Por lá passam grandes nomes do teatro, da música, das artes plásticas, do cinema. Mas o espaço que está incorporado ao cotidiano de diversas cidades do País também é clube, biblioteca, colônia de férias, escola em período integral. Oferece ainda
programas de entretenimento para idosos. Para Danilo Miranda, sociólogo e diretor regional do Sesc em São Paulo, trata-se,
sobretudo, de um projeto bem-sucedido de bem-estar social

The Wold Woman - Criada por Bob Wilson, a peça encenada por Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe ocupou a programação do  Sesc Pinheiros em 2014

The Wold Woman – Criada por Bob Wilson, a peça encenada por Mikhail Baryshnikov e Willem Dafoe ocupou a programação do
Sesc Pinheiros em 2014

Difícil resumir a vocação do Serviço Social do Comércio, o Sesc, que em 2016 completa 70 anos. Para uns, trata-se do clube com movimentadas piscinas. Para outros, do refúgio silencioso que suas bibliotecas reservam. Há em algumas de suas unidades marcos arquitetônicos urbanos ou mesmo o isolamento de reservas ambientais ou colônias de férias. Restaurantes a preços acessíveis, programas voltados para idosos e escolas em período integral. É o palco para aclamados espetáculos, o reduto de instalações e obras questionadoras. Trata-se para Danilo Miranda, sociólogo e diretor regional do Sesc-SP, sobretudo, de um projeto bem-sucedido de bem-estar social.

“Na prática, quando digo programa de bem-estar social, estou falando de algo que tem a ver com política pública, tem a ver com o que o Estado tem como obrigação fazer. Quando o Sesc e as outras instituições do Sistema S foram criados, o Estado tinha menos condições, agilidade e capacidade de realizar um programa como esse, que cresceu e saiu de uma perspectiva muito mais assistencialista para um programa de desenvolvimento sociocultural e educativo”, diz Miranda.

O ano era 1946, quando o Sesc e outras instituições que compõem o chamado Sistema S, entre elas Senac, Senai e Sesi, foram criados por meio de decreto. Lideranças empresariais do comércio, indústria e agricultura se reuniram em Teresópolis, no Rio de Janeiro, na Primeira Conferência das Classes Produtoras, e elaboraram a Carta da Paz Social, com diretrizes para uma nova relação capital/trabalho, nas quais incluía a criação de instituições de apoio ao trabalhador.

No bairro do Engenho de Dentro, na zona norte da capital fluminense, surgia a primeira unidade do Sesc, com assistência à maternidade, infância e combate à tuberculose. A partir de então, a instituição se expandiu pelo Brasil, com 533 unidades fixas e 154 móveis, além de programas que contemplam a área de saúde, educação, lazer, turismo e cultura.

O próprio Miranda mantém longa história com o Sesc, que se iniciou em 1968, quando ele, então ex-seminarista de 24 anos, entrava na instituição por meio de concurso público. Em 1984, ele assumiu a direção regional, que hoje conta com 37 unidades pelo estado de São Paulo sob sua administração.

Em Vitória, Espírito Santo, o Sesc Glória ocupa o antigo Cine Teatro Glória, inaugurado em 1932

Em Vitória, Espírito Santo, o Sesc Glória ocupa o antigo Cine Teatro Glória, inaugurado em 1932

Parcerias

Em 70 anos, o Sesc não só ganhou notoriedade nacional como se tornou referência de programa sociocultural mundo afora. A instituição tem firmado acordos de cooperação com outros países, entre eles Alemanha, França, Polônia, Reino Unido e Japão, ressalta Aurea Vieira, relações internacionais do Sesc, departamento criado com o objetivo de estabelecer comunicação mais efetiva com órgãos internacionais e instituições análogas ao Sesc.

“Não acho arrogante dizer que somos comparáveis às melhores instituições culturais do mundo. É uma constatação que faço permanentemente em cada viagem e a cada visita de parceiros ao Sesc”, defende Aurea.
Em 2015, durante conferência de inauguração da Faculdade de Urbanismo do Instituto de Estudos Políticos de Paris, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, declarou que o Sesc serviu de inspiração para o Centquatre, centro cultural público francês inaugurado em 2008. “O Sesc impressiona muitas instituições internacionais e certamente continuará impressionando. O trabalho de influenciar e ser influenciado, a troca é fundamental, está apenas começando”, projeta Aurea.

Em Terra Comunal, o Pompeia apresentou a maior retrospectiva da artista sérvia Marina Abramovi na América do Sul, em 2015.

Em Terra Comunal, o Pompeia apresentou a maior retrospectiva da artista sérvia Marina Abramovi na América do Sul, em 2015.

A forte representação no universo da cultura e das artes já aproximou o Sesc, por muitas vezes, de uma espécie de “o outro” Ministério da Cultura, uma comparação que também diz respeito ao seu orçamento anual, que supera o do ministério em questão. Invariavelmente, o Sesc arrecada 1,5% da folha de pagamento das empresas dos ramos de comércio, serviço e turismo todos os anos.

Miranda se diz lisonjeado com a comparação, mas trata de afastá-la: “Nossa ação no campo da cultura não é a mesma, a comparação orçamentária não é válida porque estamos falando de um complexo constitucional que abrange campos de ação que vão além do que normalmente se tem em um ministério, seja ele do esporte, seja da cultura, da justiça, da saúde. Estamos em todos eles de alguma forma. Temos ações que têm a ver com todos os ministérios”, rebate.

Fato é que nesses 70 anos o Sesc foi palco para nomes de peso. Por suas unidades, passaram os músicos Caetano Veloso, César Camargo Mariano, Hermeto Pascoal, Ney Matogrosso, Elza Soares, a artista performática Marina Abramovi, o diretor Bob Wilson, o ator Willem Dafoe, o bailarino Mikhail Baryshnikov, a diretora Ariane Mnouchkine, com o Théâtre du Soleil, e a Royal Shakespeare Company. O Sesc mantém ainda o grupo teatral Macunaíma, dirigido por Antunes Filho.A lista é gigantesca.

Projetos com caráter social e cultural também rodam o País, caso dos programas itinerantes Palco Giratório, que promove apresentações de teatro, e Sonora, com programações pautadas na história da música brasileira. Da mesma forma, nomes do cenário artístico independente têm espaço cativo na programação.

A instituição também é responsável por resgatar marcos arquitetônicos históricos. Caso do Sesc Pompeia, em São Paulo. Projeto da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, a antiga fábrica de tambores hoje é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A sede da administração do Sesc-SP, a unidade Belenzinho, já foi endereço da fábrica de tecelagem Moinhos Santista S/A. Em Curitiba, uma das unidades ocupa o Paço da Liberdade, prédio histórico localizado no centro da cidade; em Vitória, Espírito Santo, o Centro Cultural Sesc Glória ocupa prédio da sede do Cine Teatro Glória, inaugurado em 20 de janeiro de 1932.

Novas unidades estão previstas para serem entregues nos próximos anos. Além da expansão física, o Sesc tem se modernizado no que diz respeito às suas pautas de inovação tecnológica. “Estamos expandindo cada vez mais em termos conceituais.Questões sobre diversidade e sustentabilidade são valores cada vez mais importantes. Nosso legado físico está aí. Do ponto de vista conceitual, nesse meio tempo tivemos a revolução tecnológica, a chegada da internet, que muda completamente os conceitos e a inovação de dentro para fora e de fora para dentro, é fato relevante. A adaptação desse fenômeno no dia a dia da instituição é um processo de expansão, de valorização e crescimento natural”, pontua Miranda.

Em qualquer cenário, o diretor reforça que o Sesc jamais abrirá mão da cultura – transversal a toda instituição. No contexto político atual em que a cultura está em condição de recorrente fragilidade – o próprio Ministério da Cultura chegou a ser extinto e subordinado ao Ministério da Educação para depois ser “recriado” –, Miranda aproxima o conceito de cultura a, digamos, um direito básico: o da felicidade. Ele argumenta: “Não existe esse convencimento efetivo por parte da nossa elite dirigente de que a educação e a cultura são fundamentais para que o País melhore, cresça e se desenvolva no sentido pleno e não puramente no desenvolvimento econômico. Porque o desenvolvimento econômico sozinho não é efetivamente adequado, como também pode gerar mais problemas ao só querer melhorar a infraestrutura, só o material, o econômico. A gente precisa melhorar a condição da felicidade das pessoas, e aí que eu falo do bem-estar social. Essa cultura é a tradução do que interessa para as pessoas”.

O multiinstrumentista alagoano Hermeto Pascoal, que já passou várias vezes pelo Sesc, em apresentação no Circuito Sesc de Artes, em 2014

O multiinstrumentista alagoano Hermeto Pascoal, que já passou várias vezes pelo Sesc, em apresentação no Circuito Sesc de Artes, em 2014

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