Ao longo de oito dias, mais de 70 artistas somam forças contra o que consideram um retrocesso. Evento intensifica resistência no fim de semana de votação do processo

O grupo Aláfia se apresenta no música pela democracia. Foto: Pedro Galiza / Reprodução Facebook

O grupo Aláfia se apresenta no Música Pela Democracia. Foto: Pedro Galiza / Divulgação Música Pela Democracia

Desde o último domingo (10), o Largo da Batata, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, tem sido palco do festival Música Pela Democracia. O evento, que será encerrado no próximo domingo (17), dia da votação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff na Câmera dos Deputados, tem grade diária variável de 8 a 12 horas e reúne apresentações de mais de 70 artistas.

Sem a defesa explícita de Dilma, mas idealizado a partir do consenso de que o processo de impedimento de seu mandato fere o Estado Democrático de Direito, o festival foi criado pelos grupos Coletivo Arrua e Produtores SP, em parceria com Audiovisual Pela Democracia SP, Arte Pela Democracia, Recheio Digital, Via TV, MTST e Coletivo A Batata Precisa de Você, com apoio da Frente Brasil Popular, Povo Sem Medo, Hostel Garoa e Bar Tiquim.

Entre os artistas que aderiram ao Música Pela Democracia, estão representantes de diversas regiões do País, como Anelis Assumpção, Chico César, Tulipa Ruiz, Lucas Santtana, Meno Del Picchia, BNegão, Maurício Pereira, Curumin, Saulo Duarte e a Unidade, Rafael Castro, Bixiga 70, Bárbara Eugênia, Tiê, Márcia Castro, Edgard Scandurra e Silvia Tape, Guizado, Naná Rizzini, Felipe Cordeiro, Banda Eddie, Aláfia, Rashid, Lirinha, Guilherme Kastrup, DJ Craca e MC Dani Nega e o rapper Black Alien, que apresentou-se na última terça-feira (13) ao lado de KL Jay, DJ do Racionais MCs.

Além dos shows, o evento também oferece atrações de dança, discotecagens, nos intervalos das apresentações, oficinas, picnics e debates, como o que reuniu a cantora Anelis Assumpção, a atriz Letícia Sabatella, os jornalistas Juca Kfouri e Leonardo Sakamoto e Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

O ódio, a intolerância, o preconceito e o golpismo não nos representam. Queremos uma democracia com mais amor e pluralidade. Nossa luta é pela defesa dos direitos de ir e vir, de livre expressão, de livre manifestação, de livre organização; pelo direito à diferença e à pluralidade; pelo direito à cidade e à participação, contra todas as formas de racismo, machismo, xenofobia, contra todas as formas de opressão e preconceito”, diz o comunicado divulgado no lançamento do festival que, em paralelo à sua realização, também deu início ao Ocupa a Democracia, ação inspirada nos movimentos mundiais que tiveram início com a Primavera Árabe e tornaram-se notórios após o Occupy Wall Street. “Das muitas mobilizações e revoltas que estouraram no mundo a partir de 2011, nasceu uma grande manifestação mundial por uma Democracia Real. Agora é a nossa vez! A democracia no Brasil ainda é muito jovem e precisa amadurecer”, afirmam os organizadores.

Para o compositor e poeta pernambucano Lirinha, por trás da ofensiva oposicionista há o interesse oligárquico de estancar os avanços sociais e democráticos da última década. “Estou vindo do sertão, da beira do rio São Francisco, passando por esse momento dos mais difíceis e o que sinto é a caminhada em uma vereda de injustiças baseada em devolver o poder para grupos que sempre oprimiram a força dessa nação. Por trás da raiva de um partido político, por trás do ódio a um ex-presidente também está o ódio às conquistas das liberdades, a raiva dos movimentos de periferia, dos movimentos negros e certo asco pela discussão da diversidade sexual, da diversidade intelectual e musical. Sinto que o momento é muito delicado, que é preciso força para passar dele e saber que algumas coisas, que nos deixarão tristes, acontecerão, mas por esse amor ao País vamos seguir em frente, denunciando o golpe que está sendo engendrado, articulado nas altas torres, nas coberturas de nosso querido Brasil”, disse Lirinha em entrevista ao coletivo de mídia independente Jornalistas Livres, antes de se apresentar no Largo da Batata na noite de ontem (14).

Produtor de dezenas de trabalhos fonográficos, entre eles o celebrado A Mulher do Fim do Mundo, mais recente álbum da cantora Elza Soares, o percussionista Guilherme Kastrup observa interesses manipulados por atores que estão além das fronteiras do País. “Esse golpe tem exatamente a mesma estrutura do de 1964. Um consórcio que se reuniu para derrubar um governo de centro-esquerda formado pela elite conservadora brasileira e os cabeças do poderio econômico aliados à grande mídia, encabeçados pela Rede Globo. Provavelmente apoiados também pelo dinheiro e interesses norte-americanos, promoveram uma gigantesca campanha de marketing de ódio, pra gerar a ideia de que a culpa por toda a corrupção é do atual governo e do PT. Aprofundaram a crise propositadamente e dividiram o país em dois. Esse impeachement, se vier a acontecer, sem base legal, será uma ruptura tão grande das instituições, que será impossível governar sem uma intensa repressão. E, me parece, que isso é tudo o que o senhor Eduardo Cunha e seus comparsas mais desejam. Uma ditadura fundamentalista religiosa”, diz Kastrup.  

Na noite de ontem (14), a big-band paulistana Bixiga 70 encerrou as apresentações do quinto dia do festival Música Pela Democracia. Tecladista, guitarrista e um dos compositores do grupo, Maurício Fleury manifestou opinião análoga à de Lirinha. “É triste termos que lutar contra o retrocesso e não por um verdadeiro progresso, mas não dá pra ficar ao lado de corruptos que têm como intenção revogar direitos adquiridos com muita luta e que ainda não estão nem perto do ideal de uma sociedade sadia. Estaremos do lado do povo sempre, independentemente de partidos ou instituições, acreditando apenas na liberdade, no respeito e na coletividade! Não vai ter golpe!”

Confira abaixo a programação desta sexta-feira. Para receber a atualização dos dois últimos dias do festival, siga a página do Música Pela Democracia no Facebook.  

14h - Luis Ferron e Dani Dini 

15h – Sandra Miyazawa 

16h – Penélope Cia de Teatro

17h – Vivendo do Ocio / GRUA (Gentleman de Rua) Cia J.Garcia (dança)

17h40 – Tata Aeroplano DJ SET

18h – Naná Rizinni

18h40 – Dj Set Tutu Moraes

19h – Aeromoças e Tenistas Russas

19h40 – Dej Set Samuca

20h – Renascentes / Sérgio Vaz + Binho

20h40 – Dej Set Samuca

21h – Tape & Scandurra (EST)

21h40 – Dej Set Samuca

22h – Jaloo

MAIS 

Veja videoclipe, lançado ontem (14), da música Golpe Não, composta de forma coletiva por Chico César, Coruja BC1, Luis Felipe Gama, Rico Dalasam, Vanessa, Drik Barbosa e LG Lopes. 

  

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