Amante da Biblioteca Mário de Andrade, o sr. Apolônio, personagem veterano de São Paulo, acredita no ditado: só é paulistano quem sobe a Consolação chorando

Fachada da Biblioteca Mário de Andrade na noite paulistana. Foto: Maurício Pisani

Fachada da Biblioteca Mário de Andrade na noite paulistana. Foto: Maurício Pisani

Invento passeios, mas sempre vou pelo centro de São Paulo, catando prosas novas e antigas, ruas em que andei, vivi, trabalhei. Olhos as roupas dos passantes, vejo a cor do dia e das lojas. Tomo o metrô e desço na estação República, de onde logo me deparo com a Av. São Luís e meus olhos “se abuticam” com a Biblioteca Mário de Andrade. Entro vejo, consulto, falo com os funcionários, cumprimento as mesas, as esculturas, leio um pouco, e resolvo tomar algo, na praça ao lado, D. José Gaspar. Cumprimento os engraxates, já rareando na cidade.

Havia um que era compositor – Antonio Silva. Morreu, segundo soube. Ele era demais; entre um cliente e outro fazia crochê, mesmo com os senões dos amigos. Saudade, boa prosa ele tinha. Sento-me no bar onde imagino ter vinho e tem uma vista verde. Ao sentar, devo ter pensado alto: será que aqui tem vinho? Logo respondem: – Tem sim, estou tomando, vale a pena. Chamo o garçom, um boliviano, com português correto, gentil, peço uma taça e a tomo com o novo amigo.

Seu nome: Sr. Apolônio. Deve ter uns 75 anos, vestido a rigor, terno e gravata borboleta. Diz que costuma vir pouco em São Paulo, pois vive em Araraquara, onde os pais moraram. Aqui na Mooca ele nasceu e viveu um tempo. Filho de uma cearense e um argentino, neto de paraguaios, foi cerzidor, alfaiate de escritores. O varejo era cerzir, sobretudo nos invernos, velhos cachecóis, e pulôveres. Não se comprava à toa como hoje. Daí voltou para o interior. Agora vem para ver a filha, que mora na Av. São Luís, casada com um inglês.

- Gosto daqui, diz ele. Revejo a cidade e amigos vivos. Hoje querem que se leia mais e não se fala em bibliotecas; pergunte se sabem quem foi D. José Gaspar? Duvido que saibam… um arcebispo da cidade… Será que veem as esculturas de Camões, Dante, Goethe? A biblioteca Mário de Andrade, segunda maior do país, onde tinha salas para estudar instrumentos musicais… Pois bem, nem entram nela. Ela está um colosso, ah! Ninguém sabe que ela fica na Rua da Consolação; aliás disseram, logo que vim morar aqui, que só se é paulistano se subir a Consolação chorando.

Pergunto o que tem lido, fala-me dos clássicos portugueses, alemães, italianos e destaca-me novos – que não conheço – mas diz:

- Ainda estou em Clarice, Aníbal Machado, Mário de Andrade e minha Orides Fontela, com quem proseei e foi injustiçada. Ah, sim, de Machado de Assis dei um tempo.

Perguntou-me o que eu fazia, disse-lhe que era professor universitário aposentado. Em resposta, falou-me que deu sorte em encontrar alguém para ouvir e ser ouvido. Recitou versos de Orides, “toda palavra é crueldade”, entremeou com os de Mário de Andrade, Cecília, Vinicius, Zé Régio e, por fim, despedimo-nos. Ele tirou do bolso uma bola de gude com seu nome gravado. Dei-lhe um cartão e resolvi subir a Consolação. E estava chorando…

Será que já sou paulistano ou toda palavra é mesmo crueldade?

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