Exposição da artista mineira rearranja espaço da Pinacoteca do Estado e encerra comemorações dos 110 anos da instituição

"Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz), (2016), Ana Maria Tavares

“Exit III com Parede Niemeyer (Estação Luz), (2016), Ana Maria Tavares

Realizar uma obra única, capaz de congregar e ressignificar múltiplos trabalhos e 35 anos de reflexão artística: este é o intuito da antologia que Ana Maria Tavares realiza na Pinacoteca do Estado, encerrando em grande estilo as comemorações dos 110 anos de aniversário do museu e reafirmando o interesse da instituição em tornar-se um espaço de reflexão e divulgação da arte contemporânea brasileira. Como numa espécie de intrincado quebra-cabeça, no qual cada peça ganha novo sentido a partir do contexto em que é inserida, a exposição não apenas traz a público os destaques da produção da artista e permite estabelecer importantes e luminosas conexões entre momentos-chave de sua pesquisa como investiga e subverte o próprio espaço do museu, na sua relação com o público. “Para nós, interessava muito finalizar essas comemorações com a mostra de uma das mais significativas artistas brasileiras das últimas décadas, cuja primeira exposição individual ocorreu na Pinacoteca”, explica o diretor do Museu, Tadeu Chiarelli.

A percepção e a organização do espaço do prédio centenário na avenida Tiradentes foram completamente alteradas pela artista, desestabilizando práticas já arraigadas. Esse rearranjo inverte o modo de deslocamento do prédio, retomando o eixo principal estabelecido por Ramos de Azevedo, que conduz da antiga entrada, na avenida Tiradentes, ao acesso ao Parque da Luz; um caminho que leva do artifício da cidade grande à reconstrução da natureza. Outra alteração profunda adotada pela artista é a transformação dos corredores laterais em protagonistas dessa grande paisagem expositiva.

"Paisagem e Artifício, Vitórias Régias para o Rio Cocó" (I a XVI) (2013).

“Paisagem e Artifício, Vitórias Régias para o Rio Cocó” (I a XVI) (2013).

Normalmente periféricos e marginais, eles são ativados em toda a sua extensão pela Parede Loos, trabalho que parte da casa idealizada pelo arquiteto modernista Adolf Loos para a estrela negra Josephine Baker. A artista procura destacar, em sua análise do projeto, como ele carrega latente, sob seu purismo arquitetônico, um discurso de poder e voyeurismo, do “corpo tornado território”, com aspectos eugenistas e colonialistas. Avesso a qualquer tipo de ornamento, Loos adota para a residência de Baker (que jamais foi construída e nem se sabe se teria sido encomendada pela cantora) uma fachada de listras horizontais pretas e brancas, que remete à cor de sua pele, a uma padronagem exótica e à estampa dos uniformes de presidiários. É essa trama um tanto hipnótica que acompanha o visitante pelas rotas periféricas do museu, sem impor caminhos precisos, e torna-se ela própria permeável e diluída pela natureza na videoinstalação Sinfonia Tropical para Loos.

Além dessa ideia de labirinto e da recusa a critérios cronológicos de organização, a mostra contempla ainda outros aspectos centrais da trajetória de Tavares nas últimas décadas, como, por exemplo, a revisão crítica da arquitetura modernista; a realização de objetos na fronteira entre design e arte; a construção de suportes para o corpo de caráter interativo – que ela chama de “próteses de arquitetura” –; ou a relação entre artesanato e indústria, como explica a curadora da exposição, Fernanda Pitta.

Dentre as 160 obras que compõem a mostra, número que inclui também uma vasta documentação, há obras inéditas e outras raramente vistas. Um Jardim para Burle Marx, realizado em 2013 com artesãs de Fortaleza e que traduz a ideia de jardim numa grande escultura coletiva, em tons de preto, cinza e branco, nunca havia sido mostrada em São Paulo. O trabalho Tapetes Negros para Paredes Brancas, que integrou a primeira exposição individual da artista em 1981, também volta à cena, depois de passar por um processo de restauro.

Há sempre no trabalho de Tavares um embate entre obra, espaço e sujeito, num processo de sedução e crítica, de fina ironia. E uma clara recusa em destituir as obras de seus conceitos, reduzindo-as a mero mostruário do que já foram algum dia. Esse processo de ressignificação fica evidente, por exemplo, na grande instalação criada para o octógono. O espaço nobre perde sua função nuclear e transforma-se no palco de uma ação de “radical reflexividade especular”. Fechado em si mesmo e completamente espelhado, de alto a baixo, o espaço torna-se, nas palavras da artista, “um campo aberto e infinito”, que ecoa e funde o espaço do museu, as esculturas da artista (Exit 3, uma instalação sonora na forma de uma escada de avião que não leva a lugar nenhum, e Carrossel para Duchamp, de 1997) e o próprio espectador. “Eu me vejo, vendo o outro, na obra mesma”, sintetiza.

Serviço -No Mesmo Lugar: Uma Antologia de Ana Maria Tavares
De 19 de novembro a 10 de abril de 2017
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 02, São Paulo, SP
11 3324-1000

Link curto: http://brasileiros.com.br/vRLjm
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