O ano de 2017 terá início com incertezas para a classe teatral de São Paulo, mas também existe muita esperança em avanços. A mudança na gestão da prefeitura, sob o comando do tucano João Doria, de perfil conservador, e alguns retrocessos que já vêm acontecendo na Lei de Fomento ao Teatro deixam profissionais receosos sobre… Read more »

Teatro Oficina planeja rodar o Brasil com o espetáculo Bacantes em 2017. Foto: Jennifer Glass

Teatro Oficina planeja rodar o Brasil com o espetáculo Bacantes em 2017. Foto: Jennifer Glass

O ano de 2017 terá início com incertezas para a classe teatral de São Paulo, mas também existe muita esperança em avanços. A mudança na gestão da prefeitura, sob o comando do tucano João Doria, de perfil conservador, e alguns retrocessos que já vêm acontecendo na Lei de Fomento ao Teatro deixam profissionais receosos sobre o futuro das artes dramáticas na maior cidade do País.

Para Dorberto Carvalho, membro do Conselho Administrativo da Cooperativa Paulista de Teatro (CPT),  não há, no entanto, motivos para insegurança. Ele acredita que a Câmara dos Vereadores de São Paulo tende a proteger o orçamento de Cultura, principalmente em relação à Lei de Fomento ao Teatro, projeto feito pela própria Casa. Ele também vê a nomeação de André Sturm para a Secretaria Municipal de Cultura como algo positivo – não só para o teatro –, já que o novo secretário conhece bem o funcionamento de aparelhos culturais como o MIS (Museu da Imagem e do Som), presidido por ele até o convite de Doria.

Carvalho adverte, porém, que é preciso ficar de olho em algumas iniciativas do poder público do estado de São Paulo, agora que ambas as instâncias pertencem a um mesmo partido, o PSDB do governador Geraldo Alckmin. Ele refere-se a eventual entrega de instituições culturais às chamadas OS (organizações sociais) e o possível fechamento de oficinas de formação.

Nessa corda bamba, algumas das principais companhias teatrais da cidade não se deixam abater e preparam uma série de espetáculos e atividades paralelas. Entre celebrações de aniversários e estreias de novos espetáculos, elas prometem um ano de grande atuação, até mesmo como forma de resistência às decisões políticas que os afetam ou que podem vir a afetá-las. Saiba mais, a seguir.  

O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão, terá temporada de janeiro a fevereiro no Rio. Foto: Lenise Pinheiro

O Pão e a Pedra, da Companhia do Latão, terá temporada de janeiro a fevereiro no Rio. Foto: Lenise Pinheiro

Companhia do Latão

No primeiro semestre de 2016, a trupe do diretor Sérgio de Carvalho presenteou o público paulistano com o espetáculo O Pão e a Pedra. A peça, que também foi apresentada no Recife e em  Natal, será levada, entre janeiro e fevereiro de 2017, ao Rio de Janeiro. Trata-se do último espetáculo da Companhia do Latão que será contemplado pelo programa de fomento teatral desenvolvido pela Petrobras. Mesmo sem esse aporte financeiro, o grupo já vislumbra uma nova montagem. Carvalho conta que o texto ainda não foi definido, mas que pretende continuar as pesquisas pelo universo das décadas de 1960 e 70 que inspirou trabalhos como Ópera dos Vivos e O Pão e a Pedra. Além disso, o diretor gostaria de trazer este último mais uma vez para São Paulo, porque ainda é grande a demanda de público.

Eventualmente, esse desejo pode não acontecer, mas por um bom motivo. É que os 20 anos da Companhia do Latão serão comemorados em 2017. Com os preparativos para essa festividade, Carvalho ainda não está certo se haverá tempo para uma nova temporada de O Pão e a Pedra, mas pondera que uma coisa é certa: se as comemorações forem baseadas em uma retrospectiva do repertório do grupo, a peça, claro, terá nova montagem na capital paulista.

Para o diretor, que não descara a hipótese de um novo espetáculo em detrimento da retrospectiva, uma certeza que merece destaque no próximo ano do Latão é que as oficinas pontuais e curtas que são ministradas pelo grupo serão intensificadas e terão o caráter de um curso regular, de longa duração. A companhia, que sempre ofertou atividades gratuitas de formação, terá, no entanto, que adotar formatos pagos para garantir receita autossuficiente.

Cia. Hiato

Também em ano festivo, a Companhia Hiato antecipa para 2017 a celebração de seus dez anos de atividades, que, na verdade, serão completados no ano seguinte. No primeiro trimestre, o grupo pretende dar continuidade às apresentações de Amadores, trabalho mais recente. A montagem reúne profissionais e amadores que fazem relatos verídicos de suas vidas em depoimentos que podem fazer rir ou chorar. Além da capital paulista, a companhia pretende levar o espetáculo para outros estados do Brasil e também para fora do País. Segundo o diretor Leonardo Moreira, estão em negociação temporadas na Alemanha e na Holanda, onde a Hiato fará uma residência de estudos para um novo espetáculo, este sim programado para 2018.

O Teatro da Vertigem pretende manter o espetáculo O Filho em cartaz no próximo ano. Foto: Lígia Jardim

O Teatro da Vertigem pretende manter o espetáculo O Filho em cartaz no próximo ano. Foto: Lígia Jardim

Teatro da Vertigem

Outra grande companhia que aniversaria em grande estilo em 2017 é a Teatro da Vertigem, que chega ao jubileu de prata. De acordo com a diretora Eliana Monteiro, a programação em celebração aos 25 ainda não foi definida, mas o projeto Kafka na Estrada, oficina de processos colaborativos, está garantido. Apresentações da peça O Filho – inspirada na novela Carta ao Pai, de Franz Kafka –, rodas de conversa e apresentações de filmes sobre espetáculos já encenados pelo Teatro da Vertigem também estão esboçados na pauta de festividades. Eliana  aponta ainda que o grupo tem a intenção de realizar, em sua sede, uma residência, um seminário e um experimento sonoro com o artista Lutz Gallmeister.

Companhia do Feijão

Acostumada a fazer trabalhos que reverenciam a literatura brasileira, a Companhia do Feijão acaba de encerrar a temporada de Quem, Nós?, peça inspirada em José Paulo Paes, que reuniu canções autorais compostas a partir da obra do poeta. Agora, o grupo prepara um novo espetáculo, com o tema “Brasil: fábrica de sonhos-pesadelo?”, com estreia programada para abril de 2017.

A atriz Vera Lamy antecipa que a companhia também pretende concluir um projeto pedagógico, em fase embrionária, que dará orientação a artistas e coletivos teatrais a partir da metodologia da companhia. Outra iniciativa importante para a companhia é a continuidade do projeto Fusões – a música que o teatro tem, em que artistas com intersecções entre a música e a linguagem teatral são convidados para apresentações gratuitas na sede da companhia. Iniciado em abril de 2016, o Fusões teve, em cinco meses de atividades, participações do grupo A Barca e de Juçara Marçal. 

O Grupo XIX já abriu as inscrições para seu Núcleo de Pesquisa. Foto: Jonatas Marques

O Grupo XIX já abriu as inscrições para seu Núcleo de Pesquisa. Foto: Jonatas Marques

Grupo XIX

Saindo do âmbito das festividades, o Grupo XIX de Teatro abriu inscrições para os núcleos de pesquisa e formação que entrarão em cena em 2017. Rodolfo Amorim, ator e diretor, defende que essa será a atividade mais importante do primeiro semestre da companhia. Interessados em participar do processo seletivo podem optar por cinco núcleos: Invenção do eu; O ator, a palavra e o abismo; Falo por minha diferença (manifestos para pensar o mundo); Ser, só ser; Feminino abjeto; e A estufa, o corpo e a cidade. Basta preencher os formulários, disponíveis no site do grupo, até 29 de janeiro de 2017. Há quase dez anos, o grupo mantém essa proposta de formação pública e gratuita, contemplada com a Lei de Fomento ao Teatro.

Teatro Oficina

O sucesso da remontagem de Bacantes, 21 anos depois, deu ao Teatro Oficina uma maior projeção em 2016. No próximo ano, além das comemorações do aniversário de 80 anos do diretor Zé Celso Martinez Corrêa, a companhia pretende trabalhar para que Bacantes faça uma turnê pelo Brasil.

Com essa itinerância, Zé Celso pretende “espalhar a fala de liberdade que a peça acende em tempos de cerco a todas as liberdades, aos direitos humanos e à potência do desejo como invocação política”. Desde que voltou ao cartaz em São Paulo, o grupo busca fazer com que momentos específicos da peça dialoguem com temas atuais, como a desmilitarização da polícia e o empoderamento da mulher. Também está na pauta do Oficina a criação de um espetáculo inédito para 2017.

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