…Querer salvar o mundo é sublime, julgar-se o salvador é ridículo

Foto: Flávio Magalhães

Foto: Flávio Magalhães

Miguel de Cervantes morreu há exatos 400 anos. Um ano antes, em 1615, ele finalizava o Dom Quixote, obra que inaugura o Romance moderno e talvez, pela ironia do anti-herói, também expresse a alma do homem contemporâneo. O cavaleiro da Triste Figura parece encarnar, com suas peripécias, a ambiguidade entre o sublime e o ridículo, para no final da história, devidamente resgatado, novamente em sua casa, recobrar a lucidez e morrer.

Curiosa coincidência entre os percursos do criador e da criatura. Ainda não sei se a vida imita a arte ou a arte imita a vida.

Há exatos 20 anos nascia o Projeto Quixote, dedicado a acolher crianças e jovens vivendo nas ruas como exilados dentro de sua própria cidade, e ajudá-los a continuar escrevendo as suas histórias, com novas perspectivas, ângulos e linguagens. Batizamos o Projeto com esse nome porque desde o início nos assumíamos como românticos querendo salvar o mundo. Eu acreditava, na florescência da minha trigésima quarta primavera, que em 20 anos, não existiria mais a injuriosa realidade das crianças vivendo nas ruas, porque as escolas, a rede de ONGs e políticas públicas articuladas e sinérgicas dariam conta do recado. Também seria tempo suficiente para uma profunda revisão nos sistemas e procedimentos da sociedade, de tal forma que a produção, em escala industrial, de miséria e alienação deixaria de existir, porque, afinal de contas, estamos evoluindo.

Revisão profunda ocorreu foi dentro de mim. A vida, como ela tem sido, forçou-me a ser mais econômico nas expectativas desta (pré) suposta “evolução”. Sim, claro! Vinha sendo filho legítimo do Iluminismo.

Neste período jubiloso, hasteamos inúmeras vezes a bandeira do sublime que tremulava e ainda tremula como uma Rosa aos Ventos, semeando sonhanças e encantamentos. Muitas vezes também, a bandeira do ridículo vem sendo fincada em nosso solo e assim, vimos oscilando entre esse dois polos.

Como ilustração, três lamentáveis acontecimentos recentes. De naturezas diferentes (humanitária, financeira e patrimonial). Busco fazer do caso particular, a representação de um coletivo de organizações e empreendedores sociais, que obrigados a sepultar seus ímpetos salvacionistas, empunham, em cada uma das mãos, cada uma das bandeiras.

 A rede de proteção às crianças e adolescentes mais vulneráveis está muito frágil, desarticulada. O Projeto Quixote teve que finalizar recentemente, as atividades na cracolândia porque a fragilidade da rede vinha convocando permanentemente a equipe a trabalhar heroicamente, com o consequente preço do stress e adoecimento. O poder público associa-se com as ONGs para dar conta dessas complexas demandas, por outro lado, o cenário crônico é de atrasos vergonhosos de repasses de recursos para a manutenção das atividades. O resultado dessa equação tem sido trágico. A organização da sociedade civil para a assistência social mudou muito nas últimas duas décadas. As entidades não são mais aquelas ligadas apenas às igrejas ou associações caritativas e seculares, são estruturas mais enxutas e operam com metodologias bastante inovadoras e eficientes, porém, ainda sem a autonomia e sustentabilidade que elas precisam e merecem. Que a sociedade merece, mesmo que nela existam setores que não compartilham com essa convicção. Por exemplo: Desde o início da construção da nossa nova sede, bonita e confortável, há 5 anos atrás, já sabíamos da resistência de um grupo de moradores da vizinhança, pequeno quantitativamente porém forte em influências políticas, que havia entrado na Justiça porque não queriam uma FEBEM por perto. O Juiz deu ganho de causa ao Quixote, com folga. Fomos surpreendidos, no final do ano passado, pela notificação do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo de que perderíamos nossa casa, o Moinho Quixote. Atualmente estamos trabalhando e conseguindo levar a decisão à terceira instância, onde, supostamente, teríamos mais chances de reverter a decisão.

Se aqui pego emprestado o teu ombro para os meus lamentos, é porque o cronista também precisa de afago. Mas não é apenas por conta de minhas carências que compartilho tudo isso. É porque sei que, com a experiência vivida nesse campo, eu posso te ajudar nas tuas reflexões. Assim é comigo quando visito Avó Benedita no sítio. Ela me apresenta o universo  das flores e dos pássaros e sempre saio entendendo mais sobre mim e o mundo. O Tintim é um beija-flor já não tão jovem que, com a primeira luz do dia, entra pelo galpão da cozinha e convoca, sem qualquer cerimônia, vó Bêne a servir-lhe sua merecida dose diária de água doce.

Não tenho nenhuma intenção de morrer, como fizeram Cervantes, Dom Quixote e,  através dos séculos, muita gente também. Pelo contrário. Estamos bem vivos, eu, o Projeto, os educadores, as crianças e os jovens, que desde nossas trincheiras continuamos a resistir e a criar.

Para mim, pessoalmente, o saldo é tristemente positivo.

Positivo porque mais realista.

Triste porque consigo projetar um final infame. Imagino no futuro, alguma inteligência antropológica extra-terrestre estudando os rastros dos terráqueos. Chegarão à conclusão que a humanidade fora um projeto ousado da natureza, mas que curiosamente fracassou. Assim como também consigo enxergar um percurso mais luminoso para a civilização. Um planeta com mais Gandhis que Putins.

E se tudo der errado, te convido desde já a refugiar-se em nosso Moinho e assim poderemos dançar juntos o tango, o samba ou o break, fruir pelo sublime, tropeçando no ridículo.

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