Livro fotográfico “Portugal” mostra os 40 dias e três mil quilômetros percorridos pelo fotógrafo em várias cidades do país homônimo

Olhar uma ou para uma cidade não é apenas enxergar ruas e construções, mas vislumbrar para além delas , perceber o indivíduo que construiu essa cidade, que a habita e usufrui. O sujeito que a consome e a faz sua e a torna parte integrante do ser urbano. São as colunas, o mármore, o concreto, as esculturas, as curvas, os desenhos da rua. A luz e a  sombra que nos tornam participantes de uma estrutura nos faz habitantes de determinado lugar. A história e historicidade da cidade está marcada em seus muros, nas destruições, nas novas construções e no entendimento de arquitetos, artistas e moradores que fazem de uma cidade sua vida, seu modo de ser.

Há tempos, Cristiano Mascaro tem trilhado várias cidades pelo mundo afora tentando descobrir em meio a rebocos, imponências e sutilezas o espaço modificado e construído pelo ser humano.

Não poderia ser diferente em seu mais recente trabalho, o livro Portugal, que acaba de ser lançado pela Bei Editora.  Um projeto que iniciou no começo de 2016, ainda tímido a partir de uma ideia literária, ou seria melhor dizer, livresca. A literatura sempre foi fundamental para Cristiano Mascaro.  Inesquecíveis suas imagens do Real Gabinete Português de Leitura e da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Pensou então em fotografar as lendárias bibliotecas portuguesas: a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra e a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra. Este era o plano inicial.  Como seu costume, mergulhou numa pesquisa entre livros e mapas para decidir como e o que fotografar: “além dos monumentos históricos excepcionais que povoam o país, havia também a supreendente arquitetura conntemporânea de Alvaro Siza, de Eduardo Souto de Moura, de Carrilho da Graça e tantos outros. Decidi que não deveria me dedicar somente às bibliotecas e aos monumentos históricos, mas também às edificações contemporâneas que têm projetado Portugal mundialmente”, escreve no livro.

E foi assim que em abril deste ano ele embarcou para mais esta caminhada fotográfica. Mas, como já dito acima, não são só as imagens que fascinam Cristiano Mascaro, as palavras também o encantam. E assim em 40 dias e três mil quilômetros percorridos, ele andou e fotografou cidades já conhecidas como Mafra, Óbidos, Alcabaça, Coimbra, Porto e Cascais, mas também adentrou outras cujos nomes já encantam: Amares, Lindoso,  Alter do Chão, Idanha-a-Velha, só para citar algumas. No total foram 36 locais visitados e fotografados. Claro que não deixou de fotografar as bibliotecas que deram início ao projeto e para o qual recebeu o apoio do Consulado-Geral de Portugal em São Paulo.

Mas foi com o olhar solto, deixando que o acaso do tempo muitas vezes decidisse o momento da foto, que este livro, ou melhor, as imagens desta viagem a Portugal foram sendo criadas. Uma luz que surgia após um temporal, um fim de tarde no lusco-fusco, um santuário que se apresentava à sua frente quando Cristiano já estava dando por encerrado  o dia. Situações e instantes que nos levam a pensar em um dos fotógrafos que influenciaram Mascaro, o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004). Ele também andarilho que afirmou certa feita “quem procura não acha”.  E é assim também que Cristiano Mascaro trabalha: embora bem documentado e com pesquisa cuidadosa, também se permite ser surpreendido. Muito antes de Cartier-Bresson e de Mascaro, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) já havia discorrido sobre a beleza do ato de flanar por uma cidade. E é esta sensação que é bem descrita pelo sociólogo José de Souza Martins, no texto de apresentação do livro de Mascaro. Ele se deixa levar pela história de Portugal ao caminhar junto com as fotografias que estão à sua frente. Em seu texto lembramos e acompanhos a história de Portugal, ou , como diz o autor, “a fotografia de Cristiano Mascaro pede silêncio que permite a quem a vê ouvir o tropel da história”.

Outros de maneira rápida e talvez com um olhar superficial podem interpretar as imagens de Mascaro sob o ponto de vista de um olhar saudodista. Ledo engano! Talvez, ou com certeza, estejamos diante de um olhar perfeccionista que nos aponta e engrandece o que lhe chama a atenção. Imagens com espessura, densidade. Imagens cuidadas. Ou como também nos lembra o arquiteto Alvaro Siza: “qualquer um pode fotografar a cidade ou fragmentos da cidade. Mas poucos podem transmitir, a atmosfera da cidade – a sua respiração, por assim dizer. Isso depende dos meios técnicos e da capacidade de os usar; o que mesmo assim não basta. É necessário sensibilidade e entrega ao espanto”.  E assim são as fotografias de Cristiano Mascaro!

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