32ª Bienal de São Paulo bate recorde de público e levanta questões sobre o papel da arte contemporânea, seu suposto hermetismo, a necessidade de experimentação e o papel político da mostra

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Educadora da Bienal caminha com grupo de alunos sobre a instalação chão, do artista baiano José Bento


Em frente à obra
Do Pó ao Pó, do artista baiano José Bento, composta de caixinhas de fósforo e mesas retráteis feitas de diferentes madeiras brasileiras, um menino de cerca de 10 anos de idade comenta com um colega: “Pô, isso aqui até eu fazia na minha casa”. E o amigo responde: “Ah, você acha que é fácil? Imagina o trabalho que não dá para pensar e fazer isso!”. Logo em seguida, algumas senhoras se aproximam calmamente da mesma obra, param, leem a legenda e discutem brevemente sobre desmatamento florestal. Ali perto, no espaço dedicado à obra da portuguesa Carla Filipe – uma horta de plantas alimentícias não convencionais –, um educador pergunta a um grupo de alunos: “Isso aqui é arte?”, ao que a maioria grita que sim, enquanto alguns dizem que não. Aquele mesmo grupo de senhoras chega ao local e uma delas comenta: “Como essas plantas estão lindas!”.

É terça-feira de manhã e o pavilhão da Bienal está cheio, principalmente de grupos de alunos – crianças e adolescentes –, mas não só. Muitos olham rapidamente as obras e tiram fotos com seus celulares; um grupo de mulheres faz uma visita guiada e debate o conceito da Bienal; meninos pequenos correm em meio aos trabalhos; alguns visitantes demonstram desinteresse, outros se detêm longo tempo em cada obra. Saber ao certo o grau de contentamento do público com a mostra seria tarefa impossível, ou algo viável apenas com uma grande pesquisa de satisfação, mas talvez não seja isso o mais importante em uma Bienal – “uma Bienal não é um parque de diversões”, comentou um artista perguntado sobre o assunto.

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Skatista anda na instalação “Arrogation”, da artista sul-coreana Koo Jeong-a

De qualquer modo, o número recorde de visitações na 32ª Bienal de São Paulo parece mostrar que a edição, que vai até 11 de dezembro, está tendo boa recepção. Em menos de dois meses (setembro e parte de outubro) 500 mil pessoas passaram pelo pavilhão, sendo que nas últimas três edições o número total de visitantes variou entre 470 e 535 mil pessoas, em três meses. A facilidade de entrada no espaço expositivo, que pela primeira vez não possui catracas ou detectores de metais, certamente contribuiu para este aumento.

Uma das obras que atraem grande público – e não entra nas contagens por estar no espaço externo – é a pista de skate (ou escultura “skatável”) concebida pela sul-coreana Koo Jeong-A, que recebe diariamente centenas de praticantes. “O mais maluco é que não é exatamente uma pista, mas um trabalho de arte”, comenta o skatista profissional Felipe Foguinho, ao lado da obra, lembrando que a demanda pela construção de uma pista no Parque Ibirapuera é antiga. “Teve que vir uma coreana, lá do outro lado do mundo, para mostrar como o skate é uma coisa notável. Ninguém queria ver. E isso é uma evolução para nós, para mostrar como o skate atrai gente, dá movimento ao local. Não tem uma hora do dia que aqui esteja vazio.”

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Visitantes observam a instalação “Close-up”, da artista zambiana Anawana Haloba

O fato é que, estabelecida como espaço de experimentação – seja com a pista, seja com a horta, com as mesas de madeira, com obras feitas de fungos e com outros trabalhos, muitos deles criados por artistas jovens especialmente para a edição –, a 32ª Bienal de São Paulo está fomentando debates sobre o que é ou não é arte, sobre a qualidade das obras, sobre o papel político da exposição e sobre um suposto hermetismo da arte contemporânea. De algum modo, a conversa dos dois meninos em frente à obra de José Bento, das caixinhas de fósforo e mesas retráteis, não está tão distante do debate estabelecido por parte da crítica especializada. Alguns dizem que a Bienal acerta em cheio ao tratar de questões contemporâneas urgentes e em radicalizar na experimentação, enquanto outros afirmam que as boas intenções não bastam; alguns defendem que obras potentes ocupam o pavilhão do Ibirapuera, enquanto outros dizem contar nos dedos os trabalhos realmente significativos e feitos com apuro.  

A discussão sobre a difícil compreensão da arte contemporânea, por sua vez – que não é de hoje nem dá sinais de que vá se esgotar –, ao menos parece estar se expandindo para um público mais amplo, o que fica claro em um passeio pelo pavilhão lotado do Ibirapuera. “É mais difícil de entender, mas eu gosto”, comenta a estudante Luísa Gili, 14 anos, da Escola da Vila, sobre os trabalhos experimentais e em suportes não tradicionais. ”Acho que um retrato, por exemplo, é mais simples. Se um artista pintava um rei, por exemplo, você olha aquilo e sabe o que é. Se você vê uma obra diferente, tem que parar e pensar o que o artista está tentando falar. Então não é que a gente receba mais coisa, mais informação, mas são coisas diferentes, não dá para comparar”, diz ela, seguida de sua colega Helena Veliago Costa: “A gente passou em uma obra e a Luísa falou que achava que aquilo era uma crítica ao consumismo. E para mim aquela era uma obra que falava sobre adolescência. E acho que não tem certo e errado, são pontos de vista. A arte não dá certezas, né? É uma forma de se expressar”. Perguntadas se saem da visita com mais questões do que certezas, as duas dizem que sim, mas que isso é bom. Especialmente em uma edição intitulada Incerteza Viva.

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