Segundo o diretor artístico do evento, Marcos Gallon, foram selecionados trabalhos que “refletem o que está acontecendo nas ruas de todo o mundo”

"Nada Quase Nada" (2015), Dias & Riedweg. Foto: Divulgação

“Nada Quase Nada” (2015), Dias & Riedweg. Foto: Divulgação


Em um protesto contra o impeachment, uma turma de jovens deita em frente ao Congresso Nacional, coberta com a Constituição Federal. A ação é citada pelo
curador Marcos Gallon como uma manifestação cuja estratégia cênica salta aos olhos: distribuição espacial, crítica política, figurino, tudo está ali. A partir de ações deste tipo, como selecionar obras de arte que dialoguem com a situação política atual? Esse foi o dilema enfrentado por Gallon para conceber a 12ª edição da mostra de arte e performance VERBO, que acontece de 26 a 29/7, na Galeria Vermelho.

Idealizada em 2005, a VERBO foi criada com o propósito de divulgar a performance, sendo um espaço experimental de encontro entre artistas brasileiros e internacionais.  Nesta mesma época, surgiram, ao redor do mundo, diversas iniciativas de investigação da expressão corporal, como a PERFORMA, criada por Rose Lee Goldberg,  e a mostra Seven Easy Pieces, de Marina Abramovic, no Guggenheim, ambas em de Nova York. Aqui no Brasil, a VERBO assumiu, ao longo dos anos, diversos formatos, com programações concentradas em alguns dias até exposições regulares.

Nesta edição, o evento será concentrado em quatro dias nos quais artistas, como Akira Shiroma, Ana Montenegro e Lia Chaia, apresentarão suas performances. Em paralelo, também haverá a mostra de vídeos Screening & Live Action: French Scene/VERBO 2016, organizada pela curadora francesa Agnès Violeau, a partir de obras de dois acervos franceses: o Centre National dês Arts Plastiques , composto por trabalhos de videoarte,  e o Centre National de La Danse, que guarda obras de dança criadas especialmente para a linguagem do vídeo. Assim como nas edições anteriores, não houve um recorte curatorial pré-definido para o evento. Abriu-se um edital e, a partir das obras selecionadas, definiram-se quais seriam as temáticas abordadas.


 

Segundo Gallon, neste ano foram inscritos mais de 180 projetos, sendo uma seleção muito árdua “por conta de tudo que está acontecendo nas ruas do mundo todo”.  Mesmo com essa dificuldade, ele aponta similaridades entre os trabalhos: “ O que pudemos  identificar é que vários projetos utilizam a estratégia do“não fazer”, do“não movimento”. Os artistas se recusam a  produzir como uma estratégia política, uma forma de questionamento”, afirma. Gallon cita o personagem icônico de Herman Melville, o escrivão Bartleby que, ao receber um pedido de seu chefe, responde com um desconcertante “prefiro não fazer”.

Essa recusa em criar aparece na performance O artista sem obras: uma visita guiada no nada, da espanhola Dora Garcia.  Trata-se de uma visita guiada pela exposição de um artista que se recusa a produzir qualquer coisa. A falta de materialidade também aparece em Centro de Pesquisa de Ideologia de Imagens, obra de Maurício Iânes que não tem nenhum produto final, sendo um diálogo que o artista estabelece com o observador a respeito do conceito de História.

O trabalho de Iânes já estava na exposição anterior, Coletiva, que ficou em cartaz na galeria até 16/07. A mostra também reuniu obras de artistas, como Marilá Dardot e Claria Ianni, que refletiam sobre a conjuntura política brasileira. A VERBO, dessa forma, continua a reflexão sobre a política contemporânea, com performances como Fuzilamento, na qual o artista Marcelo Cidade lê um texto com um nome de diversas revoluções, enquanto é  bombardeado por cimento atirado pelo público. Ou The Imbecil, de Fabio Morais, que questiona a manipulação midiática. Nesse esforço de trazer obras politizadas, a VERBO chama atenção para a possibilidade de a performance criar novas formas de convivência, evidenciando aquilo que passa desapercebido, no que o filósofo Marcos Nobre chamou, em artigo recente, de “normalização do caos”.

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