Uma análise dos objetivos e desafios de um projeto artístico dentro de uma ocupação, que é parte de um movimento social de luta por habitação



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No contexto político e social
em que que vivemos hoje, o compromisso presente em nossas práticas artísticas e na produção de cultura pode se converter em uma alternativa para a resistência. Walter Benjamin (1) restabelece a função social do artista e, dessa forma, “ganha o intelectual para a causa operária”, ao propor um trabalho coletivo, no qual haja participantes e não espectadores. Sob esse prisma, trata-se de operar e não de representar.

No antigo Hotel Cambridge está se desenvolvendo uma das experiências mais recentes de inserção da atividade artística dentro de um contexto de luta ativa. O encontro entre seus agentes – os moradores da ocupação, a equipe curatorial, os artistas e colaboradores – está compondo um campo de coalisão que projeta a pergunta: quais são as expectativas que criam e qual a sua capacidade de reverberação para além de suas paredes?

Arte e o MSTC na Ocupação Hotel Cambridge 

 O MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) luta pelo direito a uma moradia digna no centro da cidade, onde já há serviços sociais, de educação e cultura. No dia 23 de novembro de 2012, o movimento ocupou o Hotel Cambridge, iniciando um primeiro processo de posse e limpeza. O espaço agora conta com 119 apartamentos com famílias de brasileiros, imigrantes e refugiados de países como Bolívia, Haiti, Palestina, Camarões e República Dominicana.

Além da manutenção da ocupação, a criação de laços é prioritária, por isso a existência de espaços culturais coletivos. Nas palavras de Carmem Ferreira da Silva, coordenadora do MSTC, “a cultura cria comunidade, em seu fluxo entrelaça e alcança todas as camadas”. Houve um ponto de inflexão há dois anos durante a filmagem de Era o Hotel Cambridge, de Eliana Caffé. Do lado de dentro do movimento, já se estava acostumado a um uso interessado e de curto prazo por parte das propostas culturais. Do lado de fora, houve uma mudança de percepção em relação à marginalidade dos movimentos de ocupação. Os coletivos de atividades formados durante a filmagem se multiplicaram, e de suas atividades surgiram uma biblioteca, uma horta e outras iniciativas, inclusive a Residência Artística Cambridge.

Residência artística Cambridge

Os curadores Juliana Caffé e Yudi Raphael já haviam trabalhado sobre e com movimentos migratórios. Em janeiro de 2016, quando surgiu a possibilidade de começar um projeto dentro da ocupação Cambridge, a pergunta era “como trabalhar neste contexto?”. Para isso, eles estão tentando reformular a prática curatorial e artística através da experimentação, retomando a problematização acerca da questão expositiva que surge nos anos 90, especialmente as teorias da psicanálise na cidade ou os modos de estética relacional (2), através da visão crítica de Claire Bishop (3): não teria sentido um laboratório de microutopias se ele acontece dentro do espaço institucional. Não é uma “ocupação dentro da ocupação”, por isso seu nome oficial é Residência Artística Cambridge.

Nela são unidos seus pressupostos de trabalho horizontal e orgânico com os interesses culturais do MSTC, dos habitantes, com uma porcentagem significativa de refugiados e outros imigrantes, dos artistas e colaboradores. No momento, o projeto conta com o apoio do MSTC, além de MSTC-Projetech, da Lanchonete.org, das edições Aurora/Publication Studio São Paulo e da Dulcinea Catadora. O capital cognitivo da rede, de colaboradores de dentro ou fora da ocupação, é considerado imprescindível, pois é a partir dele que as ações são viabilizadas. Os eixos de trabalho se concentram em criar relações com o entorno e legitimar o uso do espaço. Dessa forma, se busca criar um campo reflexivo apontando para questões que não podem ser subestimadas: quem e como ganha visibilidade com esse projeto e sua viabilidade. “Ativismo é fazer e também pensar em como fazer”, afirmam os curadores.

As atividades tiveram início em março de 2016, com o primeiro artista residente, Ícaro Lira, e terão continuidade até janeiro de 2017 com outros residentes: Jaime Lauriano e Raphael Escobar, Virginia de Medeiros e o escritor Julián Fuks. Cada um deles permanecerá um período de três a cinco meses no espaço. As experiências realizadas serão registradas em uma publicação final. Os curadores destacam a exigência de uma negociação contínua nesse desejo de horizontalidade. É necessário um esforço permanente de reconfiguração dos papéis para dar sustento real ao projeto. Eles não esperam criar conexões através de uma cultura do evento ou da obra material, mas priorizar sua função de catalizadores dentro da ocupação, dando-se e dando voz a todos. Para isso, Lira tem articulado diversas táticas que se estendem para os seguintes residentes: criação de trabalhos colaborativos; o uso das áreas comuns como lugar de trabalho; formação da rede de interlocução com a comunidade; pensando sempre na duração das iniciativas para além do período de residência. A partir da própria comunidade surgiram várias iniciativas que se têm articulado através da atuação de Ícaro Lira: a organização de clínicas para terapias de grupo, a potencialização do cineclube já existente e o censo audiovisual de moradores com a colaboração de Isadora Brant e Fernanda Taddei.

Ícaro Lira: Trajetória de desmaterialização

Ícaro Lira (1986, Fortaleza, CE) ocupou o espaço entre os meses de março e julho. Ele define seu papel como o de agente para a ativação de ideias e ações de maneira transversal, pensando o que é ser artista nesse contexto, qual poderia ser seu trabalho e que retorno existiria. Desde o primeiro momento estava certo de que não iria produzir “obras” e que iria basear sua prática nessa ação artística como capital social. Dessa forma, ele se concentrou na criação de redes, sejam elas internas, com a consolidação de relações pessoais com os moradores, sejam externas, com a abertura de canais para refletir sobre as conjunturas que rodeiam os fenômenos de migração e ocupação. Suas exposições se formalizavam como grandes e heterogêneos arquivos mutáveis acompanhados de encontros para a atualização das histórias. Nessa ocasião, Lira deixa de lado a produção material para concentrar-se em um “trabalhar juntos”. Ele retoma o que Lygia Clark, Oiticica e a cena carioca já definiam como um “novo comportamento perceptivo” de mistura, numa estratégia emancipadora e de empoderamento através do reconhecimento de identidades plurais. Dentro de sua metodologia, existem sempre cadernos. Neles foram registradas as informações sobre diversas histórias esquecidas no Brasil, atualizadas com uma contínua correspondência com os acontecimentos contemporâneos. Esses fatos atuais são herdeiros dessas narrativas afastadas e são surpreendentemente semelhantes. Em todos eles, a figura do trabalhador e do imigrante são centrais. O caderno que leva agora, de capa de couro negro com o rótulo “Ocupação Cambridge”, recolhe as palavras-chave das ideias sobre temas, públicos e ações. Pela biblioteca já passaram Raquel Rolnik, Peter Pál Pelbart, Luiz Kohara, Ligia Nobre, Alex Flynn, Beto Brant e Camila Márdila. Foram projetados filmes no que Lira chama de “sessões nômades rotativas” – como a seleção de Leon Hirszman que eu tive a sorte de mediar –; foram realizadas oficinas de edição com Dulcinea Catadora e Aurora; e feitas caminhadas pela São Paulo migrante e ocupada. E ainda mais. Lira tem projetado encontros com o movimento Ocupação Preta Funarte do grupo GAPP, e sessões de cinema palestino, haitiano e africano. Existem ainda outras atividades, como o censo já citado, aulas de idioma e ainda o esforço para ativar a biblioteca com sessões de leitura. Nesse contexto, não é casual a deriva de Lira para a desmaterialização da ação artística também como ato de resistência. Não é uma casualidade que o último evento da lista, no final de julho, tenha como tema “o artista como agente gentrificador”.

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Reflexão: sonhos e expectativas

 Alex Flynn é um dos colaboradores que chegaram ao Cambridge pela rede gerada por Lira. Antropólogo inglês, desenvolve pesquisa sobre arte contemporânea, política e mobilização social, e ressalta a “complexidade do projeto, do ponto de vista interno e externo. É ponto de encontro de várias lógicas de participação: a antropológica, a artística, a das redes de movimentos sociais”. E tudo isso num espaço que define como “contestado”: “Tudo está sempre em jogo, é mutável, o que significa um desafio e uma oportunidade”.

Ainda sem um programa de atuação definido, os próximos residentes, Jaime Lauriano e Raphael Escobar, acreditam, assim como Lira, na formação de uma atuação em contexto. Trabalharão centrados na rede de moradores e ao mesmo tempo rastrearão iniciativas anteriores. Sabem que não são os primeiros, tendo como referente a ocupação do edifício Prestes Maia entre 2003 e 2006. Na revisão de André Luiz Mesquita (4) se questionam quais foram os verdadeiros interesses de cada uma das partes envolvidas – entre a necessidade de legitimação do movimento na imprensa e a busca dos artistas por um espaço alternativo –, assim como a compreensão real das necessidades do outro. Marcio Harum, curador de artes visuais do Centro Cultural São Paulo, se aproximou da ocupação Cambridge graças ao seu interesse pela programação agenciada por Lira. Aí ele achou “um ponto de encontro entre as classes artística e cultural brasileira e de outras nacionalidades, que não acontece em nenhum outro lugar de São Paulo. É um público elástico”. O projeto responde ao contexto político atual e suas realidades sociais, no qual a sociedade paulistana parece estar saindo de uma anestesia para aumentar sua participação colaborativa.

São vários os desafios que podem ser identificados e que estão sendo confrontados na Residência Artística Cambridge: num primeiro lugar, a formação de uma comunidade que – mesmo heterogênea, e é um dos valores que ressaltam Caffé e Raphael – só existe por uma primeira coesão em sua luta pela moradia digna, mas não necessariamente em seus objetivos, interesses e concepção de modos de vida. Para isso, como aponta Isam Ahmad Issa, refugiado palestino que vive na ocupação, é necessário um entendimento global do que significa um ato de resistência na atual situação política e econômica. Seria o primeiro passo para um pensamento livre e não atado somente ao medo de não poder cobrir as necessidades básicas. Por outro lado, é preciso pensar a construção consciente da visibilidade das ações e a possibilidade, ou não, de uma reverberação para além dos limites do puramente artístico. Ecoando uma preocupação do Situacionismo, o projeto deve ser um elemento ativador em compromisso com o contexto, e não somente preocupado com este a partir da esfera do simbólico. É esse o modo proposto por essa rede de pessoas ligadas à Residência Artística Cambridge: moradores, artistas e curadores. A partir da prática artística colaborativa, buscam juntos como pensar num território onde seja possível compartilhar o sensível e reimaginar modos de produzir tensões e alternativas através de práticas transdisciplinares que se potencializem entre elas. Seria então uma oportunidade de despertar a capacidade de pensamento crítico, sendo a arte o catalisador em união com outras áreas do conhecimento.

 

(1) Walter Benjamin, L’Auteur Comme Producteur, Paris, 1934. (2) Nicolas Bourriaud, L’esthétique Relationnelle, Dijon, 1998. (3) Claire Bishop, “Antagonism and Relational Aesthetics”, Outubro, Nova York, 2004. (4) André Luiz Mesquita, Insurgências Poéticas. Arte Ativista e Ação Coletiva (1990-2000), São Paulo, 2008. (www.espiral.fau.usp.br/arquivos-artigos/2008-dissertacao_Andre_Mesquita.pdf)

 

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