Fotografia, colagem, fotomontagem e design gráfico usados por artistas históricos e contemporâneos como forma de crítica, conscientização e esclarecimento

 

Foi no meio da Primeira Guerra Mundial, mais precisamente em 1916, que um grupo de artistas, exilados na Suíça, criou um movimento que romperia com os cânones de arte vigentes até o período. Nasceria ali, num bar, segundo a lenda, o movimento que ficou conhecido como Dadaísmo. Foram eles – queriam ser chamados de engenheiros e não de artistas – que criaram de forma efetiva a fotomontagem, a fotocolagem. Entre esses artistas destaca-se John Heartfield (1891-1968). Por meio de suas montagens, voltou-se de forma contundente contra o nazismo. Com ele, a arte e a imagem se assumiam políticas. Para isso, durante oito anos, até 1938, produziu 237 obras para o AIZ (Arbeiter Illustrierte Zeitung), jornal do Partido Comunista Alemão. Por meio da metáfora imagética, se tornou um crítico agudo do discurso dominante da mídia da época, pois suas imagens nos fornecem uma leitura crítica da sociedade e da informação veiculada pelos jornais da Alemanha nazista.

No exato momento em que as artes visuais se rendem aos meios de comunicação de massa, as revistas ilustradas explodem, especialmente na Alemanha, privilegiando o uso da imagem como informação e não ilustração. A fotomontagem contribuiria, dessa maneira, para criar uma nova forma perceptiva, já trazida por outros movimentos, como as colagens cubistas ou futuristas do início do século XX. Além disso, a rápida produtividade e a propagação das mensagens dos cartazes e das fotomontagens fascinam esses novos artistas voltados para a contemporaneidade do movimento, da rapidez e do cinema. A arte se torna e se assume midiática. O próprio Heartfield, influenciado por pintores como Francisco de Goya, Pablo Picasso e pelo caricaturista do século XIX Honoré Daumier, tornou-se designer gráfico e cenógrafo. Seu trabalho é muitas vezes comparado ao de artistas soviéticos, como El Lissitsky e Aleksander Rodtchenko, ou de artistas como o dadaísta-surrealista Man Ray e o húngaro pertencente à Bauhaus Moholy-Nagy. Até mesmo o filósofo Walter Benjamin, criador do conceito de imagens dialéticas – a imagem entendida como índice histórico que nos narra determinada época e que só pode ser vista e analisada a partir da compreensão do tempo em que ela foi realizada –, se interessou em analisar as obras de Heartfield. No Brasil, em 2013, 50 de suas fotomontagens puderam ser vistas numa exposição organizada pelo Museu Lasar Segall. No catálogo da mostra, a professora Annateresa Fabris, pesquisadora que mais escreveu e estudou as fotomontagens dadaístas e a obra de Heartfield no País, nos lembra que, “artista profundamente engajado na realidade social, ele é figura determinante das vanguardas históricas, desenvolvendo normas práticas e artísticas, criando uma arte realista e crítica, uma expressão genuinamente política, a serviço da conscientização e do esclarecimento, sem resvalar no esquematismo e, pior ainda, numa ilustração meramente panfletária”. A obra de Heartfield é, portanto, a imagem vista como conhecimento, como história, como vetor de discussão política.

SLOGANS E COLAGENS

Cartazes de Barbara Kruger.

Cartazes de Barbara Kruger.

 

Cerca de 30 anos depois, nos EUA, a artista Barbara Kruger também criou obras gráficas que contestavam a sociedade na qual vivia. Kruger ficou conhecida por suas colagens, nas quais sobrepõe frases e slogans publicitários encontrados em revistas a fotografias em preto e branco (como as imagens acima). Foi por muito tempo catalogada como artista conceitual, ou feminista pós-moderna – etiquetas que críticos e acadêmicos adoram criar para tentar explicar ou entender expressões artísticas –, mas talvez ela seja muito mais uma provocadora e crítica do mainstream, daquilo que os filósofos alemães da Escola de Frankfurt chamaram de indústria cultural – quando tudo que é produzido culturalmente acaba sendo consumido como mercadoria, situação da arte numa sociedade industrial e capitalista.

Kruger estudou design e fotografia nos anos 1960, na escola Parson of Design, em Nova York. Foi aluna da famosa fotógrafa Diane Arbus (1923-1971), conhecida por suas fotografias de personagens que os americanos da época consideravam à margem da sociedade. De início ela atuou como designer e diretora de arte para revistas femininas da editora Conde Nast. Em seguida, atuou na revista House e Garden, que lhe deu as bases para se voltar para  a arte e trabalhar conjuntamente design e fotografia. Embora Kruger combinasse imagens que ela fotografava com slogans publicitários que recortava das revistas para as quais trabalhou, sua marca registrada passou a ser a força das legendas que criava para as imagens, em que falava dos problemas da contemporaneidade, do consumismo e da exibição midiática excessiva. À primeira vista seus trabalhos até parecem cartazes de rua, mas neles é a palavra que se torna mais contundente do que a imagem – inclusive quando inseridos nos espaços públicos, como parques e estações de metrô. A pesquisadora de estética mexicana Laura Flores, em seu livro Fotografia e Pintura, nos recorda a maneira como a própria Kruger fala de seu trabalho ao considerar um receptor como um mero consumidor de algo que já foi pré-digerido para ele. Para Flores, “a abordagem de representação se relaciona mais com uma estratégia de apropriação e reciclagem do que com uma verdadeira criação”, como em quase todas as colagens e fotomontagens. O interessante,  entretanto, é observar que tanto John Heartfield como Barbara Kruger utilizam o cartaz, a colagem e a montagem com um viés político. Se o primeiro de forma mais partidária, a segunda como crítica da sociedade de massa.

NOS DIAS ATUAIS

No momento conturbado do Brasil – do ponto de vista político, ético e econômico –, o cartaz é retomado como forma de protesto. Com o intuito de articular os profissionais da área contrários ao processo de impeachment, diversos artistas criaram o grupo Artes Visuais pela Democracia, que produziu 188 cartazes para as manifestações de 31 de março.Assim como Heartfield e Kruger, esses artistas se apropriam da linguagem dos meios de comunicação de massa para  transmitir uma mensagem de contestação. No caso, há ainda o uso das redes sociais como forma de mobilização e de divulgação do trabalho, com a hashtag #ArtePelaDemocracia. Os cartazes estarão em exposição, a partir de 13 de maio, no Centro Cultural São Paulo.  As obras também foram incorporadas ao acervo do MAR (Museu de Arte do Rio). Veja os 188 cartazes no site da ARTE!Brasileiros: http://brasileiros.com.br/JquDr

 

Link curto: http://brasileiros.com.br/Bu0hN
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