Símbolo da ousadia feminina, a dançarina que apresentou o exotismo oriental à Europa foi morta há 100 anos, após condenação controversa

 

Apresentação da dançarina, que estreou em Paris, em 1905 – Foto: Reprodução

Apresentação da dançarina, que estreou em Paris, em 1905 – Foto: Reprodução

No comando do pelotão de fuzilamento, o oficial francês se aproximou das duas freiras que ladeavam Mata Hari, a dançarina que colecionara admiradores e tinha sido condenada por espionagem a favor da Alemanha. Ele levava um pano branco nas mãos. “A venda”, disse às freiras.

Mata Hari perguntou de imediato: “Preciso usar isso?”. O oficial francês respondeu secamente: “Se madame prefere não usar, não faz diferença”. Pouco depois, olhando fixamente para os 12 militares que dispararam em sua direção, a dançarina cambaleou e dobrou-se sobre os joelhos dobrados.

A descrição é do jornalista britânico Henry Wales, que cobriu o fuzilamento em Vincennes, no entorno de Paris, pela agência americana International News Service. Segundo Wales, Mata Hary não caiu diretamente para frente ou para trás, como “atores e estrelas de cinema em movimento” costumam interpretar pessoas baleadas.

Cena do fuzilamento interpretada por Greta Garbo, em filme de 1931– Foto: Reprodução

Cena do fuzilamento, interpretada por Greta Garbo, em filme de 1931– Foto: Reprodução

Mata Hari era, na realidade, Margaretha Gertruida Zelle. Filha de um comerciante, nasceu em 1876 na cidade holandesa de Leeuwarden. Depois de casar-se com um capitão do Exército, ela viajou para o sudeste asiático com o marido, destacado para servir em Java, a principal ilha da Indonésia.

Na época, Java integrava o império holandês e Margaretha não demorou a mergulhar na cultura da ilha, repleta por templos hindus. O casamento desandou poucos anos depois e, ao embarcar de volta para a Europa, Margaretha se reinventou como Mata Hari, dançarina javanesa.

Nos palcos, ela fez sucesso desde a estreia em Paris, em 1905, quando apresentou o exotismo oriental à Europa. Nas altas rodas, ficou conhecida por envolver-se com homens poderosos, de diferentes países. Durante a I Guerra Mundial, acabou acusada pela França – a cujo serviço de inteligência chegou a se engajar –, de espionar para a Alemanha.

Até hoje o julgamento é considerado controverso. A antropóloga americana Pat Shipman, autora do livro Femme Fatale, publicado em 2007, se alinha entre os pesquisadores que questionam a condenação, divulgada com estardalhaço pela imprensa da época.

Shipman defende que Mata Hari foi usada como bode expiatório, para desviar o foco da opinião pública sobre as derrotas do Exército francês no front. Faz sentido.

O fuzilamento na primeira página do jornal – Foto: Reprodução

O fuzilamento na primeira página do jornal – Foto: Reprodução

 

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