Conhecida pelo codinome instigante, Heloisa Helena tinha 22 anos e atuava como informante da polícia política em 1968

Heloisa Helena na coletiva. José Dirceu está sentado, à esquerda dela - Foto: Reprodução

Heloisa Helena na coletiva. José Dirceu está à esquerda dela – Foto: Reprodução/Arquivo Público do Estado de São Paulo

A mensagem escrita a giz no quadro-negro mandava a “imprensa burguesa” ficar “sentadinha nas cadeiras”. Ansiosos por entrevistar e fotografar a Maçã Dourada, que estava para ser libertada após quatro dias de “cativeiro”, os jornalistas nem se deram ao trabalho de reclamar. Era uma terça-feira, dia 9 de julho de 1968.

“Às 12hs, ela entrou sorridente e zombateira, fumando tranquilamente, sendo recebida pelo pai”, contou no dia seguinte reportagem do Estadão. Maçã Dourada era o codinome de Heloisa Helena Magalhães, uma morena bonita, que circulava com desenvoltura na ocupação que dominara o prédio da USP na rua Maria Antônia, em São Paulo.

Aos 22 anos, ela tinha surgido do nada na Faculdade de Filosofia, assim que o prédio foi ocupado pelos estudantes. Em plena ditadura, eles reivindicavam autonomia universitária e repudiavam o acordo MEC-USAID, que visava reformar o ensino de acordo com padrões americanos. Contavam com o apoio de boa parte dos professores, que ministravam aulas livres na ocupação.

Entre uma aula de Marxismo e outra de História da Arte, Heloisa Helena não teve dificuldade para se aproximar dos líderes do movimento, em especial de José Dirceu, presidente da União Estadual dos Estudantes, que havia sido extinta depois do golpe de 1964. Como não estava matriculada em nenhum curso, logo despertou suspeitas.

Na manhã da sexta-feira 5 de julho, ela foi detida por um grupo de estudantes, quando deixava o prédio, depois de pernoitar na ocupação. A desconfiança de que espionava para o Dops foi confirmada por documentos encontrados no apartamento em que Heloisa Helena morava, em Higienópolis.

Durante quatro dias, a garota ficou “sequestrada” no prédio ocupado da USP. Na entrevista coletiva convocada para sua liberação, Heloisa Helena garantiu que não era agente do Dops, mas “apenas” informante: “O trajeto das passeatas eu fornecia para que a área fosse evacuada, evitando assim, choques com policiais”.

Seu pai, que participou da coletiva, argumentou que ela, “pelo dever de funcionária”, tinha sido forçada a informar. E mais: pediu “o silêncio da imprensa e o respeito à família, que está sofrendo muito, pois ela não merece o pejorativo de Maçã Dourada, pois é, quando muito, uma borboletinha um pouco imatura”.

O Dops, por sua vez, minimizou a atuação da garota. Celso Telles, um dos delegados mais influentes da polícia política, chegou a dizer que ela só passava “informações inúteis”. Levada pelo pai para Casa Branca, no interior paulista, onde a família morava, Heloisa Helena foi demitida pela Secretaria de Segurança no ano seguinte “por abandono de emprego”.

Maçã Dourada, acompanhada pelo pai, deixa o prédio da USP - Foto: Reprodução

Maçã Dourada, acompanhada pelo pai, deixa o prédio da USP – Foto: Reprodução

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  • Jean Pierre Chauvin

    Reportagem corajosa e muito oportuna da Luiza Villaméa. Sob os gritos histéricos de “vai pra Cuba”, há um bando de potenciais informantes desinformados entre nós. Parabéns a Brasileiros. Um abraço.