Conheça as características desses tumores e como deve ser feito o acompanhamento médico adequado

A fita azul é o símbolo do mês de alerta contra o câncer de próstata

A fita azul é o símbolo internacional do mês de alerta contra o câncer de próstata

Estamos novamente no “Novembro Azul”, mês dedicado ao esclarecimento sobre o câncer de próstata. O conhecimento sobre este tumor, que continua sendo o que mais afeta os homens, excetuando-se o câncer de pele, evoluiu bastante nos últimos anos.

O câncer prostático é um pouco diferente de outros tipos de neoplasia. Os tumores de pulmão ou de pâncreas são geralmente agressivos e, se não tratados a tempo, podem ser fatais. A neoplasia da próstata, porém, tem um caráter diferente – com o envelhecimento, células cancerosas aparecerão na próstata de quase todos os homens. Aos 100 anos, pode-se dizer que praticamente todos os homens vivos devem ter este tipo de célula nas suas glândulas.

Em muitos casos, entretanto, as células tumorais assumirão um caráter indolente e o câncer não vai se desenvolver. Isso também pode acontecer também com homens mais jovens que manifestam  pequenos tumores com características muito específicas que farão com que não avancem, não interfiram no tempo de vida e não demandem tratamento. 

O grande problema é que a medicina não consegue ainda identificar com segurança quais são esses tumores mais lentos e “bonzinhos”. Mas estamos aprendendo e já temos algumas “pistas”. Sabemos, por exemplo, que esse tipo de câncer mais indolente costuma aparecer em homens com idade acima de 60 anos com dosagem de PSA (antígeno prostático específico) abaixo de 10 ng/dl. Quando é feita a biópsia, as células desses tumores que não apresentam um perigo em potencial em geral aparecem em um ou dois fragmentos da amostra extraída para análise, representando menos da metade do tecido retirado.

Outra informação valiosa para ajudar os médicos a discernir entre os tumores lentos e os que progridem e precisam ser combatidos é a classificação de Gleason – uma nota que se dá e que varia de acordo com o desarranjo estrutural que pode ser visto nas células diferenciadas que compõem o tumor. Nessa escala, quanto mais preservada e organizada estiver a estrutura da célula, menor é a nota dada pelo patologista que examina os tecidos obtidos por meio de uma biópsia. Conforme este critério, a célula mais estruturada e organizada teria nota 1 e a pior (mais desorganizada, desestruturada e “maligna”) receberia nota 5.

Essa avaliação é feita duas vezes. A primeira para classificar o padrão de alterações mais frequente; a segunda para classificar o segundo padrão de alteração mais comum. De acordo com esse sistema (em que a soma das notas das duas alterações mais frequentes fica entre 2 e 10), os tumores com crescimento mais lento seriam aqueles que alcançassem a soma 6. Como a classificação de Gleason varia na prática de 6 a 10 e para facilitar o entendimento do paciente a Sociedade Internacional de Patologia tem sugerido que os tumores Gleason 6 passem a ser chamados de Grau 1, e os seguintes sequencialmente até grau 5.

Voltando aos tumores indolentes, vem-se procurando informações que permitam diagnosticar esses casos específicos em que é possível poupar o paciente de cirurgia ou radioterapia. Mas como não se consegue ter certeza absoluta, criou-se um esquema de acompanhamento que se chama vigilância ativa, onde o paciente faz dosagens periodicamente de PSA (geralmente trimestrais) e  toque retal (semestrais ou anuais). Pode-se associar a realização de ressonâncias magnéticas da próstata e, em muitos locais, se faz biópsias prostáticas anuais ou quando o PSA sobe, o toque retal mostra uma alteração ou a ressonância mostra um crescimento de lesões na próstata.

A boa notícia, que vem dos trabalhos que mostram este regime sendo utilizado há quase 10 anos é que metade dos homens não precisa ser operada ou fazer radioterapia.

Novos testes estão sendo desenvolvidos, inclusive marcadores genéticos e no futuro poderemos fazer esta identificação de uma maneira mais simples.  Mas por enquanto não fique espantado ao ouvir que alguém tem um câncer de próstata e o urologista propôs não tratar, pelo menos de início.

 

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  • Sidney Glina

    Urologista, professor da Faculdade de Medicina do ABC e ex-presidente da Sociedade Internacional de Medicina Sexual