Medida, de dezembro de 1967, extinguiu a proibição de trabalhar em 6 de janeiro. Em 1855, o escritor José de Alencar alertava, em artigo, para o risco da perda da tradição, mas a folia segue perpetuada no século XXI

Grupo de reisado de Juazeiro do Norte (CE). Foto: Reprodução / EBC

Grupo de reisado de Juazeiro do Norte (CE). Foto: Reprodução / EBC


Escolhida por Tim Maia para abrir a seleção de 12 faixas de seu segundo álbum, de 1971, a composição A Festa do Santo Reis foi escrita pelo músico paulistano Márcio Leonardo. Ambos se conheceram no ano anterior, na extinta boate Cave, sediada no centro da capital paulista, onde Tim se apresentava regularmente. Sucesso imediato – e sempre lembrada em 6 de janeiro – a canção retrata uma das tradições mais relevantes da cultura popular do Brasil, a Folia de Reis, também conhecida como Reisado ou Epifânia do Senhor Jesus.

Para muitos brasileiros que residem em regiões urbanas do País, restou apenas o hábito de, em 6 de janeiro, desfazer as ornamentações natalinas de suas residências, mas, para aqueles que continuam a perpetuar a tradição, sobretudo em regiões rurais do País, a festa envolve uma ritualística, impregnada de música e dança, que tem início na véspera do Natal e atravessa os 12 dias subsequentes até chegar ao sexto dia de janeiro, quando, segundo a narrativa bíblica, os três Reis Magos, fizeram uma visita ao menino Jesus.

No artigo Dia de Santo Reis, origem e tradição, o jornalista João Rangel, professor da Universidade de Taubaté (SP), cidade que mantém vivo o Reisado, esclarece: “Comemorado em 6 de janeiro, o Dia de Santo Reis tem origem na tradição católica que lembra o dia em que Jesus Cristo, recém-nascido, recebeu a visita de três Reis Magos: Belchior, Gaspar e Baltazar, que vieram do Oriente, guiados por uma estrela. O evangelista Mateus narrou o acontecimento: ‘Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. (Mt, 2,11)’.”

Originária da Espanha, a tradição da Folia de Reis chegou ao Brasil por meio da colônia portuguesa no final do século XVIII e difundiu-se, primeiro, no Nordeste do País. Incorporado às características folclóricas locais, como o Bumba-Meu-Boi, a celebração cristã logo foi difundida em todas as regiões do País.

Liderados pela figura do Capitão, que carrega a bandeira ou o estandarte do grupo, os reisados desfilam pelas ruas de suas cidades ou vilarejos entoando cantos de louvor a Jesus, aos três reis magos, além de versos improvisados. Há variações em cada localidade, mas os instrumentos musicais mais utilizados pelos foliões do reisado são: sanfona, violão, bumbo, caixa, triângulo, rabeca e, claro, o pandeiro, ornamentado com as fitas multicoloridas cantadas por Tim Maia. 

A confecção da bandeira, explica Rangel em seu artigo, é impregnada de simbolismo: “Geralmente feita com tecido e decorada com figuras que representam o menino Jesus, a bandeira é enfeitada com fitas e flores de plástico, tecido ou papel, sempre costuradas ou presas com alfinetes e nunca amarradas com nós cegos. Segundo a crença, é para não ‘amarrar’ os foliões ou atrapalhar a caminhada.”

A cada itinerância festiva pelas ruas os grupos visitam dezenas de moradores que, em retribuição, fazem oferendas que vão desde uma xícara de café a uma refeição completa. “Com versos improvisados de agradecimento pela acolhida, os demais , cada qual na sua voz e vez, repetem os versos cantados pelo Capitão, acompanhados por seus instrumentos, que são enfeitados com fitas e tecidos coloridos. Cada cor possui seu próprio simbolismo. Rosa, amarelo e azul, podem representar a Virgem Maria; branco e vermelho, o Espírito Santo”, explica Rangel.

“Perda da tradição”
Em artigo publicado no dia 8 de janeiro de 1855 no jornal Correio Mercantil, o escritor José de Alencar lamentou o que considerava uma perda progressiva da tradição do Reisado: “Como todos os antigos costumes, esta festa vai caindo em desuso. Já quase não se vêem nessa Corte aquelas romarias folgazãs, aqueles grupos de pastorinhas, aquelas cantigas singelas que vinham quebrar o silêncio das horas mortas”, lamenta.

Há 50 anos, outra evidência da diluição gradativa dessa tradição foi decretada pela Igreja Católica brasileira. Em 22 de dezembro de 1967, com a manchete “Supressos 6 dias santos”, o jornal O Estado de S.Paulo repercutiu a decisão da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB): “Os fiéis católicos do Brasil foram dispensados da assistência à missa e da proibição de trabalhos nos dias 6 de janeiro (Reis), 19 de março (São José), 29 de julho (São Pedro), 15 de agosto (Assunção), 1° de novembro (Todos os Santos) e na festa móvel da Ascensão do Senhor”.

Mesmo sem o respaldo de um feriado nacional, as celebrações ao Dia de Santo Reis ainda são perpetuadas em diversos pontos do País, geração após geração. É o que atestam, por exemplo, os 66 eventos já realizados na cidade de Muqui, no Espírito Santo. Intitulada Encontro Nacional de Folia de Reis de Muqui, em sua mais recente edição, realizada em setembro de 2016, a celebração reuniu mais de 60 grupos de Reisado egressos de cidades do Espírito Santo e do Rio de Janeiro.

Em reportagem de cobertura do evento, feita pela comunicação da secretaria estadual de cultura do Espírito Santo, Luiz Augusto Pruculli, mestre do grupo Folia Estrela Paz do Oriente, de 78 anos, sintetizou o espírito da festa: “A Folia de Reis para mim é sinônimo de anunciação, renascimento, batismo e padecimento. Se Deus me abençoar com saúde, o folclore de Folia de Reis não acaba nunca”.

Outra figura típica da manifestação popular, o palhaço, espécie de abre-alas do Capitão, que veste uma máscara pintada de preto, é defendido, na reportagem, pela foliã Jorgelina da Silva como um símbolo de igualdade de gênero dentro do Reisado. “Estou completando sete anos que uso a farda de palhaço e tem 13 anos que brinco no Grupo Pena de Ouro, de Mimoso do Sul (ES). Algumas pessoas ficam admiradas quando descobrem que por trás da máscara de palhaço se esconde uma figura feminina, mas eu sempre digo que na Folia de Reis não existe diferença entre os homens e nós, mulheres”, diz.

A resignificação da tradição do Dia de Santo Reis também foi atestada, em 2006, pelo mestre em Ciências Sociais, Márcio Bonesso, em Os Encontros das Folias de Reis: uma diferente configuração de festas e associações no Triângulo Mineiro: “Essas cerimônias religiosas constituem espaços onde as relações entre as pessoas adquirem um modo peculiar que, às vezes, diferencia-se das relações do dia a dia. Elas servem como uma espécie de combustível para que a sociedade se revitalize, possa superar a rotina. Nesse sentido, um dos grandes objetivos da religião e dos rituais, como as folias de reis, é manter e regular os sentimentos de pertencimento coletivo, fazendo com que seus indivíduos dependam de uma ordem natural superior, salvando-os da desordem e do caos, ou então criando elementos reformistas ou revolucionários para que se rompa com a ordem indesejada”, diz Bonesso no estudo etnográfico focado em Minas Gerais, outro grande epicentro dessa tradição no País, com centenas de grupos.

MAIS 

Ouça A Festa de Santo Reis, composição de Márcio Leonardo, célebre na gravação feita, em 1971, por Tim Maia
 

Ouça a canção Folia de Rei, de Baiano & Os Novos Caetanos (na verdade, a dupla de humoristas Chico Anísio e Arnaud Rodrigues, saiba mais sobre o grupo)

Ouça o álbum Folia de Reis de Uberlândia. Lançada pelo Selo Mundo Melhor, do produtor Alfredo Bello, conhecido como DJ Tudo (leia perfil do artista), a compilação reúne composições de oito grupos da cidade do interior de Minas Gerais. 

Saiba como a festa é celebrada em outros países 
por Laíssa Barros

Na Espanha
, as crianças deixam sapatos nas janelas, cheios de capim ou ervas, a fim de alimentar os camelos dos Reis Magos. Reza a lenda que, em troca, os reis magos deixam doces e guloseimas para as crianças. Em algumas cidades organiza-se o cortejo dos Reis Magos “Cabalgata del Reyes”. Eles desfilam em carros muito bem decorados acompanhados de muitos cavaleiros. No fim do desfile os Reis misturam-se com as crianças para brincar.

Na Itália, a comemoração recebe o nome de Befana, uma bruxa boa que oferece presentes às crianças. No país não existe a tradição de se presentear no dia 25 de dezembro, mas no dia 06 de janeiro, Dia de Reis.  Mais amada do que o Papai Noel, a simpática velhinha, de roupas remendadas, chale, lenço na cabeça e chapéu pontiagudo, botas e de vassoura na mão, vem no dia 6 de janeiro trazer doces e presentes para as crianças que se comportaram bem, e carvão para quelas que foram malcriadas.

Na França, é um costume antigo consumir uma torta doce e recheada, a “Galette des Rois”. Há a tradição de se colocar uma fava seca ou grãos de feijão dentro da torta, e quem encontrar o prêmio em sua fatia é eleito o rei do dia. 

Em Portugal, as pessoas juntam-se e vão pelas portas cantar os Reis, que são canções tradicionais da vida de Jesus e saudações à família e donos da casa. O canto é acompanhado por instrumentos populares como: o reco-reco, os ferrinhos, o bombo, o acordeão e a viola. Depois de cantarem, os donos da casa, convidam os reiseiros para entrar e oferecem-lhes comida e bebida. O Cantar de Reis começa no dia 5 de Janeiro e vai até ao dia 20. 

Na Alemanha, as crianças disfarçam-se de Reis Magos e escrevem as iniciais do nome nas portas das casas. C + M + B., embora muitos pensem que seriam o abreviações dos nomes dos Reis Magos, as iniciais referem-se às palavras “Cristo Mansionem Benedicat” (Cristo abençoe esta casa). Purifica-se neste dia, as casas e estábulos, com incensos, para afastar as energias negativas e colocam a metade de uma cebola polvilhada com sal no peitoril da janela. 

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