Em sintonia com debates atuais da arte contemporânea, a 32ª Bienal de São Paulo discute a urgência de repensar a relação do homem com a natureza, através de trabalhos que trazem plantas e fungos como parte das obras

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Detalhe da instalação “Psychotropic House: Zooetics Pavilion of Ballardian Technologies”, (2015 – 2016), da dupla de artistas Nomeda e Gediminas Urbonas

Por muito tempo, especialmente durante o século XX, o homem ocidental acreditou ter dominado de vez a natureza. Perdeu o medo diante de sua força e grandiosidade e passou a vê-la majoritariamente como fonte de recursos, podendo ser usada sem grandes consequências. Caminhando junto a esta visão – ou falta de –, baseada em parte na ciência moderna e na ideia de uma razão instrumental, a arte moderna acompanhou o movimento, ou ao menos deixou em segundo plano questões referentes à natureza e sua destruição. Com o passar das décadas, no entanto, assim como a sociedade teve de lidar com as consequências trágicas do desastre ecológico global – mudanças climáticas, poluição, desmatamento, falta de água, fome, etc. –, a arte contemporânea se tornou uma importante voz neste debate, colocando no centro de suas discussões a necessidade de repensar a relação entre homem e natureza. O que era uma prática mais pontual – com a land art, por exemplo, a partir dos anos 1960 – se tornou uma das principais linhas de pesquisa da arte contemporânea nos últimos anos, a partir da constatação da complexidade e urgência do quadro atual. “Frans Kracjberg disse que está na hora de dar um grito pela saúde do planeta. E acho que a situação realmente chama os artistas para isso”, afirma Jochen Volz, curador da 32ª edição da Bienal internacional de São Paulo.

Não à toa, ao menos uma dezena de artistas participantes da mostra, que tem abertura no dia 7 de setembro, lida diretamente com questões ecológicas em suas obras para o evento, inclusive com o uso de plantas e fungos nos trabalhos. Não se trata apenas de retratar a natureza ou paisagens, como ocorreu durante muito tempo, mas de incluir até mesmo estes seres vivos nas próprias obras. E não de modo instrumental, nem meramente contemplativo, mas de uma forma híbrida que permite à arte dialogar com diferentes disciplinas: “Este modo mais humilde de aprender com as ecologias é o que interessa. Quando um artista trabalha com a produção de fungos, de cogumelos, de plantas, não significa que ele vai se tornar um produtor de alimentos. É uma questão de entender que existem sistemas na natureza, até recentemente muito ignorados, que são extremamente sofisticados. E, claro, se trata de pensar esses trabalhos como ponto de partida. Não é a divulgação de ciências populares, mas a ideia de fazer um trabalho artístico que parta disso”, diz Volz. “O artista não é o grande professor, ele tem um desejo de provocar o espectador e a imaginação, possibilitando pensar outros futuros, muito mais do que fazer as pessoas entenderem como funcionam as coisas.”

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Detalhe da instalação “Back to the Fields”, de Ruth Ewan

A ideia de trabalhar – e provocar – a partir desse diálogo com a natureza surge também de uma visão multidisciplinar do conhecimento, que não teve espaço nos tempos em que a pretensão de dominar a natureza e de classificá-la predominou. “É claro que não há nada de incomum em artistas tratarem de grandes questões existenciais. Mas eu sinto que estes são tempos particularmente interessantes porque arte, ciência e política estão se aproximando cada vez mais, estão em constante conversação”, diz a suíça Ursula Biemann, que apresenta trabalho sobre a Amazônia junto com o brasileiro Paulo Tavares. “A arte sabe que está operando dentro de um sistema político e a ciência precisa da arte para transmitir as conclusões perturbadoras acerca da nossa biosfera, porque ela transforma o nosso modo de vida, a nossa própria existência. E a arte é capaz de ir além da comunicação de dados científicos e argumentos racionais para atingir o imaginário coletivo.” Nesse sentido, diz ela, a urgência da crise ecológica na terra mobiliza de artistas a advogados, urbanistas, cientistas, filósofos e ativistas. “Tudo toca tudo, e agora compreendemos que as ecologias locais estão conectadas, formando uma biosfera que é muito mais complexa do que podemos visualizar.”

Intitulada Incerteza Viva, a 32ª Bienal de São Paulo se propõe a refletir sobre esses temas sem trazer respostas definitivas. Constatando que vivemos em tempos incertos, em que a situação do homem no mundo parece cada vez mais precária, a edição pretende também pensar o lado propositivo dessa imprevisibilidade, com as possibilidades de aprendizado e (re)construção. E pensar a necessidade de rever a relação do homem com a natureza, não mais sobre as bases de um sistema de dominação: “Às vezes um sistema de pensamento rui porque ele era uma mentira, falso, ou porque esquecemos qual era o problema que ele deveria responder”, diz a artista dinamarquesa Rikke Luther. “E há um sentimento de perda da certeza, o que é profundamente irônico porque, de certo modo, a mudança climática é mais certa e poderosa do que qualquer ideologia política que já existiu.” Para aprofundar o debate, a ARTE!Brasileiros conversou com uma série de artistas que estarão na 32ª Bienal com obras que refletem sobre questões ecológicas e o uso de plantas e fungos na produção artística.

 


Plantas, alimentos e florestas

Para além de intervenções no espaço externo do Parque Ibirapuera, que devem estabelecer uma comunicação entre pavilhão e jardim, o primeiro trabalho que chama a atenção é o próprio restaurante da Bienal, que deixa de ser apenas um espaço comercial e ganha significados conceituais, filosóficos e artísticos. Intitulado Restauro, o espaço será, ele mesmo, uma obra, idealizada pelo artista Jorge Menna Barreto a partir do pensamento agroflorestal e da ecogastronomia. Tanto os alimentos servidos quanto o desenho do espaço, a iluminação, os materiais utilizados e as intervenções artísticas e sonoras no local, tudo parte da ideia de que uma nova relação com a natureza é necessária. “O restaurante costuma ser um lugar de descanso e de consumo, que até hoje não havia sido pensado como parte dessa grande máquina de produção de sentido que é uma Bienal”, diz Barreto. “Pareceu-me interessante, em um evento que manifesta explicitamente uma agenda ambiental, que pudéssemos buscar estratégias de alinhar essa frequência real de público com conceitos apresentados pela mostra.”

O Restauro, deste modo, utilizará alimentos plantados com inspiração no modo de funcionamento de uma floresta, onde a diversidade – e não a monocultura – gera fertilidade e autossuficiência. “É muito bonito presenciar a interação entre as espécies e dar-se conta de que há uma mágica ali que está para além das habilidades de cada espécie individual. Há algo que se dá na relação entre plantas, insetos, bactérias, sol, terra, água e humano que nos prova que o real caminho da vida é o da diversidade.” Uma instalação sonora no restaurante, com áudios captados na floresta, mostra também a variedade da paisagem sonora desses locais – em contraste com as plantações de monocultura, que, segundo Barreto, são absolutamente silenciosas. Outra ideia da obra é perceber o alimento para além de sua condição de mercadoria: “Vejo que a ecogastronomia se endereça a um tipo de fome que não é apenas fisiológica, mas a fome de relações mais justas de trabalho, a fome de biodiversidade, de respirarmos um ar limpo, de apoiar a agricultura familiar, de termos menos violência urbana e de poder alimentar a vida enquanto nos alimentamos”, diz. “E acho que a arte tem muito a contribuir para o debate desses assuntos.”

Uma das origens do alimento a ser utilizado pelo restaurante, a horta de plantas alimentícias não convencionais (PANC) é, ela também, uma das obras da Bienal. Concebida pela artista portuguesa Carla Filipe como uma instalação site-specif, a obra intitulada Migração, Exclusão e Resistência será feita com uma plantação em módulos usualmente ligados à agricultura urbana, como anéis de concreto, pneus e barris. “Não pretendo simular uma horta de periferia, mas sim uma instalação, uma horta seguindo regras de composição espacial, ou seja, está no campo da arte, na integração do objeto no espaço”, diz Filipe. O fato de lidar com seres vivos em seu trabalho, segundo a artista, se relaciona também com o conceito de incerteza que permeia toda a Bienal. “Ao usar a horta, lido com matéria viva, que exige cuidados ao longo da exposição e não sabemos exatamente seu futuro – pode ser afetada por uma praga ou por alguma intempérie. A partir da inauguração vai existir uma alterabilidade regular, irregular ou imprevisível”, afirma. O uso de PANCs, de outro lado, questiona o porquê de escolhermos certas plantas em detrimento de outras, já que muitas vezes “recusamos” vegetais que também são comestíveis. Filipe conta que, durante o processo de montagem da horta, algumas pessoas reconheceram plantas que eram usadas por seus avós, por exemplo. “E isso tudo envolve questões ligadas à memória, à experiência, aos hábitos, aos costumes. Portanto, estamos a falar de cultura.” E de nossa consciência sobre a natureza, completa ela.

Outros dois trabalhos de destaque são uma instalação da inglesa Ruth Ewan e o vídeo de Biemann e Tavares. Ewan apresentará uma versão de sua obra Back to the Fields (De Volta aos Campos), uma instalação composta por plantas, troncos, raízes, frutas, ossos, pedras, cestos, enxadas e outras peças ligadas à natureza, que representam cada uma um dia do ano. O trabalho é inspirado no chamado Calendário Revolucionário Francês, ou Calendário Republicano, que com bases anticlericais e influenciado pelo ciclo da natureza funcionou oficialmente na França entre 1793 e 1805. A ideia, segundo Ewan, é que o visitante possa circular pela obra visualizando os ciclos do ano de um modo distinto, questionando as divisões de tempo que utilizamos e, de algum modo, “celebrando a natureza e enxergando sua beleza e racionalidade”. O vídeo apresentado por Biemann, artista suíça, e Tavares, arquiteto brasileiro, é por sua vez o trabalho com engajamento político mais explícito, ao tratar de questões jurídicas na defesa de direitos da floresta e das comunidades que a habitam. O filme – que resultou também em livro –, intitulado Forest Law_Selva Jurídica, foi produzido a partir de uma viagem da dupla pela Amazônia equatoriana, onde a floresta e as populações indígenas sofrem enorme pressão das indústrias extrativistas de óleo e minérios. Não se trata, no entanto, de um trabalho puramente documental, como explica Biemann: “A proposta não é apenas apresentar fatos, mas criar um novo lugar no imaginário do visitante, com uma montagem inesperada de ideias e conexões.” E ela conclui, em sintonia com a proposta curatorial de Volz: “Queremos abrir na Bienal um ambiente onde debates sobre a jurisprudência ambiental, a cosmologia indígena e a mudança climática possam ser colocados em conversa”.

O mistério dos cogumelos

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Fotografia que integra a série “(t) here” (2014),de Em´kal Eyongakpa

Muito antes de o homem inventar o telefone, o rádio ou a TV, a natureza já possuía uma via instantânea de tráfego de dados. A chamada internet natural é uma rede de informações que as plantas trocam entre si, através dos fungos. Essa forma de comunicação da natureza foi estudada pelo cientista Paul Stamets, segundo o qual o solo possui um emaranhado de fungos que ajudam as plantas a trocarem nutrientes entre si, além de criarem mecanismos de sobrevivência. Antes renegados pela ciência, os fungos agora são tema de diversos estudos. Eles podem substituir os plásticos, os antibióticos e as vitaminas. Não à toa, aparecem em ao menos quatro projetos da Bienal.

A dupla de artistas lituanos Nomeda e Gediminas Urbonas, por exemplo, construiu um laboratório no qual o público poderá promover a interação entre os cogumelos mycelium e outros substratos, como milho, açúcar e eucalipto, para criar novos artefatos. O objetivo da dupla é, a partir da arte, aproximar o público dos avanços científicos: “Desenvolvemos uma infraestrutura para que as pessoas possam trabalhar com biotecnologia. Queremos democratizá-la, torná-la mais acessível ao público. E por que esse processo é tão importante? Caso nós deixemos a biotecnologia nas mãos das corporações, podemos confiar nelas? Na condição capitalista, a comida e a água podem ser envenenadas. Nós precisamos controlar o problema, e nosso trabalho está lidando com essa urgência”, afirma Gediminas. Os dois optaram por utilizar cogumelos devido a sua complexidade. Nos anos 1960, astronautas levaram amostras de fungos para o espaço e, no retorno, elas estavam intactas, tendo sobrevivido à temperatura e à radiação. É justamente essa aura de mistério e estranheza em torno do reino dos fungos que interessa aos artistas: “Os cogumelos trazem novas fronteiras para a ciência e para a arte. Essas experimentações com tecnologia e biologia são fundamentais, pois abrem possibilidades de novas pedagogias e imaginações a respeito da vida”, diz Geminidas.

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Instalação “Psychotropic House: Zooetics Pavilion of Ballardian Technologies”, (2015 – 2016), da dupla de artistas Nomeda e Gediminas Urbonas

Outro trabalho no qual os cogumelos estão presentes é o do camaronês Em´kal Eyongakpa. Ele apresenta uma instalação multimídia que confronta elementos orgânicos com outros resultantes da ação humana. Na obra, sons da cidade misturam-se a sons de florestas e cantos de povos tradicionais. As paredes são cobertas por cogumelos mycelium. Neto de um xamã, Eyongakpa estudou Biologia para entender como seu avô utilizava os elementos naturais para sanar problemas físicos e psicológicos. Depois de alguns anos, começou a atuar como artista, mas a natureza continuou tendo um papel central em sua obra. Seu trabalho no pavilhão é “uma espécie de balanço entre o equilíbrio e a catástrofe na natureza, usando sons”. Os fungos foram escolhidos justamente por seu papel de comunicação: “Os cogumelos são o mais próximo que há da internet no meio natural. Eu queria de certo modo criar esse espaço que abriga uma instalação intermídia baseada na cultura mycelium”. Pioneira na arte ecológica, a colombiana Alicia Barney também traz uma obra na qual os conhecimentos tradicionais são centrais, aproximando-se dos rituais dos povos indígenas. Ela apresenta uma intervenção no Parque Ibirapuera: um instrumento feito de tubos, semelhante a um órgão, para ser tocado aleatoriamente pelo vento. Junto ao instrumento foram instaladas esculturas de cogumelos, sobrepondo uma camada psicodélica à paisagem. Em sua produção, Barney promove críticas ferozes ao capitalismo e sua relação com a natureza.

O questionamento da ideia de progresso também aparece na obra de Rikke Luther. Em Overspill: Universal Map, a artista apresenta uma instalação composta por painéis de azulejos, relacionando catástrofes ambientais com os Bens Globais Comuns (oceano, atmosfera, espaço sideral e Antartida), cuja exploração é regulada por acordos estabelecidos pela ONU. Encontram-se ainda na instalação amostras de petróleo e de lama tóxica recolhida em Mariana, Minas Gerais, e uma escultura de um fóssil de prototaxites – possível ancestral dos fungos –, que habitou a Terra há cerca de 400 milhões de anos. Segundo a artista, o conceito dos Bens Globais Comuns refere-se a recursos que são universais, estando além do controle de qualquer país, mas que com a globalização estão sendo apropriados por multinacionais. “No meu trabalho, examino os sistemas intelectuais que criamos para mediar a nossa relação com a natureza. Neste momento, parece que os Bens Globais Comuns são um sistema em colapso”, afirma Luther.

As incertezas e os modelos em colapso estão em evidência na Bienal deste ano. A lama de Mariana, presente no trabalho de Luther, talvez seja uma das metáforas mais potentes desse colapso, como enfatiza o artista: “Todos os dias milhões de pessoas morrem por conta dos vapores da gasolina e de outras toxinas. Mas é difícil criar sentidos a partir desses fatos científicos. As fotos do desastre de Mariana são diferentes. São imagens da morte. E a morte aqui tem cor e forma”, afirma.

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