Ensaio fotográfico de Helena Wolfenson e Aline Lata, que também produzem documentário sobre a tragédia, retrata a devastação causada pelo rompimento da barragem da Samarco no distrito de Bento Rodrigues

_MG_7653_lp

Ricardo, personagem retratado em “Rastro de Lama”, caminha nas margens do córrego Santarém, em Bento Rodrigues (MG). Foto: Helena Wolfenson

Em novembro de 2015, dez dias depois de o rompimento abrupto da barragem de Fundão literalmente engolir Bento Rodrigues, as fotógrafas Aline Lata e Helena Wolfenson partiram de São Paulo para o diminuto distrito do município mineiro de Mariana. De câmeras em punho, com o propósito inicial e individual de documentar a dimensão da tragédia provocada pela Samarco, chegando lá, amigas havia anos, decidiram somar forças para fazer algo maior.   

Responsável pelo maior desastre ambiental da história do Brasil, um ano depois, a Samarco, mineradora filiada à privatizada Vale do Rio Doce, pouco ou quase nada fez para redimir o drama que, vergonhosamente, continua a impactar a vida de dezenas de famílias locais, oprimidas pela percepção de impotência e pelo gosto amargo da impunidade judicial que blinda e protege aqueles que, do dia para a noite,  transformaram a vida tranquila que levavam em um cenário apocalíptico e desolador.

A edição de novembro de Brasileiros traz um ensaio fotográfico, reproduzido na galeria abaixo, com imagens impactantes feitas por Aline e Helena.  No segundo dia de imersão na amarga realidade dos moradores do distrito, ao visitar uma pousada que servia de alojamento provisório para um grupo de famílias apinhadas no exíguo espaço, as fotógrafas conheceram os meninos Marlon e Ricardo, dois jovens nativos de Bento Rodrigues, que mudaram radicalmente o curso do projeto idealizado por elas.

Amigos desde a infância, Marlon e Ricardo nasceram em Bento Rodrigues e fizeram o primeiro retorno ao distrito, depois da tragédia, como espécie de guias de Aline e Helena. “Passamos o dia filmando e fotografando com eles. Foi uma experiência muito forte observar a reação deles ao voltar ali pela primeira vez. Tudo que eles viam estava impregnado da memória do lugar”, diz Helena. “Uma coisa bem marcante desse dia é que Marlon entrou no que restou da casa de um amigo e recuperou um quadro que permaneceu intacto em uma das paredes”, recorda Aline.

A experiência ao lado dos dois amigos motivou as fotógrafas a dividirem o projeto em duas faces complementares: um média-metragem, em fase de decupagem e roteiro, que retratará o impacto devastador da tragédia, para além de Mariana, atravessando municípios e divisas estaduais que estão no curso do agora extinto rio Doce. Dessa experiência virá também um longa-metragem, que perseguirá a trajetória de Marlon e Ricardo nos próximos três anos, prazo estimado pela Samarco para a reconstrução de Bento Rodrigues em um novo local, no perímetro do extinto distrito, como promete a mineradora.  

Realizadas em abril deste ano, as filmagens de Rastro de Lama, título do média-metragem, foram iniciadas em Bento Rodrigues, e incluíram outros quatro destinos: Governador Valadares (MG), Resplendor, Baixo Guando, Linhares e Regência, os três últimos destinos no estado de Espírito Santo. Na rota perseguida pelas fotógrafas, foram feitos registros audiovisuais com moradores de um acampamento de sem-terras não filiados ao MST, com índios de uma aldeia da etnia Krenak e com o personagem Maninho, morador da Ilha das Orquídeas, em Baixo Guando, um dos pontos mais afetados pela tragédia ambiental na costa litorânea do Espírito Santo.

Com a cobertura superficial feita de forma canhestra e omissa pela grande imprensa do eixo SP/RJ, Aline e Helena convergem, a expectativa delas sobre o que encontrariam em Bento Rodrigues foi subdimensionada pela constatação física de uma realidade chocante e atroz. O cenário desolador encontrado por elas no distrito mineiro foi algo surreal, inimaginável, dizem. “Foi muito difícil ver tudo de perto e perceber que a tragédia não era o centro das atenções do País, como deveria ser naquele momento. Marlon, Ricardo e todos que ali estão vivem uma situação de futuro incerto. Pior, ainda estão dependentes da Samarco”, diz Aline.

 

 

“Tive a sensação de estar diante de algo indescritível, devastador. Ficamos muito contaminadas por tudo que estava acontecendo e que vimos ali, mas houve também muita troca com as pessoas. Elas abriram nossos olhos para muitas situações absurdas. Sabiam, por exemplo, que estavam vivendo uma tragédia anunciada. Para mim, foi um choque de realidade ver a dimensão do estrago que a mineração tinha feito ali e que, infelizmente, vai continuar fazendo. Triste também perceber o quanto eles estão vulneráveis com relação à Justiça. Eles até acreditam que a reconstrução da comunidade pode acontecer, mas não têm a menor esperança de que a Samarco será penalizada e de que eles receberão uma indenização digna”, lamenta Helena.  

Ex-funcionários de empresas terceirizadas pela Samarco, Marlon e Ricardo estão hoje desempregados e vivem de bicos esparsos. Com a destruição dos lares de seus familiares, foram morar em Mariana, com aluguel provisório pago pela mineradora em um perímetro urbano da cidade, uma hora e meia distante de Bento Rodrigues. 

O cotidiano pacato e bucólico que marcou a infância e a adolescência dos dois amigos foi trocado pelo convívio diário com um universo alheio ao passado que construíram ao longo dos últimos 21 anos em Bento Rodrigues – os amigos têm a mesma idade. Nas adjacências do lar provisório que agora os acolhe, os lagos, as cachoeiras e os campos esverdeados de outrora foram trocados por asfalto, vizinhança barulhenta e o ronco de automóveis e motocicletas.

Saudoso de sua terra natal, Marlon mantém um velho costume, revelam Aline e Helena. Quase diariamente logo que acorda o rapaz sobe no topo de uma montanha de Mariana e mira o horizonte para, extasiado, observar o nascer do Sol.

Reverentes à força redentora da aurora, Marlon e Ricardo esperam, pacientes, que a justiça amenize o sofrimento do povo de Bento Rodrigues e leve adiante, como o o fluxo natural do rio Doce, uma promessa de vida aos corações fragilizados por mais esse episódio de afronta à Mãe Natureza. Outro capítulo vexaminoso de nossa história recente. 

MAIS
- Durante as filmagens realizadas em abril deste ano, Aline Lata e Helena Wolfenson criaram uma página para documentar, em imagens, a rotina ao lado dos personagens e da equipe de produção do documentário. Acesse
- Veja o teaser do documentário Rastro de Lama
 

Link curto: http://brasileiros.com.br/dAmw8
Tags: , , , ,