empatia e colaboração deles.”

Ouve-se muito, de acordo com ela, pessoas buscando naturalizar o preconceito ao dizer que a predominância masculina na música e nas artes em geral é um fator histórico, mas ela rebate: “Se somos constantemente expostos a homens na música, atribuímos isso, inconscientemente, à competência musical deles. Sabendo que a coisa funciona assim, é preciso aumentar a exposição de mulheres. A mulher deve ser mostrada como protagonista, profissional de sucesso, competente, independente e forte”.

O coletivo também pretende fazer oposição incisiva às opressões sofridas por mulheres negras, nordestinas, trans e homossexuais. Prova disso é que a programação do primeiro festival foi muito diversificada. Foram convidadas mulheres negras, como Tássia Reis e Anna Tréa, trans, como Assucena e Raquel, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, além da sergipana Sandyalê.

Também entraram na jogada Tiê, Natália Matos e a própria Camila Garófalo. “SÊLA é uma aliança transfeminista que abraça a causa trans, porque reconhece travestis e transexuais como mulheres e entende que na intersecção dessas realidades existe a luta comum contra o machismo”, pontua Laíza.

Outra proposta do SÊLA para um futuro próximo é oferecer alguns serviços pontuais para quem dá os primeiros passos no meio artístico, como explica Laíza, que também é publicitária: “No futuro, vamos prestar serviços de comunicação, produção, venda de shows e muito mais. Sempre de mulheres, para mulheres, por mais mulheres”.

Nas redes sociais, as meninas do SÊLA têm feito uma série de iniciativas para interagir com o público e com potenciais artistas que possam somar forças com o coletivo, num processo multimídia de difusão de informações. Algumas das publicações recentes, por exemplo, pedem que os seguidores das páginas do Facebook e do Twitter do SÊLA indiquem mulheres negras e transexuais que trabalhem com música. 

Com a intenção de contemplar vários gêneros de música popular, do samba ao rap, da MPB ao jazz, a ideia do grupo, diz Laíza, é aumentar continuamente a troca de diálogos entre as colaboradoras. “Queremos inspirar e fortalecer uma grande aliança, colocando cada vez mais mulheres no palco”, conclui.

Camila Garófalo, idealizadora do projeto, se diz satisfeita com o eco feito pelo festival. “Foi incrível. Não esperávamos que fosse bombar desse jeito”. Com três noites da Sala Adoniran Barbosa, do Centro Cultural São Paulo, cheia, acredita que conseguiram atingir o objetivo de fazer com que a atenção das pessoas se virasse para a causa que defenderam durante os cinco dias. 
 
O compartilhamento de ideias e experiências mesmo durante os intervalos das atrações foi o ponto alto do evento. Para Camila, isso mostrou o engajamento das participantes e do público com o que o coletivo propôs. O grupo já pensa em outras iniciativas para continuar a corrente que começaram.

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