Entre as muitas abordagens possíveis do atual momento do Brasil, uma das questões mais delicadas se refere às crises cíclicas do capitalismo e às ações políticas que as acompanham

Temer vai ao Congresso levar nova meta fiscal

A mídia hegemônica precisou dele para afastar a presidente eleita em 2014. Foto EBC


A circunstância em que se encontra o Brasil, emaranhado numa crise de confiança entre os poderes da República e à beira do caos social, pode ser analisada de diversos ângulos, mas certamente o mais interessante é aquele que se observa a partir da economia.

Entre as muitas abordagens possíveis de momentos como esse, uma das questões mais delicadas se refere às crises cíclicas do capitalismo e às ações políticas que as acompanham.

Essa é uma conversa da qual os adeptos do neoliberalismo costumam se desviar convenientemente, e você, midiota, certamente não vai ouvir uma palavra sobre esse assunto daqueles analistas da mídia hegemônica onipresentes no rádio, na TV e nas páginas de jornais e revistas.

O tema é escorregadio, mas, com algum esforço de síntese, pode-se ter uma compreensão razoável do que se trata.

Primeiro, é preciso observar que um sistema econômico baseado na exploração constante e crescente dos recursos naturais, da força do homem e de sua  tecnologia, não tem sustentabilidade.

Paralelamente, convém lembrar que o sistema predominante em quase todo o mundo tem uma natureza cíclica, sendo sujeito a fases de depressão.

Em algum momento dos ciclos de desenvolvimento produzidos por esse modelo, começa a faltar a justificativa moral que acompanha todas as ações da sociedade humana.

Por exemplo, uma pequena guerra, de preferência longe da nossa casa, pode, eventualmente, interromper um ciclo depressivo numa economia baseada numa commodity que está se esgotando, como o petróleo. Nesse caso, é preciso que a mídia ajude o sistema a justificar moralmente sua guerra.

Como se sabe, o processo civilizatório exige, impõe e transforma paradigmas que vão norteando a vida comum. Por exemplo, países civilizados não admitem mais o trabalho escravo, a exploração da mão-de-obra infantil, etc. Também evolui, por exemplo, o direito das mulheres, e assim por diante.

Mas persiste a mais clássica forma de exploração: a expropriação do valor do trabalho.

O problema fica mais grave quando um ciclo longo de queda coincide com um ciclo depressivo curto, mas agudo.

É nessas circunstâncias que o ideário neoliberal abandona a tese da liberdade de mercado e procura se apropriar do Estado, para produzir a expropriação do valor do trabalho.

E mais uma vez precisa de uma ajudazinha da mídia para inventar alguma justificativa moral para essa ação política.

Em geral, apela-se para o discurso do “bem comum”, do “interesse social”, ou se ameaça com a imagem do abismo ali adiante.

Aliás, o atual condutor da nossa economia, instalado no Palácio do Planalto por manobras da imprensa conservadora, tem apelado para esse discurso, mas lhe falta credibilidade para concluir a tarefa encomendada.

Por esse motivo o sr. Temer vive assediado por escândalos: a mídia hegemônica precisou dele para afastar a presidente eleita em 2014, que jamais aceitaria a encomenda de medidas destinadas a expropriar os direitos da maioria para alimentar a fornalha de uma máquina econômica decadente e perdulária, mas ele não parece capaz de reunir as forças políticas para realizar o trabalho a contento.

Os dirigentes das principais empresas de comunicação sabem, por exemplo, que a proposta de desmanche da previdência social tem poucas chances de passar no Congresso.

E, se passar, milhões de trabalhadores e pequenos empresários poderão deixar de recolher suas contribuições, declarando-se em estado de desobediência civil, o que causaria o colapso imediato do sistema.

Na Fiesp, falou-se recentemente na possibilidade de ressuscitar a CPMF como um reforço para o caixa do sistema de seguridade social, dividindo-se o custo com o sistema financeiro e aliviando o ônus da indústria; mas o proponente, executivo de uma indústria em apuros, foi convencido a esquecer o assunto.

Como se vê, por aí se pode compreender sucintamente certas propostas que não estavam naqueles cartazes das grandes manifestações.

Como os golpes de força não podem ser justificados moralmente entre indivíduos civilizados, o processo de tomada do poder político pelos agentes do capital financeiro só pode ser realizado através da política, com a ajuda da imprensa e pela cooptação do chamado “baixo clero”, aquele extrato do Parlamento constituído por homens de poucos princípios e baixa capacidade cognitiva.

Mas mesmo esses rematados picaretas ainda precisam fazer política, e aí é que o projeto de expropriação do valor do trabalho começa a fazer água.

O grupo que ocupou o Planalto está se fragmentando e ninguém pode garantir que sua cabeça estará em cima do pescoço na semana seguinte.

Então, até o mais capachildo entre os brederodes do Congresso se dá conta de que entrou numa fria.

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