O espaço literário é o lugar onde me refugio quando o mar-não-está-pra-peixe. Mato a sede e a fome. Reciclo minhas dores, e as do mundo também. Uma espécie de cidade cenográfica mental, portátil. Cabe tudo dentro da minha rígida caixa craniana

Foto: Flavio Magalhães.

Foto: Flavio Magalhães.

O espaço literário é o lugar onde me refugio quando o mar-não-está-pra-peixe. Mato a sede e a fome. Reciclo minhas dores, e as do mundo também. Uma espécie de cidade cenográfica mental, portátil. Cabe tudo dentro da minha rígida caixa craniana.

Geralmente recorro a amplos cômodos, silenciosos, necessariamente silenciosos para melhor ouvir o ranhe ranhe de pensamentos e imaginações, coisas do dia a dia e espantos poéticos. Um movimento solitário e intransferível.

Às vezes, calha de ser quarto abafado, comprimido entre paredes, que vão me apertando e ameaçando me esmagar.

Nunca aconteceu, é bom que se diga, porque a realidade sempre esteve (ao menos até agora) de prontidão “sim senhor! Estou aqui para lhe servir”.

Gosto que ela se apresente nesse tom servil.

Aqui a arte vem para nos ajudar, dando algum suporte à realidade e alento para desembrulhar o estômago.

No táxi, conversava com o motorista rumo ao sushi semanal, esquina da Paulista com Consolação, ritual sagrado que pratico com afinco há décadas, reverenciando Shimisu San, um samurai do corte exato do peixe bom – atualmente recuperando-se de uma complexa cirurgia cardíaca: Que todos os deuses do torô, magurô e uni te confortem neste momento e que retorne revigorado às tuas facas e espadas – voltando ao táxi, conversávamos indignados com as vergonhas peculiares da nossa República de Bananas. O senador que havia renunciado por crime de peculato, driblando tribunais e regimentos, estava, àquela época, prestes a ser reconduzido à presidência do senado. Como pode! etc e tal. Cheguei ao destino, paguei a corrida e comi meu sushi.

Na padaria da esquina, onde concluo o ritual com um expresso bem tirado pelo Zé Ibiapina, presenciei a cena: um menino franzino, com uma caixa de engraxate acoplada ao ombro, rastreava cabisbaixo seus potenciais clientes. Um senhor alto, de terno sem gravata, de pé, tomava  sua cervejinha.

Por incrível que pareça era o senador, de carne e osso! Provavelmente relaxando antes de reunião tensa com advogados ou celebrando silenciosamente alguma nova conquista. Perfeito, com sapatos italianos.

Antes que o menino pudesse oferecer-lhe o serviço, o senador tomou-lhe a dianteira “que pena que você chegou só agora, que estou terminando e já tenho que ir embora, se você tivesse chegado antes…”(mentira porque o senador estava apenas iniciando sua Original).

O menino engoliu as palavras, sentiu-se ligeiramente culpado por se atrasar a um encontro não marcado e continuou sua busca.

Meus sapatos não são engraxáveis e por isso surpreendeu-me quando passando por mim perguntou-me “Oi Auro, lembra? Renan, do Moinho da Luz”. Estava diferente, crescido.  Eu o conhecera dois anos antes quando perambulava pelas ruas da cracolândia, fugindo de tretas com o padrasto, que pioraram depois da morte da mãe. Nunca usou drogas. Seu desamparo é profundo, a enurese noturna seu sintoma e Michael Jackson seu ídolo. Fazia algum sucesso dançando e dublando como cover na Praça do Patriarca. Paguei-lhe um pão de queijo. Desejou-me boa sorte e seguiu o seu caminho.

O senador, já tinha sumido da história, como de resto, será seu destino.

Mas deixou um rastro de lembrança amarga enquanto caminhava até a estação (vou de táxi, volto de metrô). Como pode etc e tal. Coisa de cinco minutos. Porque cantarolando discretamente Billie Jean passei a imaginar o menino Renan dançando risonho no meio da praça.

Link curto: http://brasileiros.com.br/V7mtj
  • Auro Danny Lescher

    *Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordenador do Projeto Quixote e psicoterapeuta