Ação, que integra o programa Cidade Limpa, subestima o papel da expressão artística para o movimento surgido em São Paulo há mais de 30 anos

Grafite da dupla Os Gêmeos em homenagem ao álbum Hip-Hop Cultura de Rua, coletânea lançada em 1988, que difundiu o movimento no País. Foto: Reprodução / Facebook

Grafite da dupla Os Gêmeos em homenagem ao álbum Hip-Hop Cultura de Rua, coletânea, lançada em 1988, que ajudou a difundir o movimento no País ao dar voz a pioneiros como Thaíde e DJ Hum, MC Jack e Código 13. Foto: Reprodução / Facebook

Na penúltima edição da Bienal Internacional Grafitti Fine Art, realizada em São Paulo, em janeiro de 2013, um dos convidados para a série de debates promovidos pelo evento foi Paulo Mendes da Rocha, arquiteto e urbanista brasileiro de prestígio internacional. Questionado sobre o que pensava sobre o grafite, Mendes da Rocha, na época com 84 anos, afirmou: “Me parece a voz mais candente, hoje, das artes gráficas em geral”.

Ao lembrar que há milhões de anos o homem já deixava nas cavernas evidências visuais de sua passagem pela Terra, o arquiteto concluiu: “A grande novidade foi a invasão do espaço público pelas camadas mais populares de todas as cidades do mundo. Portanto, para mim, salve o grafite!”.

A difusão global do grafite destacada por Mendes da Rocha é um fenômeno iniciado nos Estados Unidos na segunda metade dos anos 1970, graças ao surgimento, em cidades como Nova York e Los Angeles, de expressões artísticas que convergiram para estabelecer os três elementos do Hip-Hop: o rap (sigla para “música e poesia”), composto pelo DJ e o MC; os b-boys e b-girls, garotos e garotas que dançam ao som do rap; e o próprio grafite.

Respeitada mundialmente como porta-voz da juventude segregada em regiões periféricas das grandes urbes, a tríade de linguagens que consolidou o Hip-Hop como uma das mais importantes manifestações culturais do século XX encontra na São Paulo de 2017, no entanto, um ambiente hostil, graças à cruzada higienista decretada pelo recém-empossado prefeito João Dória Jr. (PSDB-SP).

Ao anunciar a criação do programa Cidade Linda, no dia 30 de dezembro, Dória antecipou que destinaria tolerância zero a pichadores, e informou também que pretende desenvolver um programa de formação de grafiteiros, chamado Arte Urbana, além de criar na cidade um “grafitódromo”.

Segundo Dória, o projeto será coordenado pelo muralista Eduardo Kobra. Conhecido, dentro e fora do País, pelos retratos multicoloridos de grandes personalidades sobrepostos por temas geométricos, Kobra, no entanto, afirmou que desconhecia a iniciativa e que, devido a uma demanda de 28 painéis que produzirá em Nova York até novembro deste ano, não vai colaborar com o programa da prefeitura.

Garoto propaganda do Cidade Linda, Dória foi flagrado, no último sábado (14), trajando um uniforme laranja e cobrindo um grafite na avenida 23 de Maio, no centro da cidade, com um jato de tinta cinza. Na operação anunciou também que determinará oito espaços reservados para o grafite naquela via pública e que extinguirá as pinturas que ilustram os chamados “Arcos do Jânio”, instalados no início da 23 de maio, avenida que liga as zonas norte e sul da cidade.

 

Em sua página pessoal no Twitter, João Dória Jr. divulga ação do programa Cidade Linda. Na imagem anexada, o prefeito de São Paulo apaga um grafite na avenida 23 de Maio. Foto: Reprodução / Twitter

 

Ao defender o grafite como alternativa artística ao picho, Dória, em contrapartida, ignora quatro décadas de importância histórica da expressão visual para o Hip-Hop. Apagar compulsoriamente muros e muros da cidade impregnando as paredes de cinza e querer determinar espaços exclusivos para a prática do grafite é também desconsiderar a autonomia de uma expressão que sempre foi livre e sempre possibilitou manifestações legítimas das camadas menos visíveis de sociedades desiguais, como a nossa.

A ausência de diálogo com a comunidade do Hip-Hop, presente em São Paulo desde o início dos anos 1980, evidencia, neste caso, um comportamento arbitrário da nova gestão municipal. Querer gerenciar a produção de grafite na cidade é como querer intervir na capoeira e tirar da roda o berimbau, não faz o menor sentido.   

No comunicado oficial sobre o projeto Cidade Linda publicado no site da Prefeitura, chama atenção o trecho a seguir: “O principal objetivo é a melhora na zeladoria urbana e o resgate da autoestima do paulistano, em ação integrada entre poder público, iniciativa privada, ONGs e cidadãos”.

Parcerias a parte, como gestor da maior cidade da América Latina, João Dória devia saber o quanto o Hip-Hop elevou – e continuará a elevar – a autoestima da juventude periférica de São Paulo. Negar a livre manifestação dessa camada expressiva de nossa sociedade é também negar a cidade em sua essência.

Vale lembrar, por fim, que os mutirões de assepsia, bem-vindos no aspecto de manutenção dos espaços públicos, provavelmente terão efeito temporário com relação ao grafite. Afinal, a proliferação de muros cinzas em São Paulo é também um convite aberto a novas intervenções. Como diz uma provocação replicada em vários pontos da cidade: “Eu picho e você pinta / Vamos ver quem tem mais tinta”.

MAIS
Na tarde desta segunda-feira (16), o vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) publicou em sua página oficial no Facebook a foto abaixo de seu gabinete, recém-grafitado pela artista Mari Mats. No post, também divulgou a seguinte mensagem: “O grafite é uma forma de arte original, de rua, inclusiva e democrática. Rejeita restrições e regras fixas, incentiva a participação popular. Transformou-se em uma cultura de resistência à segregação social e urbana. Eu estimulo essa importante manifestação cultural e artística, destinando uma das paredes de meu gabinete à obra da artista Mari Mats”. 

 

O vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresenta o grafite recém-pintado em seu gabinete. Foto: Reprodução / Facebook

O vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) apresenta o grafite recém-pintado em seu gabinete. Foto: Reprodução / Facebook

CONTEÚDO!Brasileiros 
Leia entrevista com Paulo Mendes da Rocha, capa de nossa edição 108, de julho de 2016.
- Leia também a reportagem No Fio da Navalha, de Leonor Amarante, ex-editora da revista ARTE!Brasileiros, sobre a ascensão do grafite como expressão artística.      

Link curto: http://brasileiros.com.br/2dxee
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  • Marcos Ribeiro

    queria ler algo imparcial para poder acreditar no que estou lendo, ora leio algo de direita, ora de esquerda, não tem algo imparcial?

  • Jeferson Comuna Academica

    considero como intolerante a ação tomada pelo atual prefeito de São Paulo. Sua atitude lembra as ações tomadas durante os governos militares, que calavam as vozes do povo, que nada podia. Todos conhecemos a importância da cultura hip-hop para as ações afirmativas. Infelizmente, existem aqueles que desconhecem o contexto e apoiam a barbárie praticada pela atual gestão.

    • Juliano Yoshiro Nishiura

      Os únicos grafites que estão sendo apagadas são aquelas que já estão degradadas ou pichadas por cima. E cabe a competência da prefeitura determinar o lugar onde os grafites serão permitidos

      • Jeferson Comuna Academica

        Juliano Nishiura, realmente os grafites degradados são feios, mais, representam uma expressão cultural, de um movimento que nunca se calou, por isso, fazer o que a prefeitura vem fazendo não é correto. O fato de determinar o local onde podem ocorrer também não e certo, pois a arte esta em todos os lugares, haja visto, que muitos artistas usam o próprio corpo para mostrar e expressar sua arte.

        • Juliano Yoshiro Nishiura

          Você me respondeu educadamente. Já tem o meu respeito :)
          Apesar do grafites representar uma expressão cultural do hip-hop, entenda que nem todas as pessoas gostam da mesma arte. Queria ressaltar também que o Dória está apagando as pichações ( que são visualmente feias ).
          E eu acredito que há um motivo para a prefeitura decidir o lugar onde a arte deve ser feita. Já pensou se grafitassem em todos os lugares? A cidade iria ficar com poluição visual devido ao colorido.

          • Vinicius Carneiro

            Feio pra quem? Quem determina o que é arte? O que não é arte hoje, não poderá ser Amanhã?
            Duchamp lançou esse questionamento colocando um mictório em uma galeria. Hoje aquilo é considerado uma das mais importantes obras do último século.
            A arte não deve ser pautada pelo seu senso estético. Se vc acha feio, há quem não acha. Se vc acha que é sujeira, eu digo que é arte. Então, nao é pq vc nao entende ou nao gosta, que ira apagar o trabalho ou manifestação que não é sua.
            E tem mais… os grafiteiros são (ou foram) também pixadores em sua maioria. Então no meio do grafite há um grande respeito ao pixo e vice-versa , pois os artistas transitam entre ambos.
            Prefeito, deixe a arte com quem entende e cuide dos problemas reais da cidade.

          • Giovanni Langella

            Exatamente como você disse Vinicus, Quem determina o que é arte?O Picho é bonito pra quem?A cidade é de todos nós, então vocês também não tem o direito de ditar o que é feio, bonito, certo ou errado. Abraços!

          • Jeferson Comuna Academica

            Dica, pesquise sobre a importância da arte no mundo pós-guerra, veja como ela mudou o mundo e fez muitas pessoas repensarem seu significado. Arte não é somente o quadro ou a escultura, hoje sua abrangência e muito maior, é por isso as vezes ficamos em dúvida sobre a validade de certas obras. Entretanto, muitos grafites são considerados expressões artísticas importantes. Na Alemanha, por exemplo, uma cidade promoveu um concurso mundial para grafitar os seus muros, um brasileiro ganhou, seu projeto foi desenhar nesse espaço elementos da cultura indígena, essa obra foi tão importante que tornou-se uma dos patrimônios da humanidade.

          • Giovanni Langella

            E sobre o prefeito cuidar dos problemas reais da cidade, você acompanha o que o prefeito já fez nesses 24 dias de mandato? Eu acho que não, porque ficar sendo papagaio da esquerda na internet é mais fácil! Vai se informar, brother! Sai um pouco dessa sua caixinha esquerdopata e veja o que está acontecendo aqui fora! Abraços!!

          • Jeferson Comuna Academica

            Giovanni, compreendo sua indignação, todavia, esse discurso que vejo na internet desde 2005 referindo-se a um mundo bipolarizado e algo totalmente sem sentido. Hoje a divisão econômico pauta-se em outras regras, nem os próprios americanos utilizam mais essa denominação. A questão levantada pelo artigo esta situada nos direitos e deveres que a sociedade tem. Lembre-se que seus direitos começam quando termina o meu. Por mais que a discussão sobre o que é ou não é arte seja calorosa, devemos respeitas as diversas expressões culturais. Mesmo não concordando, quando passamos a barreira do respeito, nós tornamos intolerantes.

          • Juliano Yoshiro Nishiura

            Vinicius, sua colocação é interessante. Sobre pixação, compreendo que é uma arte, e eu a considero visualmente feia ( isso é apenas a minha opinião ).

            “Se vc acha que é sujeira, eu digo que é arte. Então, nao é pq vc nao entende ou nao gosta, que ira apagar o trabalho ou manifestação que não é sua”

            Nâo é bem por aí não. Se o pixo está sendo feito em lugares privados como uma casa, um prédio, ou em lugares inapropriados como um museu, uma estátua ou um hospital, o pixo deve sim ser apagada.

          • Jeferson Comuna Academica

            Juliano, eu que agradeço a sua cortesia, um debate realizado de forma educada e com ambos participantes podendo expor sua ideias torna-se benéfico para as duas partes pois todos aprendem, principalmente quando passam a compreender melhor a visão do outro. Referente ao tema, concordo contigo em partes, realmente existem diversos grafites que já são antigos e estão despotados, mais no meu ponto de vista, a prefeitura deveria promover um grande evento para que esses fossem renovados e representassem o momento político, econômico e social que vive a sociedade hoje.

        • Juliano Yoshiro Nishiura

          Aliás, por que me respondeu num tom diferente?

          • Deh Ramos

            Sim, leve essa sua particular compreensão do que se pode ou não pode fazer em uma cidade para qualquer lugar civilizado no mundo e veja só onde você vai parar com essa rebeldia sem causa. Tem lugar que será preso, em outros tomará uma multa violenta e terá que pagar com trabalho comunitário sem choro nem vela, e se for lá para o oriente, China em especial, tomará até castigo físico. Mas ficando só no mundo ocidental relevante, sua atitude é crime e desrespeito ao próximo, ao outro. Não há unanimidade de gostos em uma metrópole e você terá que respeitar o gosto dos outros. E será em locais determinados sim, como já é no mundo civilizado. Mas se gosta de morar e viver no lixo pode se mudar para ao lado de um aterro sanitário que vc irá se sentir muito bem, parece…

          • Jeferson Comuna Academica

            Aponte esses lugares civilizados? Vamos ver onde são. Acho que já sei, a Indonésia. Acertei? País que virou exemplo a ser seguido pelos intolerantes, fascistas e neonazistas brasileiros. Como vocês são antagônicos, falam em democracia, república, estado de direito mais não respeitam o outro. Faz o seguinte, pegue um desses países chamados civilizados e estude o processo de dominação econômica e social que implantam no mundo. Tenho certeza que não irá gostar do que vai ler.

          • Juliano Yoshiro Nishiura

            Essa seção de comentários tá virando uma bagunça :P . Não se sabe quem está respondendo a quem

    • Amanda Nunes

      Desde de quando pixar é cultura? Só se for no seu mundo de comunista e esquerdopata. O que o movimento militar de tem haver com isso? Há uma diferença muito grande entre PIXAR E grafitar seu jumento!

      • Jeferson Comuna Academica

        Amanda Nunes, vi que sua compreensão e falha e falta conteúdo ao seu conhecimento. Ao levar o debate para a bipolarização ficou claro que desconhece o contexto do período militar no Brasil, além de mostrar claramente que não entendi nada de arte. Obrigado por sua participação. Dica! Estude um pouco.

        • Deh Ramos

          O cara manda estudar e escreve “que não entendi nada de arte” usando o verbo entender na primeira pessoa para se referir à terceira pessoa… Ditadura Militar já faz mais de 30 anos que acabou jumento, estamos em plena democracia consolidada, o que significa respeitar e ser respeitado.

          • Jeferson Comuna Academica

            Companheira realmente foi uma falha imperdoável o erro de conjugação. Agora, querer ganhar um debate ofendendo, desculpe, isso sim é atitude de uma pessoa ignorante. Fala em respeito é em democracia mais não respeita a opinião do outro, sua posição é de uma pessoa intolerante. Outra coisa, vi que não conhece nada de história política. Quando cito o período militar faço com base no desrespeito aos direitos individuais. Leia sobre os Atos Institucionais. O governo atual tem a mesma atitude. Referente a democracia, faz o seguinte, Leia Noberto Bobbio – O Futuro da Democracia. Editora Paz e Terra. Quem sabe aprende um pouco mais sobre o real significado da palavra DEMOCRACIA.

          • Deh Ramos

            Foi escrever usando o editor de textos agora é rsrs? Quem não consegue escrever corretamente provavelmente não interpreta direito o que lê e previsivelmente não tem condições de passar lição em ninguém. Vivemos uma democracia consolidada, aceite que dói menos.

          • Jeferson Comuna Academica

            Vi que não consegue argumentar! Insiste em um fato isolado. Quando fala em democracia consolidada, seja mais especifica, o conceito hoje é muito amplo. Agora, caso não conheça leia um pouco sobre o tema, saia desde mundinho em que vive.

    • il Quasímodo

      Intolerante? Então dá o teu endereço pra esses gênios da arte “colocarem arte” no muro e nas paredes da tua casa!
      Tem que apagar toda essa imundície e se voltarem a “fazer arte” devem ser punidos exemplarmente.

      • Jeferson Comuna Academica

        Amigo, já autorizei. Quer uma foto para ver como ficou lindo.

  • Deh Ramos

    Respeitem a frente da minha casa que respeito a arte de vocês. Quer transgredir? Vai “pixar” o batalhão da Rota lá na Luz. Me avisa antes que vou levar pipoca e sentar para assistir!

    • Coe Moraes

      demoro

      • Coe Moraes

        pixar com arma de paintball ainda pra ficar mais legal

  • Guilherme

    “Grafite” em lugar não permito é pixação e deve ser apagada. Simples assim.

  • K9s10

    É tudo lixo, tem que apagar mesmo. Queria um Doria aqui em Goiânia, para limpar essa merda de praça universitária, está tudo um lixo.