Em 2003, com o suporte do programa, Colin Powell, então Secretário de Estado dos EUA, convenceu o Conselho de Segurança da ONU que o Iraque devia ser atacado por possuir armas nucleares de destruição em massa, tese jamais comprovada

Com o suporte do software Power Point, o ex-secretário de Estado dos EUA, Colin Powell defende, em 2003, a tese de que o Iraque possuía armas nucleares e de destruição em massa. Foto: Reprodução

Com o suporte do software Power Point, o ex-secretário de Estado dos EUA, Colin Powell defende, em 2003, a tese de que o Iraque possuía armas nucleares e de destruição em massa. Foto: Reprodução

Alguém dirá que esta não é a minha praia usual.

E alguém dirá que o tema do Power Point é “tão semana passada!”

De fato, a política nacional é um mistério para mim. Mas não é daqueles mistérios interessantes que convidam mentes curiosas ao prazer da descoberta. É mais um mistério em que o remexer só faz liberar o odor típico das matérias decompostas. Pouco meto a minha colher ali.

E, de fato, muito aconteceu desde o Power Point de Curitiba e, nestes tempos acelerados, a notícia ficou velha.

Mas, desde aquele dia em que setas e círculos eram usados para demonstrar que na verdade o Lula era o Megamente, uma memória e um conjunto de sensações ficaram comigo. Cheguei até a pensar que a humanidade podia ser dividida em dois, com base na sua relação com os Power Points da vida: os que acreditam e os que duvidam.

A memória que me veio, imediata, foi a de uma sessão do Conselho de Segurança da ONU, em 2003, em que o então Secretário de Estado americano Colin Powell, um pouco constrangido, é verdade, quis com um Power Point provar ao mundo que Saddam Hussein desenvolvia armas nucleares e outras de destruição em massa e que, por isso, o Iraque precisava ser invadido.

Muita gente acreditou nas “verdades” contidas, em círculos e setas, se me lembro bem, e também em fotos de tubos e de caminhões. Com base nelas o Iraque foi atacado. Ninguém achou aquelas armas e milhões morreram – digo milhões porque contabilizo os não americanos.

Nada tão dramático se pode esperar do Power Point de Curitiba. Ele tem em comum com o de Nova Iorque apenas o fato de que olhando para os slides eu me perguntava como era possível não perceber, parafraseando o poema Vida de José Hierro, que tudo aquilo era nada.

Power Points tampouco são a minha praia e é apenas com grande dificuldade que colo sobre um slide uma foto ou uma frase, mas sei com certeza que não podem constituir sozinhos a prova da estória que contam.

Lembro-me de ter me perguntado que prova, e de que crime, estava contida num círculo com a palavra “expressividade” ligado a outro círculo que dizia “Lula”. Pensei que talvez tivesse a ver com algum traço da personalidade do último, mas duvidei.

Mistério, minha palavra favorita hoje.

Outro aspecto misterioso daquela apresentação era este: eu não sabia se ela fazia a prova – ou forte indício – de falta de inteligência dos procuradores ou da crença dos procuradores na nossa pouca inteligência.

Ou talvez, pensando bem, nem eles pretendiam provar qualquer coisa, nem esperavam que acreditássemos. Aquilo tudo servia a produzir as manchetes do dia seguinte e criar um fato novo na política.

Assim vou tentando arranjar as peças desse quebra-cabeça, tentando apenas.

Agora, o Direito é um pouco a minha praia e posso dizer com maior segurança que o papel do procurador não é transformar em manchetes acusações espetaculares, que, diga-se de passagem, nem são as que levará ao juiz.

Não direi mais sobre isso. E talvez tivesse calado de todo não fosse termos sido presenteados com outro quebra-cabeça do mundo fantástico da Lava Jato.

Contento-me com espalhar as peças pelo chão e deixar que cada um resolva o enigma por conta própria.

A primeira das peças, técnica, tiro da análise de uma colega feita para um grande jornal: o que havia sido pedido originalmente pelos procuradores era a prisão preventiva de Mantega; Moro, ao invés da preventiva, decretou a prisão temporária, que dependia de pedido do Ministério Público ou da policia e que se destina aos fins de investigação, sem que houvesse tal pedido.

A prisão serviria a impedir que Mantega atrapalhasse as investigações.

Foi decretada no dia 15 de agosto, mas só foi cumprida no dia 22 de setembro, segundo leio nos jornais, por causa das olimpíadas! Todo mundo sabe, afinal, que ninguém atrapalha investigações durante olimpíadas – algo a ver com o espírito da coisa – e que ninguém mais foi preso no Brasil nesses dias festivos.

Quando finalmente se decidiu cumprir o mandado de prisão, não sendo o homem encontrado em casa e descobrindo que estava no hospital, a polícia telefona ao homem cuja liberdade é um risco para avisá-lo que está a caminho para prendê-lo! Aprecio a civilidade da coisa, muitos procurados pela justiça adorariam receber igual cortesia, mas a lógica sofre um pouco.

Sabe-se então que a esposa está doente e nesse dia mesmo se submete a uma cirurgia. O mandado de prisão é revogado. Não sei se porque o temor era apenas que ele atrapalhasse as investigações entre as 7h e as 14h do dia 22 de setembro ou se é porque todos sabem que maridos de mulheres doentes não atrapalham investigações.

Remexendo, é verdade que o odor é forte, mas ele se faz acompanhar de um ridículo que quase faz sorrir, amargamente.

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