Em texto autoral, o artista carioca Gustavo Speridião apresenta sua produção


Gustavo Speridião
não existe, propriamente falando. Quem nos disse foi O Bípede, um dos personagens inventados por mim para me poupar o esforço e o incômodo de viver. E para me poupar o esforço de explicar para mim mesmo o mundo confuso e nebuloso tal qual se apresenta no início do século vinte e um, inventei a série “Como me Tornei Bípede ou Os Problemas Políticos de Ser Bípede”, que busca explicar como me tornei Bípede ou quais são os problemas políticos de ser Bípede. Esta explicação nunca existiu, propriamente falando, e nunca poderá existir. O que temos nesta série não são livros, mas a sua subversão e negação, o livro em potência, o livro em plena ruína, o livro-sonho, o livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura. O que temos nestas páginas é a dupla relação entre personagem-narrador na sua nudez máxima. A falta de um centro, a relativização de tudo (inclusive da própria noção de “relativo”), o mundo todo reduzido a fragmentos que não fazem um verdadeiro todo, apenas imagem sobre imagem sobre texto sobre papel sem nenhum significado e quase sem nexo e também de duplos significados e infinitas conexões – todo esse sonho ou pesadelo pós-modernista não foi, para mim, um grandioso (no sentido quantitativo) discurso aleatório. Foi a minha íntima experiência racional e tênue realidade ficcional. E este livro-diário de um Bípede foi meu testemunho, lucidíssimo: 25 anos em frente ao porto. Nunca parti. Estas ruínas de livros se sustentam principalmente em duas posturas desiguais e combinadas de ver aquilo que abstratamente todos chamam de vida: Ironia e Existencialismo.  Este tipo de ironia existencial pode ser sintetizado – para melhor esclarecer – na seguinte frase: “Não se pode comer o bolo sem o perder”. Esta frase de Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, contém em si toda a potência da ironia e toda aquela angústia existencial que se costuma sentir no centro da cidade domingo de tarde, ou contemplando uma tigela vazia. Estes livros-sonho – assim como os sonhos – são autoexplicativos em diversas passagens (caráter didático), sendo isso mais um elemento contraditório dos livros.A fragmentação é o ritmo do trabalho. A este respeito, o da fragmentação permanente, eu e o Bípede ficamos sempre fiéis aos nossos princípios. Se faço o papel de dezenas de autores diferentes que se contradizem uns aos outros, e mesmo a si próprios, o Bípede também foi um multiplicar-se constante, podendo dizer que temos Doze Bípedes,todos incertos e vacilantes, todos contraditórios entre si. O Bípede nasceu, capturou a nuvem e depois disso, desempregado e sem enredo ou plano para cumprir, viu seus horizontes se alargando, os seus confins ficarem cada vez mais incertos, a sua existência enquanto personagem cada vez menos viável. Está aí, nesse “limbo” a explicação para o começo de um romance.O romance de um fracasso.O Bípede, o narrador principal, mas não exclusivo dos Quatorze livros, era tão próximo de mim que não podia considerar-se um semiheterônimo autônomo. “É um ‘semiheterónimo’ melhor dizendo, porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela.” Disse eu mesmo. Não há dúvida de que muitas das reflexões estéticas e existenciais do Bípede fariam parte de uma autobiografia, se tivesse escrito uma, mas não devemos confundir a criatura com o seu criador. O Bípede não é uma réplica minha, nem sequer em miniatura, mas sou eu mutilado, com elementos em falta. (Se o Bípede utilizar o mesmo argumento, a sentença deve ser considerada verdadeira.) 

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