Divido minhas previsões para 2017 em três tipos: as óbvias decorrências de tudo que estamos fazendo, as improváveis alterações de rota e as verdadeiras irrupções imprevistas

Este texto faz parte do especial 2017 x 24 – visões, previsões, medos e esperanças da edição número 113 da Revista Brasileiros, onde articulistas e colaboradores foram convidados a pensarem sobre o que e o quanto podemos esperar – se é que podemos – para nosso País no próximo ano.  

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A aliança histórica dos psicanalistas é com os poetas e não com os profetas. Criar futuros possíveis e fazer ilações sobre o indeterminado é um desafio trágico contra a capacidade inesgotável do Real para nos surpreender. Enquanto leitores cotidianos dos desejos, em sua forma miúda e proverbial, vivemos lado a lado com os sonhos das pessoas comuns. E sonhos são profecias sobre o futuro. Não porque ele já esteja escrito, mas porque sua realização depende de nossa ação. A expressão inglesa wishful thinking (pensamento desejante), usada depreciativamente como sinônimo de ilusão e autoengano, contorna o fato de que a forma como pensamos determina o que fazemos. Por isso divido minhas previsões para 2017 em três tipos: as óbvias decorrências de continuarmos a fazer tudo o que estamos fazendo até aqui, as improváveis alterações de rota determinadas por forças hoje imperceptíveis, mas que podem vir a se tornar protagonistas de nosso futuro, e as verdadeiras irrupções imprevistas. Há coisas que sabemos que sabemos e outras que sabemos que não sabemos, mas as verdadeiramente importantes são as que nós não sabemos que não sabemos.

Obviamente o corte de investimentos em educação e saúde, a redução de suporte social e das políticas de redução de desigualdade, que caracterizam as políticas de austeridade neoliberal, trarão aumento de desemprego, maior tensão entre ricos e pobres e consequentemente violência.
Obviamente a caçada aos corruptos impuros favorecerá a cultura da denúncia e da suspeita, que se chocará com os interesses políticos que sobrevivem graças à corrupção. A decepção gerada pela constatação de que quando olhados de perto somos todos corruptos levará ao cinismo complacente e ao amargo sentimento de culpa.

Obviamente o sentimento de injustiça evoluirá para mais ressentimento. Em nome da generalização da condição de vítima nos tornaremos todos reivindicadores do pior. A onipotência do Outro, seja ele o Estado, seja o macho branco alfa, a elite corrupta, os Estados Unidos de Trump ou a China pós-Trump, continuará a nos infantilizar, cada vez mais, comprovadamente com auxílio da realidade.
Improvavelmente outro padrão de consumo começará a emergir. Alimentos serão produzidos e distribuídos com menor desperdício. Diminuiremos a tolerância com modos predatórios de produzir, consumir e empregar. Penalizaremos culturalmente práticas antiecológicas, propaganda enganosa e jornalismo ou educação com baixos teores críticos.

Improvavelmente veremos a auto-organização de novas formas políticas com participação massiva e continuada com recursos digitais. Prévias e pequenos plebiscitos tomarão a palavra, formarão debates permanentes, sem que as alteridades e os conflitos sejam reduzidas à condição de idiotias elimináveis.
Mas em uma irrupção imprevista da verdade perceberemos que o incomensurável patrimônio artístico, científico e cultural, pela primeira vez na história disponibilizado e acessível em escala de massa, está diminuindo incrivelmente o tamanho de nosso presente, em relação à escala de nosso passado e ao desafio representado pelo nosso futuro. Surgirá um surto de revalorização do estudo e da meditação, da aprendizagem e do aperfeiçoamento, sem que isso seja mero instrumento de ascensão ou empregabilidade.

Subitamente nos descobriremos muito mais ricos do que jamais imaginamos e ao mesmo tempo nos envergonharemos da nossa antiga e soberba miséria na arte de viver a vida baseada no apequenamento de nossos sonhos e satisfações.

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