O drama dos metalúrgicos do ABC encenado pela Companhia do Latão reporta um confronto daquela época com a situação de hoje. Enquanto naquele período havia o movimento acentuado para a mudança, atualmente se assiste às manobras políticas e jurídicas de forma, senão passiva, impotente.

Companhia do Latão encena peça baseada nas grandes greves do ABC. Foto: Lenise Pinheiro

Companhia do Latão encena peça baseada nas grandes greves do ABC. Foto: Lenise Pinheiro

O cenário atual brasileiro não poderia ser mais propício para que a Companhia do Latão apresentasse seu novo trabalho, O Pão e a Pedra. Embora nada tenha sido premeditado, o caos político do País casa-se bem com a proposta do espetáculo. As lutas de movimentos dos trabalhadores do fim da década de 1970 têm ligação direta com o que é vivenciado pela população hoje. Afinal, é no contexto das grandes greves do ABC que a figura de Lula – também personagem da peça, em espectro – surge com maior força.  Pouco mais de 20 anos depois, ele seria eleito o primeiro operário presidente do Brasil.

A montagem é uma verdadeira homenagem aos peões que lutaram por melhores condições de trabalho no ramo fabril, mostrando a ligação do movimento com a Igreja na época. É por meio da Teologia da Libertação, espalhada pela América Latina a partir de 1968, que o cristianismo intensifica a aliança com os pobres e a reivindicação de melhorias sociais. A peça mostra como a fé ajudou a mover os trabalhadores integrantes da grande greve de 1979, em São Bernardo do Campo. A figura do padre protetor de líderes sindicalistas e membro do grupo que faz piquete, e o beijo de personagens na Bíblia – talvez algumas das cenas mais fortes – são retratos dessa Igreja engajada.

Além dos elementos históricos evidentes, o grupo utiliza alguma fantasia para compor o espetáculo. Em várias intervenções, o público se vê diante de delírios e devaneios das personagens. Assim, a peça não se sustenta apenas em cima da realidade documentada, mas também de fragmentos mais etéreos. A própria ideia de interferência divina, com a ajuda da Igreja, já exibe essa fuga do que é essencialmente tátil.

Também em coincidência precisa com a atualidade feminista, as condições das mulheres nas fábricas é porção importante na construção da trama. Embora a história coloque sempre homens como heróis revolucionários, aqui há uma atenção relevante às heroínas. A desigualdade de salários guia a personagem Joana Paixão (Helena Albergaria) a passar-se por homem para conseguir sustentar, sozinha, o filho pequeno. É assim que vem à tona João Batista, um trabalhador dedicado e oposto a Joana. Enquanto ela é uma militante sincera, seu contrário é um fura-greve preocupado com o lucro que pode obter enquanto os colegas grevistas não voltam ao trabalho.

O movimento estudantil se faz presente nas figuras dos namorados Luísa (Sol Faganello) e Pedro (Thiago França). A moça de classe privilegiada se coloca entre os metalúrgicos para espalhar o marxismo, caracterizada por seu discurso cheio de patoás. É aí que entra em jogo o protagonismo do movimento e a dúvida se uma jovem universitária conseguiria, do alto de seus privilégios, compreender a real conjuntura daqueles trabalhadores. A visão da personagem no embate entre seu discurso e o entendimento dos peões vai mudando; ela vai, aos poucos, entendendo a necessidade da luta prática como saída efetiva. Pedro, do contrário, sustenta sua visão de uma esquerda-elite. É Pedro, também, que simboliza o machismo presente na militância, insinuando que mulheres deveriam ir para a cozinha e agindo de forma abusiva com a namorada.

O drama dos metalúrgicos do ABC encenado pela Companhia do Latão reporta um confronto daquela época com a situação de hoje. Enquanto naquele período havia o movimento acentuado para a mudança, atualmente se assiste às manobras políticas e jurídicas de forma, senão passiva, impotente. Inclusive as que ameaçam direitos trabalhistas. O contraste dos momentos é bastante levantado pela equipe, que fez uma grande pesquisa para essa realização, com colaboradores como Julian Boal, filho de Augusto Boal. O método elaborado por Augusto, o “Teatro do Oprimido” está constantemente em curso nos trabalhos do Latão, sempre preocupados em abranger a crítica social.

O Tusp em São Paulo, foi o primeiro espaço a receber o espetáculo, com estreia em maio deste ano. Desde então, a Companhia do Latão já levou a peça a Natal, Salvador e Belo Horizonte. Para setembro, foram preparadas duas apresentações no Engenho Teatral,  no Tatuapé. As próximas cidades a apreciar O Pão e a Pedra serão Recife e Rio de Janeiro. A produção também negocia, entre outros lugares de São Paulo, o pertinente Grande ABC. O Pão e a Pedra é uma das principais realizações do projeto Companhia do Latão 2013-2016, contemplado no edital do Petrobras Cultural na linha de Manutenção de Grupos de Teatro. Os que não Foram e O Patrão Cordial, apresentados nos últimos anos, também fazem parte do projeto, além de um CD e DVD com registros inéditos.

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