Lutando contra o machismo e o racismo, a carioca Gilka Machado foi a primeira poeta brasileira a escrever sobre a libertação da mulher pelo sexo

Gilka fotografada para a revista O Malho na ocasião da eleição feita para saber quem era a maior poetisa do Brasil, proposta pelo veículo em 1933. Foto: Revista O Malho/Biblioteca Nacional

Gilka fotografada para a revista O Malho na ocasião da eleição feita para saber quem era a maior poetisa do Brasil, proposta pelo veículo em 1933. Foto: Revista O Malho/Biblioteca Nacional

A literatura erótica feminina ganhou destaque nas últimas décadas com a reedição das obras de Hilda Hilst pela editora Globo. O movimento de mulheres divulgando poesia e prosa carregadas de luxúria abriu margem a uma série de discussões sobre a liberdade sexual da mulher e o machismo na literatura. Embora muitas autoras sejam aclamadas por esse tipo de criação literária – como a própria Hilda, Olga Savary e Adélia Prado – é incomum encontrar quem conheça a precursora desse movimento que deu à mulher autonomia para derramar seus desejos nas linhas de um poema ou um romance.

Faz um século, em 2016, que Gilka da Costa de Mello Machado – ou somente Gilka Machado – lançou seu primeiro livro, com impressão terminada em 31 de dezembro 1915. O espanto causado pelo conteúdo que Cristais Partidos trazia nas 111 páginas era esperado. Seus versos já tinham ocupado páginas de jornais e revistas da época, sendo ela colaboradora de alguns veículos, como a revista Fon-Fon e a Revista da semana. O motivo do assombro era o erotismo que ela empregou a alguns de seus poemas, deixando a sociedade da época incomodada com tamanha ousadia. Uma mulher escrevendo versos de conteúdo sexual era inadmissível para o contexto sociopolítico da República de Hermes da Fonseca. Apenas a hipótese de Gilka imaginar o desejo carnal já era condenável pelo crivo do machismo. Foi a crítica de Afrânio Peixoto, em 1916, que inaugurou a “caça à Gilka”, chamando-a de “matrona imoral”. Além de precursora na literatura erótica feminina e de denúncia da opressão às mulheres no Brasil, Gilka foi sufragista ativa, sendo uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino, fundado em 1910 apenas para Mulheres. Gostava de escrever “Mulher” assim, com M em caixa alta, para afirmar a força do sexo feminino. No partido, exerceu o cargo de primeira secretária. Em seus poemas, procurou abordar também a situação das classes sociais menos abastadas, deixando explícito o descaso do governo em relação a isso.

Nascida em 12 de março de 1893, na cidade do Rio de Janeiro, foi depreciada pela sua literatura, mas também muito aclamada por quem buscava compreendê-la. Neta de Francisco Moniz Barreto, baiano considerado o pai do humor obsceno no Brasil, Gilka desafiou a crítica literária machista e racista da época. Em carta enviada a ela em 1915, Lima Barreto destoa dos colegas de profissão e declara: “Admirei muito de sua inspiração, a sua completa independência de moldes, dos velhos ‘cânons’, e a sua audácia verdadeiramente feminina”. Já para Mário de Andrade, a “bacante dos trópicos, como era chamada por Agripino Griecco, era apenas uma menina. A todo o tempo, dirigia-se a ela com chamamentos infantis, embora fossem nascidos no mesmo ano. Isso mostra que a forma de Mário tratar Gilka era para depreciá-la. A história cuida de lembrar que o pioneiro do modernismo não fazia isso apenas por machismo, mas por não aceitar a orientação formal de sua literatura. Os versos simbolistas gilkianos tinham um flerte com o parnasianismo. Anos depois, parece se arrepender ao publicar, no Estado de S. Paulo, que ela era uma ”poetisa ilustre, autora dos mais ardentes versos femininos na nossa língua”.

A pele pálida, carregada por camadas de pó de arroz, escondia sua origem negra, também motivo para a ofensiva de críticos contra ela. O crítico Humberto de Campos – um dos defensores de Gilka junto a Osório Duque Estrada e outros – relatou, em Diário Secreto uma conversa com o também crítico Afrânio Peixoto, na qual este contava sobre o encontro que teve com Gilka ao ir lhe entregar uma carta. Peixoto disse, com desdém, que não imaginava que a poeta era uma “mulatinha escura” e fez questão de enfatizar que o ambiente de sua morada “respirava pobreza”.
  

Gilka é a mulher à esquerda e seu marido Rodolfo é o homem à direita, na parte de trás. Também estão na foto as escritoras Albertina Bertha e Laura da Costa e Silva. Foto: Revista Careta/Biblioteca Nacional

Gilka é a mulher à esquerda e seu marido, Rodolfo, é o homem à direita, na parte de trás. Também estão na foto as escritoras Albertina Bertha e Laura da Costa e Silva. Foto: Revista Careta/Biblioteca Nacional

 

A família também foi considerada culpada pela devassidão daquela moça que, aos 22 anos, se empenhou em se livrar das garras da sociedade. O registro da mãe como prostituta para poder trabalhar com atriz de rádio era motivo de chacota para depreciar suas origens, além de atribuírem culpa ao pai, um beberrão que batizou-a em homenagem a uma vodca alemã chamada Gilka. Assim, a poeta foi colocada à prova do método de Hippolyte Taine, baseado na ideia de determinismo, no qual a pessoa está fadada a se comportar de acordo com sua raça, seu momento histórico e o meio em que vive. Portanto, a culpa da imoralidade de Gilka vinha do fato de ser negra, da família “perturbada” e do momento histórico no qual o feminismo efervescia com as sufragistas.

Gilka não deixou barato as acusações preconceituosas. E também recusou a ajuda de grandes nomes. Recusou, por exemplo, o pedido de Olavo Bilac para escrever o prefácio de Cristais Partidos. Quando Bilac perguntou do por que, Gilka apenas respondeu que queria aparecer para o público sem defesa. “Havia no meu ser um a torrente que era impossível represar: os versos fluíam, as estrofes cascateavam… E continuei, ritmando minha verdade, então com mais veemência”, escreveu na abertura de Poesias Completas, de 1978. Condenou seus críticos diretamente e indiretamente, nas entrelinhas de sua escrita. Era ela, segundo seus censores, a responsável pela depravação moral das moças da sociedade carioca.

No poema Comigo Mesma, é possível reconhecer essa característica gilkiana, como no verso “Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?/Dança, porém, não como a Salomé da lenda,/a lírica assassina”, onde a injúria hostil eram as opiniões dos críticos sobre ela e a dança era o seu hábito de escrita. Nos versos de Conjecturando, dedicado a Duque Estrada, desabafa sobre desistir de lutar. “Convenci-me/agora, de que o gozo é um crime” é como ela inicia uma das estrofes do poema, onde fala sobre depor armas e se entregar à morte. Ali estava uma referência clara ao cansaço que a abateu com o passar do tempo, fazendo com que desistisse de continuar rebatendo a crítica e acabasse reclusa.

Foi a única mulher a colaborar, eventualmente, na revista erótica A Maçã. Extremamente machista, a criação de Humberto de Campos escandalizou por trazer conteúdo picante, que colocava a mulher de forma submissa e degradante. E, ao lado de Cecília Meireles, formou a dupla de únicas mulheres a escreverem para Festa, revista lançada em 1927 por Tasso da Silveira e Andrade Muricy.

Em evento de 1934, brinca com o boneco apelidado de Tupo. Foto: Revista O Malho/Biblioteca Nacional

Em evento de 1934, brinca com o boneco apelidado de Tupo. Foto: Revista O Malho/Biblioteca Nacional

Seus livros foram grandes sucessos de vendas. Não pela alta qualidade da escrita, mas porque todos queriam conhecer aqueles “livros proibidos”, especialmente o primeiro. Apesar das injúrias, em 1933, foi considerada a maior poetisa do século pela O Malho, revista de grande importância política criada, em 1902, pelo multiartista pernambucano Crispim do Amaral. Três anos depois, a mesma revista realizou um plebiscito para escolher cinco mulheres que poderiam ir para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Gilka ficou entre as cinco, com centenas de votos. Mais tarde, em 1977, foi incentivada por Jorge Amado e outros intelectuais a aceitar uma vaga entre os imortais, quando esta abriu vaga para mulheres. Em uma carta, o autor de Capitães da Areia garantia seu voto. Mas ela havia perdido o filho, Helio, há pouco e as críticas desagradáveis ainda a chateavam. Não tinha ânimo para tal acontecimento. Embora não tenha ocupado a cadeira, recebeu o Prêmio Machado de Assis em 1979. “Sonhei ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor”, registrou em notas autobiográficas em 78.

Além de Helio, Gilka teve uma filha: Eros, depois conhecida como Eros Volúsia, uma das maiores dançarinas da história do País. Ambos os filhos eram de seu casamento com o jornalista Rodolfo Machado, falecido em 1923. O fato de ser viúva e escrever com erotismo também lhe rendeu diversas maledicências. Embora só tenha se relacionado com outro homem em 1945, o médico Miguel Dibo, foi julgada como prostituta pelo conteúdo de sua escrita.

A morte de Rodolfo quando os filhos ainda eram muito jovens deixou Gilka desamparada. Entre um poema e outro, a poeta chegou a ser faxineira de uma estação ferroviária para sustentá-los. Na sequência, abriu uma pensão no Cosme Velho com a ajuda da filha. Era nessa pensão que Gilka costumava cozinhar para os agregados enquanto recitava e escrevia rascunhos de poemas.

O sucesso de Eros rendeu-lhes várias viagens ao exterior e a admiração de muitos líderes mundiais, dentre eles o presidente americano Franklin Roosevelt. Dona da sensualidade e do mistério tropical que atribuem à mulher brasileira, recebeu de presente da mãe um estúdio para dar aulas de dança. Além das atividades habituais, o local na rua São José, centro da cidade, recebia saraus – frequentados por Darci Vargas, esposa de Getúlio, e Nelson Rodrigues – e também funcionava como galeria de arte.

A bailarina Eros Volúsia, filha de Gilka e Rodolfo Machado, era um sucesso internacional. Foto: Hart Preston/LIFE

A bailarina Eros Volúsia, filha de Gilka e Rodolfo Machado, era um sucesso internacional. Foto: Hart Preston/LIFE

O poema Ânsia de Azul rendeu a ela um comentário ácido de Rui Barbosa em 1916. “Não sei como seria possível conciliar o espírito das senhoras de boa sociedade com o espírito de uma poetisa que tem o mau gosto de escrever essas coisas plebéias”, declarou. Rui refere-se diretamente à estrofe: “E que gozo sentir-me em plena liberdade!/ longe do jugo vil dos homens e da ronda/ da velha Sociedade/ — a messalina hedionda/ que, da vida no eterno carnaval,/ se exibe fantasiada de vestal”. Apesar da irritação que Gilka causou por não lhe conceder a mão da filha em casamento, Nelson Rodrigues recebeu dela grande influência literária. O acontecido deixou-o chateado o suficiente para não admitir isso, mas Ruy Castro garante, em O Anjo Pornográfico, que ela foi uma de suas mentoras. Hilda Hilst também não se esqueceu da precursora. O Caderno Rosa de Lori Lamby traz, dentre suas personagens, a tia Gilka. Na narrativa, a tia se comporta como cuidadora da protagonista.

Tamanhas foram as barbaridade dirigidas a ela que a poeta foi esquecida pelos livros de história e literatura, o que mostra o poder da mídia na criação ou destruição de mitos. Ela faleceu em 1980, com todos os seus livros esgotados. O motivo para que não voltasse a ser comercializada deveu-se à vontade da filha de preservar a imagem da mãe, que queria ficar reclusa. Também em nota autobiográfica de 1978 fez questão de se redimir de acusações, mesmo falsas, feitas a ela durante toda a vida: “Nunca matei, nunca roubei, nem fiz mal ao próximo; nunca bebi, nunca joguei, nunca fumei, nem participei de orgias.”

Com a morte de Eros, em 2004, os direitos autorais ficaram a cargo de Amaury Menezes, único neto de Gilka, filho de Helio. Cresceu rodeado por mulheres incríveis, como o próprio gostava de pontuar. Foi criado por Gilka, Eros e Thereza – mãe de Gilka – após o falecimento do pai. Contrariando Eros, Amaury decidiu ceder os direitos autorais para que uma Obra Completa de Gilka Machado fosse editada. O neto da poeta faleceu em agosto de 2015, deixando a tarefa de trazer a avó aos holofotes novamente aos filhos e à mulher, Tânia. Movidos pela paixão que Amaury tinha pela avó, a família fez parceria com o selo Demônio Negro, do editor paulistano Vanderley Mendonça. O livro terá prefácio de Maria Lúcia Dal Farra e notas críticas de nomes como Heloisa Buarque de Hollanda, Nádia Gotlib e Schuma Schumaher. A previsão de lançamento é para janeiro de 2017 e um livreto com um texto em prosa, a conferência A Revelação dos Perfumes, também será preparado.

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