Há dez anos distante do álcool e das drogas, o agente literário e escritor Bill Clegg estreia na ficção depois de dois bem-sucedidos livros autobiográficos

O escritor e agente literário norte-americano Bill Clegg durante a 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), este ano. Foto: Walter Craveiro/ Divulgação Flip

O escritor e agente literário norte-americano Bill Clegg durante a 14ª Flip, este ano. Foto: Walter Craveiro/ Divulgação

“Eu apenas me sinto agradecido por ter achado um lugar no mundo. Na maior parte da minha vida não achei que isso seria possível”, diz o escritor e agente literário americano Bill Clegg, 45 anos. “Agradecido pelo fato de poder trabalhar com o que amo, representando alguns dos escritores que mais admiro, e de poder escrever livros dos quais consigo me orgulhar. Eu não podia imaginar, por nada, que teria essa vida. Acho que tem um lado meu que acorda surpreso todos os dias.” A declaração poderia soar exagerada, até piegas, não fosse a conturbada trajetória de vida do escritor e o fundo do poço em que se viu há cerca de dez anos, após mais de uma década de alcoolismo e vício em crack que culminaram na perda do emprego, de todo o dinheiro guardado, dos amigos, do namorado, da saúde física e mental e em uma tentativa malsucedida de suicídio – experiência relatada em detalhes em seu livro de estreia, Retrato de Um Viciado quando Jovem (2010).

Após sobreviver à tragédia, passar por hospital, clínica de reabilitação e um longo período de recuperação em Nova York – sem trabalho e com pouco dinheiro, apenas frequentando reuniões para dependentes químicos e lutando para não ter recaídas –, Clegg voltou a trabalhar, começou a escrever e se tornou um dos mais importantes nomes da nova literatura americana. Na sequência do primeiro livro, no qual intercala períodos da infância e adolescência com relatos dos piores meses de vício – passados em hotéis de Nova York, em uma “balada” regada a sexo e doses exorbitantes de crack e vodca –, Clegg registrou, em 90 Dias (2012) o período de recuperação, e estreou na ficção com o romance Você Já Teve uma Família? (2015), lançado este ano no Brasil pela Companhia das Letras. Com o novo livro, ele já foi indicado ao Man Booker Prize e ao National Book Award, dois dos grandes prêmios da literatura em língua inglesa, e esteve recentemente no Brasil para participar da 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). 

“Minha relação com o vício e a minha experiência de recuperação são coisas que eu me senti compelido a colocar no papel e tirar algum significado disso. Esse processo me deu um novo tipo de vício, que é a escrita. É um bom vício”, afirma Clegg, em conversa com a CULTURA!Brasileiros. “Limpo” há cerca de dez anos, ele diz não se sentir mais compelido a escrever sobre a própria vida, mas segue engajado com vários dos temas e ideias que vieram à tona nos livros de memória. “Não acho que estou tentando lidar com meu passado em Você Já Teve uma Família?, mas estou criando a partir dele.” O romance se passa em Wells, pequena cidade de Connecticut repleta de contradições sociais, inspirada em Sharon, onde Clegg cresceu. O ponto de partida é a morte de quase toda uma família após a explosão da casa onde viviam. June, a única sobrevivente, tem de lidar com o luto, a culpa – por que só ela sobreviveu? Será que podia ter evitado o acidente? – e a necessidade de recomeçar do zero.

“Nada do que acontece no livro aconteceu na minha vida. Ninguém próximo a mim havia morrido até aquele momento em que escrevi a história, por exemplo. Mas o meu lado memorialista está ali. Principalmente porque o livro partiu do lugar onde cresci, e não tinha como eu não estar conectado à história.” Se não tinha lidado concretamente com a morte, Clegg conhecia bem a dor da perda: “Tive uma experiência muito extrema de perder saúde, dinheiro, trabalho, círculo de amigos… Tudo na minha vida mudou. Eu recomecei do zero quando voltei para Nova York, e isso é esmagadoramente assustador. Mas também tem algo de estimulante em entrar em um novo mundo, e acho que há personagens no livro que experimentam isso”. Sobre o sentimento de culpa, Clegg também afirma que é algo com que segue lidando até hoje. “Mas acho que isso não é incomum. Culpa e arrependimento são coisas com as quais todos nós lidamos, em diferentes níveis. Não dá para falar de seres humanos ou da história humana sem falar desses sentimentos.”

As capas dos três livros de Clegg.

As capas dos três livros de Clegg.


A memória no papel

Clegg prepara seu segundo romance, que deve ficar pronto no próximo ano, e conta que a narrativa mais uma vez se relaciona com a cidade onde cresceu, além de trazer um personagem em comum com o último romance. Os desafios de escrever um livro de ficção seguem os mesmos, segundo ele. “Quando você tem de tomar decisões sobre o mundo onde uma história acontece, e sobre todas as características dos personagens, existe muito mais para ser inventado e modelado. Na ficção, já que aquilo não existe, você precisa decidir que vai existir. Nas memórias, as experiências são reais. Você faz escolhas de quais aspectos vai destacar, mas está trabalhando com um material preexistente”. Material, este, relatado por Clegg com precisão e detalhes impressionantes nos livros autobiográficos.

“Muita gente não lembra nada sobre os anos de uso excessivo de drogas, mas eu nunca apaguei as coisas, nunca perdi a consciência, a não ser no final de tudo”, conta o escritor, mesmo admitindo que, muitas vezes, verdade e ilusão podem se misturar nas recordações. “Acho que, em parte, isso tem a ver com o fato de eu ter sido hiperfuncional no meu trabalho. Por mais de dez anos, fui viciado em crack e estava sempre muito preocupado que ninguém soubesse. E realmente ninguém suspeitava. Eu parecia ser um agente literário bem-sucedido, sem grandes problemas, mas passava as noites acordado fumando crack. E o único jeito de você fazer isso é sendo muito atento aos detalhes. Para aparentar estar bem, dar conta do trabalho e ainda assim usar suas drogas, num tipo de vida secreta, você precisa ter certo controle. E a vergonha é parte importante disso. Eu usava crack e depois prometia para mim mesmo que nunca mais usaria; ficava lembrando detalhes da noite anterior, como uma tortura, me flagelando. E acho que isso fez com que eu sempre me lembrasse de tudo. Quando fui escrever, estava treinado.”

Clegg conta que quando começou a redigir suas memórias não pensava que aquilo se tornaria um livro. Era apenas um jeito de lembrar e dar sentido para as coisas – ou ver a falta de sentido delas. “E enquanto eu escrevia aquelas recordações dos piores meses, nos quartos de hotel, outras memórias começaram a vir, sobre minha infância. E aquilo parecia desconectado, era um pouco um quebra-cabeça que eu queria tentar montar.” O autor conta que, em dado momento, sentiu que não tinha mais a opção de não escrever o livro. Precisava apenas decidir se queria publicá-lo ou não. E por que expor ao mundo momentos tão sofridos e constrangedores, que aparentemente qualquer um desejaria esquecer? “O maior risco, para mim, é esquecer”, diz Clegg. “Acho que o motivo para incluir as histórias mais íntimas e vergonhosas é, também, porque a experiência do vício é muito solitária. Você se sente sozinho, faz coisas que nunca faria. E eu não achava que outras pessoas tinham chegado aonde cheguei. Mas quando comecei a recuperação, e ouvi relatos chocantes e tristes de gente que eu não achava que tinha problemas, isso me pareceu muito corajoso e me senti menos solitário, mais conectado ao mundo. Achei que, se eu conseguisse atravessar o meu medo e colocar no papel algumas das coisas que eram profundamente dolorosas para mim, o livro teria a chance de ser útil, até de ajudar alguém.”

Se, mais uma vez, a fala de Clegg pode soar um tanto piegas, na linha “livro de autoajuda”, quem lê os livros do escritor desconfia que não é o caso. Alguém que já expôs ao mundo todos os seus podres, como fez Clegg, não parece se preocupar em fazer um “discurso bonito” ou “politicamente correto”. Pelo contrário, o interesse pelas histórias humanas mais trágicas e um desejo de ajudar parecem ter se tornado também novos vícios para o autor – assim como é a escrita. “Continuo indo às reuniões todos os dias. É o que eu tenho que fazer”, diz ele ao fim da conversa. “Gosto de ser útil para outros alcoólatras e viciados. Essas pessoas são extremamente interessantes. Não é uma obrigação, amo ir lá. Eu achava que seria a pior sentença da minha vida ter de ir para sempre nessas reuniões, mas hoje é a melhor parte do meu dia.” Não é pouca coisa, considerando que o restante do tempo, em seu trabalho, Clegg lida com destacados nomes da literatura contemporânea, como Emma Cline, Akhil Sharma, David Levithan, Molly Antopol e muitos outros.

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