Na primeira edição após os ataques terroristas de 2015, feira parisiense reuniu 189 galerias no Grand Palais e mostrou excelência e sintonia com as questões da contemporaneidade

"Um Farol para Lampedusa!" (2016), Thomas Kilpper. Criada a partir de resíduos de barcos, a obra, exposta nas Tuileries, representa um grande farol projetado para orientar os migrantes que chegam à ilha

“Um Farol para Lampedusa!” (2016), Thomas Kilpper. Criada a partir de resíduos de barcos, a obra, exposta nas Tuileries, representa um grande farol projetado para orientar os migrantes que chegam à ilha

A tradicional FIACFoire Internationale d’Art Contemporain, que ocorre há mais de 43 anos na cidade de Paris e desde sempre manteve altíssimo rigor e excelência ao apresentar obras da arte moderna e contemporânea, continua crescendo. O programa se expandiu ao inaugurar o setor On Site no Petit Palais, com mais de 40 obras expostas e uma série de performances paralelas que ocorreram nos museus e instituições culturais da cidade.

Neste ano, inclusive, apesar do receio de muitos turistas e cidadãos de se locomover com liberdade na cidade – que sofreu inesquecível ataque terrorista no ano passado –, a feira contou com a presença de 189 galerias, das quais 43 internacionais e 13 francesas estiveram pela primeira vez no evento. “Os colecionadores franceses são extremamente informados e apaixonados”, afirmou o galerista berlinense Mehdi Chouackri, que mantém uma relação de coração com a FIAC. Ainda se incorporaram países como Polônia, Hungria, Japão e Hong Kong. As galerias brasileiras, por sua vez, nesta época do ano costumam gerenciar sua presença entre a Frieze de Londres, a ARTBO de Bogotá e a FIAC, que ocorrem no mesmo período. Neste ano, em Paris, estiveram presentes Luciana Brito, Mendes Wood DM, Fortes Vilaça e Luisa Strina.

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Detalhe da obra de Thomas Kilpper, ‘Um Farol para Lampeduza!” (2016)

No programa Hors les Murs, que se estende ao Jardim das Tuileries, nos Champs Elysées, são montadas obras de artistas e projetos de arquitetos. Desde que em 2008 foi apresentado Favela, pelo Atelier Van Lieshout, a FIAC se preocupa em responder a questões de ordem filosófica presentes na contemporaneidade. Utópica ou funcional: o que é uma casa? Qual é sua função? Quais são seus términos ideais? Como ela pode ser substituída em condições de emergência? Jean Prouvé vai de alguma forma responder a esta última questão com suas pesquisas em arquitetura pré-fabricada no período de pós-guerra, na França, assim como nos esforços pela reconstrução com seu projeto de escolas rurais passíveis de serem reproduzidas industrialmente. A Escola Bouqueval (1949)foi uma delas.

As urgências e os desafios da Europa contemporânea estão também representadas na proposta do artista Thomas Kilpper, Um Farol para Lampedusa! (2016). O arquiteto Jean Nouvel apresentou Simple (2016). Nas suas palavras, “habitar é a proposta da arquitetura. O que queremos mostrar aqui é a ideia do caminho mais imediato para habitar um espaço”.

No ano retrasado a direção da FIAC ficou atenta à possibilidade de ter que se mudar do tradicional Grand Palais, já que o edifício, inaugurado em 1900, terá que passar por reparações. Hoje, no entanto, esta questão foi adiada para 2020, permitindo mais quatro anos de estabilidade para a operação. A luz do Gran Palais continua garantida.

Confira abaixo alguns destaques da feira parisiense.

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Escola Bouqueval
(1949), Jean Prouvé, da série das famosas casas desmontáveis que foram sucesso depois da Segunda Guerra Mundial devido à crescente necessidade de criar rapidamente abrigos para uma população francesa em estado de choque.

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Simples (2016), Jean Nouvel, criação do arquiteto francês, ícone vivo da arquitetura francesa e ganhador do Prêmio Pritzker de 2008.

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The Panoramic Dailies
(2016), Julien Tiberi, obra apresentado pela galeria Semiose, Paris. A obra, criada pelo artista de Marseille, é uma nova versão da pequena cerâmica Dans une tache (2013).

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Changing Rooms (2008), Leandro Erlich. Grande instalação que dava acesso ao estande da Galeria Luciana Brito nesta edição da FIAC. A obra, composta por módulos idênticos de provadores onde alguns dos espelhos são retirados criando uma dupla ilusão de ótica e de realidade. É, ao mesmo tempo, lúdica e crítica.

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Nous ne sommes pas les derniers (1971), Zoran Music. O pintor, desenhista e gravador nasceu em 1909 em Bukovica, perto de Gorizia, na itália. Foi marcado profundamente pela experiência da Segunda Guerra Mundial ao ser preso pela Gestapo e internado em Dachau de 1944 a 1945. Seus primeiros trabalhos depois de sua libertação foram aquarelas e guaches de Veneza e pinturas do campo de Siena, mas, entre os anos 1950 e 1960. Depois de uma grande crise, retornou aos temas da década de 1940, voltou decisivamente para suas origens como um artista figurativo em uma meditação dolorosa sobre o terror de Dachau. A galeria applicat-prazan vendeu mais da metade das suas obras expostas, no valor, em média, de 450 mil euros, no dia da abertura.

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A galeria Daniel Templon, considerada uma das dez melhores em solo francês, expôs You and Me (2016) de Francesco Clemente. O trabalho do artista italiano abrange mais de quatro décadas e tem alcançado grande repercussão internacional.

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Silent, Listen
(2016), do artista chileno Ivan Navarro, conhecido pela união entre o néon e o fluorescente e suas mensagens sociopolíticas.

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:* (2016), Paulo Nimer Pjota, artista representado pela galeria brasileira Mendes Wood DM, que continua a sua trajetória ascendente este ano com uma nova galeria em Nova York.

Link curto: http://brasileiros.com.br/JJgrA
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