Em artigo especial para a Brasileiros, o diretor artístico da Pinacoteca, Tadeu Chiarelli, escreve sobre o papel das instituições culturais diante de um contexto de crise

Este texto faz parte do especial 2017 x 24 – visões, previsões, medos e esperanças da edição número 113 da Revista Brasileiros, onde articulistas e colaboradores foram convidados a pensarem sobre o que e o quanto podemos esperar – se é que podemos – para nosso País no próximo ano.

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O ano de 2016 foi um período de agravamento da crise brasileira, não apenas no âmbito econômico como também naquele político e de gestão pública. Essa crise atingiu com força as instituições culturais. Exemplos disso são a diminuição das atividades do Instituto Iberê Camargo, em Porto Alegre, o cancelamento da Bienal do Mercosul e os problemas do museu da Casa das Onze Janelas, em Belém do Pará. Todos esses casos tão tristes (afinal, eram instituições aparentemente fortes) são sintomas muito evidentes de que a crise efetivamente se abateu sobre um elemento forte das artes visuais, no caso, os museus e outras instituições de divulgação e promoção das artes.

Esta situação revela a fraqueza das políticas públicas no Brasil voltadas para as áreas da cultura e da arte. E a situação só tende a piorar, sobretudo num momento em que assistimos ao desmonte de alguns pilares fundantes para a formação de novos públicos para as artes.  Pensemos também na situação do Ministério da Cultura, que logo no início do atual governo foi extinto para depois ser recriado, numa reação ao clamor que se seguiu ao seu fechamento. Em novembro, houve a saída do então ministro que, não resistindo às pressões intestinas do governo que via seu Ministério como um balcão para interesses privados, foi substituído por um político de carreira sem afinidade especial na área. Junte-se a essa situação outro escândalo: querem retirar as artes do currículo básico das escolas. Ou seja, parece que a crise nos âmbitos da cultura e da arte e da educação é uma orquestração muito bem azeitada.

Neste momento tão sombrio, penso caber às instituições resistir e tentar fazer o possível para que a produção artística, o ensino de arte, o debate e a discussão se mantenham. No caso dos museus de arte, precisamos pensá-los como espaço de cidadania, onde o trabalho de formação de novos públicos parta de ações que consigam ir além da exibição de mostras chamativas. Os museus de arte e outras instituições congêneres ainda são vistos como espécies de supermercados onde você encontra produtos culturais fechados em si mesmos e apresentados em embalagens reluzentes. Esta visão redutora e de puro marketing deve acabar (e talvez a crise aí seja uma arma poderosa para todos nós). Temos que afirmar que o museu, de fato, é um local de produção de conhecimento, partindo do pressuposto de que a arte pode ser uma ferramenta de conscientização do público sobre o seu papel como cidadão.

Os últimos governos falharam gravemente ao associarem a obtenção de direitos de cidadania ao acesso fácil ao consumo de bens. Isso foi um equívoco, pois não entenderam que não adianta as pessoas terem televisão de plasma, por exemplo, mas não possuírem esgoto, água ou uma educação de qualidade e acesso irrestrito a instituições importantes para a formação de todos, como o museu, por exemplo. O direito do cidadão passa pelo acesso à cultura e à arte, que deve sempre levá-lo à reflexão.

Acredito que só conseguiremos trilhar esse período crítico e que se adensa com intensidade focando em projetos que de fato sejam significativos para as instituições e seus públicos. Mais do que nunca, chegou a hora de as instituições reverem, por meio de cursos e pesquisas, os seus próprios acervos e organizarem exposições temporárias que incrementem o diálogo com as suas próprias coleções. 

* Em depoimento a Mariana Tessitore

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