Se “a cidade está no homem”, Márcio Vasconcelos está na cidade e no homem. “Visões de um Poema Sujo” não trata apenas de fotografia. Trata de existência. É uma procura dentro da obra escrita em 1975, quando Ferreira Gullar estava no exílio. É como um retrato. E um retrato será sempre um veredito

Foto: Márcio Vasconcellos

Foto: Márcio Vasconcelos

“Interpretar” um poema pode levar ao suicídio. É abismo, natureza em chamas. Ainda mais num tempo, esse em que vivemos, em que as imagens foram esvaziadas pelo acúmulo e uma fotografia apenas não basta. Mais de quatro décadas depois as palavras do poeta estão de pé. O Poema Sujo escorre. O fotógrafo percorre a cidade. Lambe o suor nas paredes de uma São Luís que agoniza como agoniza a maioria das cidades brasileiras, entre memória e abandono, entre violência e paixão. É por isso que as imagens de Visões de um Poema Sujo fazem parte de um grande teatro, de um cenário operístico com suas feridas de ferro. Ali, a precisão do olhar adiante é a precisão de uma existência vivida pelo fotógrafo nos seus dias maranhenses: entre o matadouro e o bairro da Liberdade, entre o homem que despe as suas entranhas no meio da madrugada na esquina da rua do Giz e a mulher que combina roxo sobre roxo em suas vestes e vende nada à beira de um mercado na periferia. Ela vende nada e é imensa, como a fotografia torna-se imensa porque um retrato será sempre um livro aberto e poderá mudar a cada página, a cada instante.

Fotos: Márcio Vasconcelos

Durante os últimos dois anos fui a São Luís para “entender” o Poema Sujo e ver Márcio Vasconcelos ser ele mesmo, por dentro do poema. Vi Medeia material rodopiar aos gritos no meio da Praça da Faustina, na cidade velha. Vi o luxuoso sotaque do Pindaré. Senti o vulto de Nã Agotimé, a rainha que atravessou o mar no porão de um navio para fundar a Casa de Minas. Quando o livro estava impresso eis que o destino rompe o poema da forma que faz com que a vida seja absolutamente extraordinária: numa manhã de domingo, Ferreira Gullar diz “sim” e retorna para o Reino de Oxalá. Justamente no dia 4 de dezembro, o dia de Oya Yánsàn, a divindade dos ventos e das tempestades. Então ficamos com o livro nas mãos e a certeza de que o poema e o poeta amanhã estarão de volta para preencher o vazio dos vazios porque mais uma vez “o homem está na cidade/como a cidade está no homem”.

*Diógenes Moura é curador de fotografia, escritor e editor

Link curto: http://brasileiros.com.br/Wc6mr
Tags: , , ,