O lado positivo da crise é a manutenção do Estado Democrático de Direito. O negativo é que ela também é econômica e social. 2017 deve travar diálogo entre esses dois polos

Este texto faz parte do especial 2017 x 24 – visões, previsões, medos e esperanças da edição número 113 da Revista Brasileiros, onde articulistas e colaboradores foram convidados a pensarem sobre o que e o quanto podemos esperar – se é que podemos – para nosso País no próximo ano.  

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O barco brasileiro está à deriva desde junho de 2013, quando começaram as primeiras manifestações populares pelo País que, inicialmente, surgiram para contestar os aumentos nas tarifas do transporte público, especialmente nas grandes capitais. No entanto, esses protestos cresceram e tiveram uma abrangência caleidoscópica, em que todo mundo queria tudo. 

 Eram muitas pautas reivindicatórias. Ao mesmo tempo que esses atos foram se multiplicando dessa maneira difusa, houve perda compulsiva de condições de governo, que acabou resultando no que chamamos de impeachment, ocorrido em agosto deste ano.

 No entanto, de 2013 para cá, o Brasil não conseguiu se aprumar totalmente, permanecendo mais ou menos na instabilidade. Mas, como em qualquer situação, esta também tem o lado bom e o lado ruim.

 O aspecto positivo é que, apesar dos trancos e solavancos que estamos atravessando, se manteve o núcleo de apoio do Estado Democrático de Direito, que é a manutenção da Constituição, resistindo a provas importantes e até aqui inéditas, como a prisão dos maiores empreiteiros que atuam no País e também de alguns senadores.

 O aspecto negativo é que esta crise, infelizmente, também é econômica e social, e já se arrasta por um bom período. Além disso, ela ainda não deu demonstrações de que possa ser superada em um prazo relativamente breve.

 Fazendo um balanço deste ano com o olhar para o próximo, acredito que nós teremos um 2017 com um capital institucional forte e sólido, que é justamente o respeito que se teve com a Constituição brasileira durante essas turbulências – e esse respeito certamente será mantido.

 Mas o ano novo também chegará com a fraqueza de não ter se encontrado por enquanto uma saída, uma alternativa segura, competente e eficiente para as questões econômica e social. Portanto, o desafio do próximo ano deve ser o estabelecimento de um diálogo sério e entre esses dois polos. 

 Pessoalmente, tendo, ainda que de forma moderada, a pensar que vamos terminar o próximo ano um pouco melhor do que tem sido este final de 2016. Por quê? Porque estamos vendo a participação da juventude na cena política. Também está surgindo um Brasil novo, o das camadas mais populares, que quer progredir. Forças fundamentais para tocar o barco, ainda que instável, para a frente.

 O que quero dizer é que esta crise pode ser comparada a um quadro de saúde, quando uma febre alta, muitas vezes, precede um estado de grandes melhoras. Sim, eu estou moderadamente otimista com nosso futuro próximo.

*José Gregori é jurista. Foi secretário Nacional dos Direitos Humanos (1997-2000) e ministro da Justiça (2000-2001) durante o governo Fernando Henrique Cardoso

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