Apenas o combate domiciliar ao mosquito Aedes Aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya, não será suficiente para conter o número de casos, que voltarão a crescer nos meses de calor

Temos sido bombardeados por informações, muitas vezes desencontradas, sobre diferentes métodos para combater a presença do mosquito Aedes aegypti nas nossas cidades. Especial ênfase vem sendo dada ao combate domiciliar desse vetor, com destaque para informações sobre como evitar a eclosão de larvas dos mosquitos presentes nos vasinhos de plantas dentro das casas e apartamentos.  Considero essa atitude uma forma de nos desviarmos de uma abordagem mais objetiva do problema.

Entendo que uma abordagem histórica pode nos ajudar a entender o que estamos vivendo atualmente, considerando que temos convivido com epidemias de dengue no Brasil desde 1986. Nos últimos anos, elas foram agravadas  pela chegada das febres chikungunya e zika, o que piorou uma situação por por si só muito grave. 

Os primeiros relatos de grandes de grandes epidemias de doenças que em muito se assemelhavam à dengue ocorreram em três continentes: Ásia, África e América do Norte; os anos foram os de 1779 e 1780. A partir de então, inúmeras epidemias de dengue foram descritas em várias partes do mundo. A  grande maioria delas, descritas antes de 1945, ocorreu antes da disponibilização de recursos laboratoriais que pudessem confirmar a suspeita diagnóstica. Mesmo assim, algumas características puderam ser estabelecidas: 1) Epidemias de menor monta de doença dengue-simile se moviam através de países de uma mesma região geográfica; 2) A essas epidemias se sucediam epidemias de maior monta, que se desenvolviam em outras regiões.

Quais teriam sido as condições que consubstanciaram as grandes pandemias de dengue relatadas durante os séculos XVIII, XIX e início do século XX? Trata-se de uma época marcada pelo desenvolvimento da indústria naval e pelo incremento do tráfego oceânico, o que levou também à grande urbanização das cidades portuárias. À medida que o Aedes aegypti evoluiu e se adaptou muito bem aos  habitats dos seres humanos, alimentando-se preferencialmente neles e compartilhando nossos domicílios, a espécie se tornou um vetor extremamente eficiente do vírus da dengue, inicialmente introduzido, justamente, nas cidades portuárias. 

Seguramente, é possível afirmar que a presença das arboviroses em nossas grandes cidades é produto da urbanização caótica que vem sendo verificada nas últimas décadas. Os números mostram que na década de 1960, por exemplomais de metade da população brasileira residia em zonas rurais. Porém em 2010,  84,4% da população passaram a viver em regiões urbanas. Essa inversão se deu sem que a necessária infraestrutura de saneamento básico requerida fosse implementada. 

Fonte: IBGE. Censo 2010 (Folha de São Paulo,30/04/2011)

Fonte: IBGE. Censo 2010 (Folha de São Paulo,30/04/2011)

A falta no abastecimento de água e de coleta de lixo está relacionada ao alto número de casos de arboviroses nas cidades

A situação atual e preocupante das arboviroses (grupo ao qual pertencem as infecções dengue, a zika e a chikungunya) no Brasil reflete um complexo contexto no qual interagem a ineficácia de atuação do poder público e da sociedade em geral. É um ciclo que precisa ser interrompido. Precisamos avançar na busca de soluções reais para essa epidemia e também manter planos de combates eficientes contra a febre amarela, cuja transmissão igualmente ocorre pelo mosquito Aedes aegyti. O risco de migração em massa dessa doença para o ambiente urbano não deve ser descartado, principalmente porque já houve constatações de casos esporádicos de febre amarela em centros urbanos brasileiros.

Não é um cenário promissor. E ele se fica ainda mais preocupante se considerarmos a presença de  fatores que dificultam, pelo menos em curto prazo, a proposição de ações visando a erradicação do vetor transmissor. Entre eles, a acelerada expansão da indústria de materiais não biodegradáveis e a existência de condições climáticas favoráveis agravadas pelo aquecimento global. 

Some-se a esse panorama sombrio o modelo de urbanização implementado em nosso país, assim como em muitas outras cidades que compõem essas sociedades do “capitalismo periférico”: redução progressiva das áreas verdes das cidades à custa de empreendimentos imobiliários que tentam imitar o que se verifica nos países capitalistas “centrais”, empreendimentos estes situados em locais onde não há a menor infraestrutura de saneamento básico que os comporte. Também por esse motivo, nossas cidades estão cada vez mais impermeabilizadas: quando chove, não há onde a água ser drenada, constituindo-se no drama frequente das enchentes nas nossas grandes cidades.

Dentro desse panorama, onde se situaria a ênfase no combate domiciliar ao mosquito? Em minha opinião, serve apenas para que retardemos o debate sobre a importância do saneamento básico no controle e possível futura erradicação do vetor.

Creio, portanto, que dengue, chikungunya e zika estão intimamente correlacionadas à problemática do saneamento básico. Encaremos isso de frente, não escamoteando a realidade através da valorização dos vasinhos de plantas presentes nas casas das pessoas.

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