O capital financeiro não dialoga com o capital cultural, o que mostra que o crescimento da renda foi muito mais rápido que o do nível educacional e o da expansão do repertório

Foto: EBC

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Nos últimos anos o Brasil
sofreu uma das mais profundas mudanças da sua história. Milhões de pessoas ascenderam economicamente e passaram a ter acesso a bens e serviços antes exclusivos da elite. Diante desse novo cenário, o consumidor amadureceu e se transformou. Na última década, mais de dez milhões de mulheres entraram no mercado de trabalho, 53 milhões de pessoas passaram a ter acesso à internet, 50 milhões de contas bancárias foram abertas e o País ganhou dez milhões de universitários.

Para entender essa gangorra social que o País viveu no decorrer dos últimos anos, o Instituto Locomotiva traçou um perfil apurado do bolso e da cabeça dos 25% mais ricos da população brasileira. Eles cresceram, basicamente, por conta do empreendedorismo. O processo de democratização do consumo exigiu a criação de uma nova classe empresarial. É o dono de padaria do bairro que ficou rico por causa do aumento de seu público consumidor. É o dono do mercadinho do bairro, o empreendedor que comercializa água ou até mesmo o dono de uma distribuidora de gás.

Hoje temos um número gigantesco de pessoas que têm bolso de classe A e cabeça de classe C. E essa camada de brasileiros mais endinheirados movimentou R$ 2,2 trilhões em 2015. É o maior mercado consumidor em volume de dinheiro. Porém, o capital financeiro não dialoga com o capital cultural, já que 2/3 não têm curso superior. Isso mostra que o crescimento da renda foi muito mais rápido que o do nível educacional e o da expansão do repertório. Sete em cada dez estudaram em escola pública e 53% dos 25% mais ricos fazem parte da primeira geração de ricos da família.

O bolso também não explica a vida financeira. Eles têm renda para serem clientes premium dos bancos, mas seis em cada dez afirmam comprar fiado e metade nunca usou o serviço bankline. O bolso também não explica os hábitos e o comportamento dessas pessoas. No estudo, 63% da camada mais rica da população brasileira disse que andou de transporte público no último mês. Isso não significa que ela não tenha carro. Significa que o transporte público é um valor e que boa parte mora em regiões periféricas, afastadas dos grandes centros urbanos. Fica claro que essa nova elite econômica está pulverizada geograficamente em várias partes do País. Apesar de muitos morarem nas áreas centrais das principais regiões metropolitanas, temos nos municípios do interior e nos estados com vocação agrícola uma grande concentração de novos-ricos.

A elite brasileira de hoje é mais heterogênea, rompendo assim velhos estereótipos e conceitos de classificação econômica que não se aplicam mais nos dias atuais. Não podemos ver somente a fotografia atual, de um determinado momento. Devemos ver o filme de antes, de agora e para onde o brasileiro vai. Não podemos mais acreditar em um modelo estático ultrapassado. 

*Renato Meirelles é presidente do Instituto Locomotiva, fundador do Data Popular e do Data Favela

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