Ainda não se sabe se se trata de um fenômeno passageiro e de consequências reversíveis ou, ao contrário, algo com o qual teremos que conviver até o fim dos tempos, uma espécie de Armagedom cibernético

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Foto: FMagalhães

Assunto grave. Precisávamos ter pensado e falado mais sobre ele: mesas-redondas, congressos, summits! Mas não, falamos sobre as eleições nas cidades, tsunami no Japão ou as decisões do Tribunal de (In)Justiça de São Paulo. Todos assuntos também importantes, lamentáveis e de inquestionável gravidade. Se tivéssemos lido os sinais, que hoje parecem tão cristalinos, no mínimo, não estaríamos perplexos com o bizarro fenômeno cibernético-atmosférico: A Chuva de Silício.

Todo o conteúdo de informações armazenado nas nuvens, que vinham operando acima do limite, condensou. O colapso do sistema se tornou inevitável e o estrago começa a ser contabilizado. Gotas de múltiplas dimensões, desde minúsculas e quase invisíveis até flocos massudos do semimetal, começam a pingar do céu, com sua fabulosa coloração cinza escuro azulado. Sinistro.

O silício é o segundo elemento mais abundante na crosta terrestre, perdendo apenas para o oxigênio. Está presente na argila, granito, areia, cimento, cerâmica, vidro e é essencial no universo da nanotecnologia.

Ainda não se sabe se se trata de um fenômeno passageiro e de consequências reversíveis ou, ao contrário, algo com o qual teremos que conviver até o fim dos tempos, uma espécie de Armagedom cibernético.

Dados e pedaços de informações infiltram-se nos celulares e computadores do mesmo modo que a água ao encontrar o solo. Lares desfeitos, mentiras expostas, confidências reveladas, caos no sistema financeiro, no tráfego aéreo, suspensão na comunicação e na confiança entre as pessoas. O Wikileaks de Edward Snowden parece amostra-grátis comparado ao que agora começa a acontecer.

A Islândia está lucrando com o súbito aumento do turismo pela novidade na coloração da sua aurora boreal e também, ao que parece, porque sua latitude a protege dos efeitos nefastos da Chuva. Mas isto é exceção, pois o ambiente de caos ameaça a sobrevida de governos e corporações, e não apenas as californianas Amazon, Google Drive, iCloud ou Sendspace, que estão diretamente implicadas na crise.

Ingenuidade, bloqueios psicológicos e interesses econômicos prejudicaram nosso discernimento e fomos sendo engolidos pela realidade híbrida, aquela que mistura o ser humano com o robô. A “inteligência” fabricada pelos algoritmos baseia-se na lógica da confirmação das expectativas que já estávamos predispostos a aceitar, colocando-nos em contato com um Outro que é igual, que pensa e quer as mesmas coisas. Ótimo, aparentemente, para a Publicidade e o Marketing, péssimo para a vida.

Aos que ainda resistiam em entender, apesar da eloquência do argumento de Darwin na Evolução das Espécies (a espécie que não sofre mutação será extinta), ou ainda da constrangedora ocorrência, cada vez mais frequente, de gente caçando pokemons, a Chuva de Silício já não deixa mais qualquer dúvida.

Este silêncio forçado, após toda a gritaria, serve como uma pausa para revisarmos nossos procedimentos, e quando a comunicação for restabelecida, afinal, regurgitaremos aquela parte do humano  indevidamente engolida.

Antes de terminar, o cronista, que condenado a viver de migalhas, vez ou outra acaba garimpando uma pérola, não sabendo se este é o caso,  se o que aqui foi dito é invencionice barata ou previsão de um visionário, ainda alçou vôo ao passado e se perguntou: Será que na cidade onde foi inventado o jornal, tal como o conhecemos hoje em dia, as pessoas também se incomodavam com o a tecnologia? Quem lê o jornal se esconde atrás de um biombo de papel…

Não. Chega!

Até a próxima.

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  • Auro Danny Lescher

    *Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordenador do Projeto Quixote e psicoterapeuta