Histórias em diferentes perspectivas: a denúncia ecológica, o lirismo e o nonsense

Foto: Divulgação

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Um dia, um rio (Leo Cunha. Ilustrações de André Neves. Pulo do Gato)

O livro é uma homenagem ao rio Doce  e à tragédia que se abateu sobre suas águas e toda a comunidade do entorno, após o rompimento de uma barragem mineradora em Minas Gerais, em novembro de 2015. Sem mencionar diretamente o acontecimento, o rio  é narrador-personagem em uma nostálgica reflexão sobre seu percurso natural, interrompido violentamente.

As ilustrações são fundamentais para se construir um sentido para a narrativa. O rio é personificado em criança, as cores azul e marrom tensionam o enredo e as fortes cenas dos peixes mortos, ocupando duas páginas, amplificam as imagens verbais. Além da possibilidade de disparar uma conversa franca com as crianças sobre esse impune crime ambiental, o livro permite apreciações estéticas que reverberam a experiência da arte como forma de ressignificação do real.

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Além da montanha (Renato Moriconi. Pulo do Gato)
Nas guardas do livro se lê: “a fé move a visão, não as montanhas”. A epígrafe pode servir de guia para a leitura dessa narrativa, aparentemente nonsense. Trata-se de um reconto que questiona justamente o ponto de vista de quem narra as histórias, tornando-as mais ou menos verossímeis. O pico de uma montanha nevada é, na verdade, a cauda do vestido de noiva de uma jovem donzela que foge no dia do seu casamento arranjado. A inóspita montanha torna-se, com o tempo, nova lenda: lugar amaldiçoado para os que dela conseguem se aproximar. Tudo isso ganha outras dimensões e se transforma em nova narrativa, a partir da chegada de um desatento alfaiate que decide ver de perto vestido de noiva tão cobiçado. Sua pouca atenção o faz subir na montanha errada e assim surge mais uma lenda que ninguém podia imaginar quando inicia a leitura do livro. Em uma das páginas, a montanha de pico nevado aparece emoldurada e os dedos de uma mão surgem no canto da folha, assumindo o ponto de vista do leitor. É assim, convidando o leitor a olhar para além da montanha, que esse livro brinca com perspectivas e dimensões narrativas verbais e não verbais.

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Alberta e o pássaro azul (Cristina Mutarelli. Ilustrações de Anita Prades. Terceiro Nome)
Alberta Saí Andorinha é uma passarinha gordinha e espalhafatosa que adora dar ordens e inventar histórias sobre si: diz que seu nome é Britnei, que conhece Harry Potter e que seu pai é primo do presidente dos Estados Unidos. Seu jeito peculiar de ser a afasta de quem se aproxima, até conhecer Teobaldo, um lindo pássaro azul, seu novo vizinho. Os dois se entendem e se divertem juntos, mas a vontade de mandar se transforma em ansiedade e Alberta coloca tudo a perder. Teobaldo se vai e ela experimenta uma dor diferente de todas que já sentiu. A história desse livro seria essa, não fossem as ilustrações que criam uma narrativa paralela. As páginas são divididas em três planos – o céu, o texto e a terra. No terceiro plano – o chão –, Alberta e Teobaldo são crianças que se encontram e desencontram.

A diagramação ajuda o leitor a percorrer os espaços narrativos, já que o texto, no meio, é o elo entre as duas possíveis histórias. Estreando na literatura infantil, Cristina conserva características de sua atuação como atriz – humor e inteligência – e a jovem ilustradora Anita Prades revela forte autoria em seus traços delicados.

  
*Cristiane Tavares é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC de São Paulo

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