Em Ouro Preto, os romancistas Julián Fuks, que acaba de ganhar o Jabuti, e Sérgio Rodrigues, vencedor do Portugal Telecom em 2013, falam dos possíveis caminhos da narrativa em tempos de desconfiança e desalento

Selma Rodrigues, mediadora; Julián Fuks, autor de A Resistência, e Sérgio Rodrigues, autor de O Drible, agitam o domingo em Ouro Preto. Foto: Larissa Pinto

Selma Caetano, mediadora; Julián Fuks, autor de A Resistência, e Sérgio Rodrigues, autor de O Drible, agitam o domingo em Ouro Preto. Foto: Larissa Pinto


Ouro Preto é uma cidade que traz em si infinitas narrativas. Entre outros motivos, é cenário perfeito para o Fórum das Letras, que neste ano escolheu o Brasil como tema. Famosa por seu passado, a cidade vibra também no presente, com muitas de suas escolas ocupadas, em protesto contra as medidas do governo ilegítimo. A intensa vida estudantil se traduz em igualmente intenso repúdio às desigualdades e injustiças.

A mesa Fantasmas Familiares, reunindo, neste domingo (dia 13) Julián Fuks, que acaba de ganhar o prêmio Jabuti por seu romance A Resistência, e Sérgio Rodrigues, autor, de, entre outros, O Drible, ganhador do antigo Portugal Telecom de 2014, e autor do ótimo blog Todoprosa, teve esse mesmo espírito, ainda que, em grande parte, falasse de assuntos inerentes à prática literária.

Mediada por Selma Caetano, curadora do prêmio Oceanos, “uma continuidade de fato e direito do Portugal Telecom”, em parceria com o Itaú Cultural, a mesa mostrou ambos escritores preocupados com a questão: de que maneira a literatura pode resistir ao momento retrógrado que estamos vivendo?

Fuks mostrou-se animado com o exemplo que viu em Ouro Preto e emendou: “A gente levou um drible da história, porque acreditou que existia uma democracia consolidada.” Disse acreditar na possibilidade de uma literatura mais incisiva, provocativa, ruidosa, no livro como “antimercadoria”, que recusa o olhar passivo, como forma de quebrar o momento autoritário. E concluiu, de maneira mais geral: “Ocupar e resistir tem sido um lema importante; é preciso aprofundar e transformar esse lema em ações concretas.” Mais para o final, ele que é filho de psicanalistas, pontuou que “a crença da psicanálise de que simplesmente falar sobre algo pode fazer uma diferença brutal na sua vida, se levada à literatura, traz um potencial extraordinário, inclusive a possibilidade de transformar a realidade.”

Julián Fuks acredita que "Ocupar e resistir tem sido um lema importante". Foto: Larissa Pinto

Julián Fuks acredita que “Ocupar e resistir tem sido um lema importante”. Foto: Larissa Pinto


Para Rodrigues, “as artes, em geral, são uma resistência à vulgaridade do utilitarismo. Todo gesto artístico tem uma profunda gratuidade que é bastante subversiva. Esse mundo precisa mais do que nunca do antídoto da literatura e das artes”. Lembrou que a literatura também é forma de resistência à morte e principalmente à intolerância, “dando ao leitor a possibilidade de imaginar o outro.” Mas ressaltou que “infelizmente o alcance da literatura para abrir consciência política no País é ínfimo, dado o grau de analfabetismo funcional de grande parte da população. Mas não podemos desanimar. Temos de continuar escrever. A literatura sempre será possível, não importa o que aconteça, ao contrário do que disse Adorno sobre a poesia após Auschwitz.”

Lembrou também que “a literatura sempre preparou a gente para coisas horríveis, e hoje até a ficção comercial juvenil é distópica. A ironia disso, como escreveu David Foster Wallace, é que o sistema tem essa capacidade de absorver qualquer gesto radical e revendê-lo como algo inócuo”. Terminou afirmando: “sinto na literatura do século 21 uma enorme preocupação com o presente, de colar a ficção numa reflexão sobre o que está acontecendo no mundo.” E citou o próprio Fuks, Daniel Galera e Michel Laub.

A discussão passou para as formas de narrar, propriamente ditas. Fuks declarou interessar-se pela palavra resistência em sua ambivalência e continuou: “Algo do que mais me atrai na literatura hoje é quando as fronteiras se atravessam”, referindo-se ao hibridismo de gêneros, ficção, memória, ensaio, jornalismo, metalinguagem. Disse gostar quando lhe perguntam o quanto há de real em seus livros. “Essa pergunta, que hoje se faz com frequência, não é necessariamente banal.”  Para ele, é uma “confusão” que enriquece a literatura, tornando-a mais complexa: “é importante que o discurso se problematize com a metaficção, que se pergunte: como narrar se a agente vivencia a impossibilidade de narrar?”

Rodrigues sente "uma enorme preocupação com o presente" na literatura do século 21. Foto: Larissa Pinto

Rodrigues sente “uma enorme preocupação com o presente” na literatura do século 21. Foto: Larissa Pinto

“Essa fronteira difusa entre ficção e não ficção sempre me interessou”, comentou Rodrigues, por sua vez, “e eu não saberia fazer diferente. A ficção tira algo de vital da história, e a história que tendemos a tomar como verdadeira passa a ser questionada.” Concordando com Fuks, disse dar muita importância à metaliteratura: “não dá para criar um narrador no século 21 que não tenha consciência de ser narrador.”

Perguntados sobre os precursores dessa literatura híbrida, falaram em Proust, Defoe, Borges, Cervantes e Sebald. “O incrível em Sebald é que ele faz autoficção sem falar dele mesmo”, comentou Fuks. Sobre Proust, mencionou que sua autoficção, que subverteu a literatura típica do século 19, “não cria confusão no leitor como o faz, por exemplo, Daniel Defoe no Robson Crusoé“. Ambos lembraram do conto Pierre Ménard, de Borges, em que o Quixote é reescrito palavra por palavra e resulta numa obra diferente, porque feita em outra época, outro contexto. “E ainda por cima o Borges escreve que Pierre Ménard fez melhor”, lembrou Rodrigues, rindo. Finalizando, o escritor que acaba de lançar Viva a Língua Brasileira!, pela Companhia das Letras, lamentou que a literatura brasileira tenha perdido tantos leitores desde aos anos 1970, quando era popular: “é nossa missão melhorar a percepção que se tem dos escritores brasileiros.”

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