Há 55 anos na ativa, o festival idealizado pelo maestro Gilberto Mendes finalmente ganha seu primeiro registro oficial. Lançado pelo Selo Sesc, o CD duplo é uma rara oportunidade para se conhecer o melhor da produção de vanguarda

Foto: Luiza Sigulem

Foto: Luiza Sigulem

Gilberto Mendes é uma figura única no cenário cultural. Deveria ser ensinado nas escolas, ao lado de Volpi e Guimarães Rosa. Não apenas foi um incansável pesquisador de novas possibilidades na música chamada erudita – estendendo, inclusive, seu alcance ao universo popular – como também ajudou a difundir o trabalho de inúmeros compositores e intérpretes de vanguarda através do Festival Música Nova, que criou em 1962 e até hoje surpreende, a cada ano, um público cansado do academicismo dominante e dos padrões sonoros do mercado.

Mendes morreu em janeiro de 2016. Tinha 93 anos, mas um sorriso de garoto e certamente muito ainda por fazer. Este primeiro registro oficial de seu festival foi realizado na edição de 2014, em Ribeirão Preto (antes, o evento se dividia entre Santos e São Paulo). Duplo, o CD traz 13 peças, de 12 compositores diferentes, vindos de várias partes do Brasil, e também da Alemanha, Coreia do Sul e Estados Unidos. Mendes, a quem o CD homenageia, está representado por duas composições. Não à toa, um dos grandes destaques dos discos é uma delas, cujo título já dá uma boa ideia da ambição e humor peculiares do maestro santista: Ulisses em Copacabana, Surfando com James Joyce e Dorothy Lamour.

img_488
As divertidas referências se deixam revelar na dinâmica da peça, de 1988, originalmente encomendada para o Festival Internacional de Patras, na Grécia. É uma verdadeira viagem no tempo, com menções a obras impressionistas e neoclássicas, aos ritmos do jazz e da bossa nova, indo do kitsch ao sublime como se essa fosse a transição mais natural do mundo. As paisagens e personagens se sucedem em ondas. Dorothy Lamour surge, com seu rabo de sereia, ao som de um inusitado violão, para encantar o herói de Homero e James Joyce no litoral brasileiro. Dá a sensação de que a partitura pode ser lida como um romance sonoro ou uma comédia de bemóis e sustenidos.

As demais composições, se também trazem essa diversidade de referências e esse pendor para a narrativa (O Fio das Miçangas, de Leonardo Martinelli, por exemplo, se apoia em Mia Couto), pautam-se mais como espelho do esfacelamento do projeto humano na Terra. Violinos soam como guinchos lancinantes; notas de piano caem como blocos de concreto num lago sombrio. Ao fundo, o langor de violoncelos e contrabaixos reproduzem o ruminar angustiante de guerras e fábricas; no alto, voam escalas aflitas de clarinetes, repentinamente abatidas pelos sons marciais de trompetes.

A Música Nova raramente faz concessões aos confortos da melodia. Quando se sobressaem, as melodias são em geral inquietantes, investidas de certa dose de suspense. O intuito não é agradar, mas fazer refletir, despertar o espírito crítico e criativo. Nesse sentido, saltam aos ouvidos as peças Lunatic (2012), de Dorothea Hoffmann, baseada no Pierrot Lunaire, de Schoenberg, e Prenascença (1978), de Gil Nuno Vaz, trilha para um projeto multimídia de ficção científica, como explica o autor no ótimo encarte. Mas as outras faixas merecem igual atenção neste que é, desde já, um dos CDs mais interessantes do ano.

CONTEÚDO!Brasileiros
Leia a reportagem O Navegante da Vanguarda, um perfil do maestro Gilberto Mendes  

Link curto: http://brasileiros.com.br/yV5Ku
Tags: , ,