Se é possível ainda fazer planos para 2017, um deles seria: aprender que o problema mais grave do Brasil não é a corrupção, mas a desigualdade social

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Nesta época propícia a conjecturas sobre o calendário que vai para o lixo e aquele que abre novas perspectivas, o midiota e a midiota encontram uma excelente oportunidade para traçar planos, fazer o balanço das perdas e ganhos, desejar felizes entradas para si próprios e para os outros.

No caso, vamos convir, a maioria dos brasileiros está comemorando mais a saída do ano velho que a entrada do ano novo.

O problema, midiota, é que a entrada de um período se define antes da saída do período anterior. Portanto, os bons votos são apenas um protocolo.

A afirmação parece uma dessas platitudes que você distribuiu nos últimos dias pelas redes sociais de comunicação, mas é necessário que seja assim: midiotas têm em geral baixa capacidade de abstração.

É isso que os faz aceitar como realidade toda informação que confirma suas crenças, seus preconceitos, seus desejos e temores.

Profissionais de comunicação bem treinados e pouco éticos fazem disso uma festa – e foi isso que aconteceu ao longo do período que se encerra.

Você, midiota, foi ludibriado, iludido e manipulado.

Ludibriado porque foi convencido de que o grande problema do Brasil é a corrupção; iludido porque acreditou que é possível acabar com a corrupção; e manipulado porque a indignação insuflada em milhões de midiotas provocou o rompimento da ordem democrática, levando ao desequilíbrio e à desarmonia entre os poderes da República.

Nesta altura da nossa História, ainda estamos no início da colheita dessa safra de insensatez. E o pior é que, para estabilizar esse processo de deterioração da governabilidade, o remédio mais à mão tem o formato de uma grande pizza –  feita com farinha de joio, não de trigo.

Se é possível ainda fazer planos para 2017, um deles seria: aprender que o problema mais grave do Brasil não é a corrupção, mas a desigualdade social; que a corrupção é uma das causas da desigualdade, e um dos motores desse círculo vicioso; admitir que a corrupção não pode ser extinta – os países que mais avançaram no chamado processo civilizatório se contentam em manter sob controle e vigilância os setores onde essa chaga costuma prosperar.

A corrupção tende a crescer nos setores mais rigorosamente normatizados e onde a ruptura da norma rende bons lucros.

Por exemplo, os Estados Unidos estão constatando que as políticas de combate à imigração ilegal têm levado exploradores de trabalho escravo a pagar propina para agentes de fronteiras (Veja no New York Times, em inglês).

No Brasil, uma visão messiânica do combate à corrupção está destruindo a Petrobras e outras grandes empresas nacionais de infraestrutura. Quem se beneficia com isso?

Quanto ao terceiro aspecto desse processo, a manipulação, o caso se explica por si mesmo, e corresponde a outro círculo vicioso: o midiota é, em princípio, uma pessoa do bem; mas, como lhe falta o aprendizado da alteridade, entende que todos os males estão no outro, e não compreende que em si mesmo carrega parte da responsabilidade pelo bem-estar coletivo.

Quando se torna conveniente mobilizar as maiorias silenciosas, o sistema da mídia hegemônica lança mão dessa característica, procurando unir os milhões de midiotas em torno de uma cruzada qualquer: pode ser uma campanha de doações cujo destino ninguém vai investigar, ou um processo político insuflado por um estreito senso de moralidade.

Portanto, os fogos pela mudança no calendário não terão feito mais do que assustar os cachorros da vizinhança.

Ainda tem muito 2016 pela frente.

 

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  • #Luciano Martins Costa

    Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade, além de autor de vários livros