O acidente com o Avro RJ85 da LaMia foi a amarga cereja deste bolo de difícil digestão que é o ano de 2016

foto: Alcaldía de Medellín/fotos públicas

Foto: Alcaldía de Medellín/fotos públicas

O trágico acidente da Chapecoense, na madrugada do dia 29 de novembro, deixa muita tristeza e algumas lições. E 71 mortos é um preço absurdo a pagar neste e em qualquer aprendizado. Nada disso era necessário para saber que não se decola com um plano de voo suicida. Muito menos com uma aeronave com 77 pessoas a bordo. Nenhuma lei que rege tráfego aéreo em qualquer lugar do mundo permite que um avião com autonomia de 1.600 nm se proponha a fazer uma viagem de 1.605 nm, a distância que liga Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, a Medellín, na Colômbia (nm é a abreviatura para milhas náuticas, a medida utilizada em navegação marítima e aérea, e uma nm equivale a 1.852 metros). Nenhum piloto confiável preencheria tal aberração de plano de voo. Nenhum dono de companhia, como era o caso do piloto boliviano que era também sócio, com um mínimo de responsabilidade e consciência faria tal coisa. Escolher companhia aérea exige cuidado.

O acidente com o Avro RJ85 da LaMia foi a amarga cereja deste bolo de difícil digestão que é o ano de 2016. Ano pródigo em emoções cujos trancos foram abundantes tanto no Brasil como no resto do mundo. E, se fosse possível determinar a magnitude dos solavancos, a escala Richter, aquela dos terremotos, seria a apropriada.

Os sangrentos e intermináveis conflitos no Oriente Médio, com os deslocamentos de crescentes populações de refugiados que provocam, têm papel fundamental neste terremoto. A União Europeia foi chacoa­lhada por dois plebiscitos, o Brexit, do Reino Unido, que derrubou David Cameron, e o da Itália, que levou Matteo Renzi. A UE sofre também os tremores dos crescimentos da direita na França e da também crescente influência da Rússia de Putin. Aliás, o avanço da direita é global. Mas a taça de campeão de abalos sísmicos no Hemisfério Norte – porque do Brasil ninguém tira o prêmio-mor – vai para os Estados Unidos. Foram eles que elegeram o Trump.

No Brasil, praticamente toda uma linha sucessória foi dizimada em 2016. Uma presidenta da República, um presidente da Câmara e um do Senado. Este, depois de afastado, foi reintegrado ao cargo, mas afastado da linha sucessória. Tudo isso em menos de cem dias. A precariedade no equilíbrio dos três poderes faz os números da escala Richter beirarem os dois dígitos e o tsunami aqui é surfado pela Justiça, que se aproveita da mediocridade do Legislativo e do Executivo, e nem prancha usa. Leva tudo e todos no peito.

Com isso, 2017 também deve continuar chacoalhando. É o que preveem os especialistas de diversas áreas que convidamos para escrever sobre o Brasil, o mundo e as perspectivas para o próximo ano. Assunto de capa desta edição de dezembro/janeiro.

Voltando ao acidente que dizimou a querida equipe da Chapecoense, algo de bom fica. Foi inesquecível a emoção proporcionada pela população da cidade de Medellín. No dia seguinte, na hora e no local onde se daria a disputa pelo título de Campeão Sul-Americano, o estádio Atanasio Girardot, sede do Atlético Nacional, lotou.

Não só o estádio – que leva o nome de um oficial colombiano, nascido no departamento de Antioquia, onde está Medellín, que morreu no começo do século XIX, lutando contra a ocupação espanhola ao lado de Simón Bolívar –, mas também o seu entorno ficou lotado de colombianos.

E numa cerimônia incrível a população de Medellín e a torcida do Atlético Nacional homenagearam a equipe da Chapecoense aos gritos de “Vamos, Vamos, Chape!”. José Serra, o atual chanceler brasileiro, presente, discursou e agradeceu entre lágrimas. Antes, a direção do time colombiano havia aberto mão do título de campeão sul-americano, oferecendo à Chapecoense.
Muito emocionante!

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