Em entrevista, Justo Werlang fala sobre os desafios de sua gestão e da organização de “força-tarefa” para regularizar as atividades da fundação gaúcha; atualmente, museu abre apenas duas vezes por semana e conta com quadro reduzido de funcionários

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A sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, projetada pelo português Álvaro Siza. Foto: Divulgação

Justo Werlang está acostumado a apagar incêndios. Em 2009, era vice-presidente da Fundação Bienal de São Paulo, num momento crítico, quando a Bienal quase foi adiada por um ano. Passados sete anos, Werlang, que é colecionador de arte e já atuou em diversas instituições culturais, assumiu no mês passado a diretoria da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, que passou por maus bocados em 2016 – tendo demitido nove funcionários, de um total de 45, e passando a funcionar apenas dois dias por semana, sextas e sábados. Em entrevista à ARTE!Brasileiros, ele comenta os desafios de sua nova gestão, a programação para este ano, que incluirá cinco exposições, e garante que “a fundação não vai fechar”. Confira na íntegra:

ARTE!Brasileiros A Fundação passa por um momento de crise. Você poderia contextualizar melhor o que de fato ocorreu?
Justo Werlang – Em 2016, a economia do País entrou num ciclo vicioso e isso efetivamente diminuiu o potencial de patrocínio para toda a área cultural. Os nossos patrocinadores não tiveram condições de aportar recursos e a instituição entrou num período de crise, ou seja, num momento em que ela não conseguiu captar recursos suficientes para manter uma programação durante toda a semana, como estava previsto originalmente. Mesmo assim, temos uma programação já prevista até agosto e queremos cumprir esse programa. A instituição atualmente está abrindo dois dias por semana. Em razão da saída do presidente anterior, eu assumi como diretor-presidente, com a força-tarefa de reposicionar a instituição. Esse trabalho de reposicionamento propõe alterações profundas na relação da instituição com o seu público e também na sua programação. É natural que as instituições, de tempo em tempo, façam revisões. Por ter tido uma posição privilegiada em relação ao financiamento, a Iberê Camargo deixou de fazer algumas revisões e reposicionamentos desde 2008, quando foi aberta. E com a crise, isso ficou evidente.

E quais seriam essas medidas de reposicionamento?
Nós vamos cumprir essas exposições que estão no programa (confira abaixo*) e também agregar uma série de programas na área de música, cinema, teatro, focando em trazer um público que não é necessariamente o de artes visuais. Toda a programação sempre terá uma preocupação de conversar com a cidade, com os jovens artistas e curadores. Por exemplo, o educativo da Fundação sempre foi bastante atuante, mas a ideia é fazer com que o educativo não aconteça somente dentro do prédio. Queremos formular um programa de arte-educação que converse com a secretária do Estado. E a partir daí, num projeto conjunto, levar arte-educação para todo o interior do Estado. Outra proposta é que as instalações da Iberê possam abrigar outros eventos da cidade como, por exemplo, o festival de teatro Porto Alegre em Cena. Ou seja, a Iberê pode servir de palco para diversas iniciativas da cidade. A ideia é desmistificar ou dessacralizar a imagem de um templo e fazer com que a Iberê tenha sentido e significado para um número maior de pessoas. Isso sem perder a identidade, e por isso vamos contratar um curador residente assim que possível. Eu assumi o cargo no dia 7 de dezembro e até o fim do mês nós conseguimos captar uma soma significativa de recursos, tanto em caixa quanto em patrocínios a serem efetivados no ano de 2017, então estamos analisando a data em que a instituição voltará a funcionar regularmente, abrindo seis dias por semana.

Então não há o risco da instituição fechar?
Não, ela não vai fechar. O momento mais crítico, que foi no mês de dezembro, já passou.

Como democratizar as instituições culturais, diversificar o público, sem criar mostras que sejam apenas consumíveis e se baseiem no giro das catracas?
Essa questão de atrair o público, na Iberê, é um pouco mais complicada. Hoje, para uma pessoa chegar à fundação de ônibus é bem difícil. Já estivemos com o secretário de cultura do novo governo e, a partir da semana que vem, devemos atuar junto com as secretarias específicas para garantir algumas alterações que habilitem o acesso da população à instituição. Porque o acesso é muito fácil para quem tem carro, mas para quem depende do transporte público é bem mais complicado. A segunda questão tem a ver com as calçadas da instituição que não são adequadas ao trânsito de pedestres. Então isso é uma prioridade, facilitar que o público possa andar por ali, o que não acontece hoje.

Essa questão de exposições consumíveis é uma grande preocupação nossa. À medida que começarmos a diversificar a nossa programação, nós nos aproximamos de um risco que seria perder a identidade, fazendo algo sem rosto. E por isso é tão importante a presença do curador residente, para que ele mantenha uma programação coesa, com a possibilidade de reflexões. Temos essa preocupação de não oferecer uma programação açucarada, coisa somente de divertimento. Isso é uma questão de DNA da instituição, que foi traçado pelo próprio Iberê Camargo, que sempre foi contra oferecer algo meramente açucarado e pronto.

Havia um planejamento de levar as obras do Iberê Camargo para a Itália e Alemanha. Isso se manterá?
Essas exposições que estavam programadas para o exterior faziam parte de uma estratégia anterior, de uma visão que foi revista. E exatamente por isso essas mostras não acontecerão mais. Em curto prazo essa possibilidade não existe. Não é apenas uma questão de dinheiro, mas sim de termos muitas potencialidades para explorar na cidade, no Estado e no próprio País. Vamos implementar um programa dinâmico com prazos e metas, e não passivo como o que tínhamos anteriormente, para atrair o público. Também queremos encontrar patrocínios para realizar um catálogo final de toda a obra do Iberê.

O senhor gostaria de acrescentar algo?
Sim. A instituição necessita do apoio de todos os públicos. Por exemplo, a Fernanda Feitosa nos ofereceu um espaço na Sp-Arte para lançarmos o nosso programa de venda de gravuras dos artistas convidados. É um enorme desafio participar novamente da gestão da instituição, toda a nossa força-tarefa para fazer essa virada também conta com muitos voluntários. É um esforço do cidadão, algo que considero essencial. A sociedade civil deve ter uma corresponsabilidade com as instituições, ao invés de esperar que elas se mantenham sozinhas. Temos um Estado superdimensionado que não atende às necessidades, ele não pode resolver todas as questões. Será cada vez maior a necessidade das pessoas se corresponsabilizarem com o que tem na sua rua, seu bairro, cidade e etc. É uma questão, sobretudo, de como o cidadão pode fazer a diferença.

* A primeira exposição prevista na programação deste ano, que está sujeita a mudanças, é Torreão: O tempo é onde, o lugar é quando, que inaugura dia 16 de março e conta com curadoria de André Severo. Logo em seguida, uma nova exposição de Iberê está prevista, com curadoria de Paulo Pasta. A abertura está marcada para 29 de abril. Entre 23 de julho e 29 de outubro, inauguram duas exposições apresentadas em 2016: a retrospectiva de Millôr Fernandes, realizada no Instituto Moreira Salles, no Rio, e uma mostra sobre livros de artistas apresentada no Itaú Cultural, em São Paulo. O ano fecha com uma mostra programada para 9 de novembro que propõe uma conversa entre as gravuras de Iberê e as gravuras de mais 39 artistas que participaram do Programa Artista Convidado do Ateliê de Gravura da Fundação.

CONTEÚDO!Brasileiros

Leia entrevista com Jorge Gerdau Johannpeter, um dos fundadores do instituto

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