Com mais exames, pesquisa agora mostra que risco de anomalia é significativo, com 46% das mulheres infectadas pelo Zika tendo abortos ou bebês com má formação

Estudo brasileiro publicado no prestigiado New England Journal of Medicine  nesta quinta-feira (15) mostra um dado inédito para compreender a extensão dos efeitos do Zika na gestação: 46% das mulheres infectadas pelo vírus terão bebês com algum tipo de anomalia. O estudo de certa forma contraria a expectativa inicial de pesquisas que apontavam que apenas uma minoria das mães infectadas viria a ter filhos com malformações.

“Nosso estudo mostra que o risco de efeitos adversos severos depois de infecção materna por Zika é significativo”, escreveram os autores da pesquisa.

Algumas questões na metodologia precisam ser pontuadas para entendermos os resultados. Primeiro, os pesquisadores selecionaram 345 mulheres gestantes no Rio de Janeiro. Dessas, 182 testaram positivo para Zika e, desse número, 46% gestaram bebês com anomalias. A pesquisa utilizou uma bateria de exames e, agora, acompanhou as gestações por mais tempo. Dentre os testes, além do ultrasom, foi feita também uma ressonância cerebral. Resultado: também ficou demonstrado que as disfunções muitas vezes só vão ser detectadas semanas ou meses após o nascimento. Por isso, estudos iniciais indicavam para um menor número de anomalias.

Disso decorre outro fator importante apontado pela pesquisa: a extensão dos efeitos do Zika é bem superior a apenas a microcefalia. Isso já foi dito por inúmeros especialistas e foi observado em bebês isoladamente.

O que muda com essa pesquisa é que esse fato está demonstrado em uma análise que envolveu 125 gestações, no maior coorte populacional já separado para estudo sobre os efeitos do vírus.

O trabalho recrutou as mulheres entre setembro de 2015 e maio de 2016. No final de julho de 2016, todas as gestantes já haviam feito o parto. Viu-se que, das 182 afetadas pelo Zika, 125 já demonstraram anomalias pelos exames ao longo da gravidez e 61 apresentaram um quadro normal (duas das gestações foram de gêmeos). Em ambos os grupos, ocorreram abortos, com o número de nascidos vivos diminuindo de 125 para 117; e de 61 para 57. Foram 12 abortos, com o índice de mortalidade de 7% em cada um dos grupos.

Foto: EBC

Estudo aponta que risco para anomalias é significativo e que ultrapassam a microcefalia. Foto: EBC

Como previsto, além da microcefalia, foram observadas lesões e calcificações cerebrais, danos oculares, problemas para se alimentar, entre outros efeitos. A extensão dos danos ocorreu em 42% das gestações que testaram positivo para Zika.

Outro dado da pesquisa corrobora a preocupação com o avanço do chikungunya. Dentre as mães que não testaram positivo para Zika, foram verificadas 11,5% com anomalias ou mortes fetais. Só que, desse número, 42% testou positivo para chikungunya.

A pesquisa foi feita principalmente por pesquisadores envolvidos na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) – entre eles, Patrícia Brasil, Maria Elizabeth Moreira e José Paulo Pereira, com a colaboração de Karim Nielsen, da Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos. O estudo também possui diversos coautores. Houve financiamento do Ministério da Saúde e outros parceiros, como a Fundação Bill & Melinda Gates.

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