Em nova sede, a marca alemã de câmeras Leica permite ao visitante acompanhar o processo de manufatura de seus produtos, sonhos de consumo de amantes da fotografia, ou não

Na fábrica, máquina recebe o logo de letras brancas sobre fundo vermelho. Foto: Haus der Photographie/Leica

Na fábrica, máquina recebe o logo de letras brancas sobre fundo vermelho. Foto: Haus der Photographie/Leica

O que têm em comum o retrato mais icônico de Che Guevara, a clássica foto da criança nua, queimada por napalm durante a Guerra do Vietnã, e o registro do marinheiro beijando uma enfermeira na Times Square, no dia da capitulação do Japão diante dos EUA, em 1945? Todas essas imagens foram capturadas com câmeras da marca alemã Leica, que em 2014 completou 100 anos de existência. Os três respectivos fotógrafos – Alberto Korda, Nick Út (vencedor de um Pulitzer com a foto) e Alfred Eisenstaedt – juntam-se a nomes como Robert Kappa, Cartier Bresson, Robert Frank, René Burri e Sebastião Salgado, entre outros, na extensa lista de artistas que apreenderam o mundo pelas lentes da centenária máquina.

Em setembro do ano passado, a Brasileiros teve a oportunidade de visitar o Leitz-Park, misto de sede, fábrica e museu da Leica, inaugurado em 2014, em Wetzlar, cidade onde nasceu a marca, no estado de Hessen, na Alemanha. A viagem, feita a convite do Consulado da Alemanha em São Paulo, visava mostrar a um grupo de jornalistas estrangeiros um lado menos conhecido da musculosa produção industrial alemã: o handmade in Germany, a fabricação à mão de artefatos que vão das peças de louça fina da Königliche Porzellan-Manukfaktur, cuja história remete ao início do século 18, à moderna marca de óculos Mykita, ambas sediadas em Berlim.

Para a Leica, a manufatura revela sua força nos detalhes. Como no polimento das lentes, feito somente por mulheres, consideradas mais esmeradas que os homens. No Leitz-Park, é possível ver as funcionárias em ação. Mas não só isso. No foyer, há exposições temporárias de artistas que usam ou usaram Leica – quando a Brasileiros esteve lá, havia um recorte da mostra Augen Auf! (olhos abertos!), que celebrou os 100 anos da casa com 36 imagens clássicas feitas com a máquina, entre elas as já citadas. Também estava lá uma seleção de trabalhos de profissionais laureados com o prêmio de fotografia da marca, o Oskar Barnack Award, como o brasileiro Julio Bittencourt, vencedor em 2007.

Ainda na entrada, estão em exibição permanente diversos modelos da marca alemã, entre elas a chamada Ur-Leica (a Leica primordial), a primeira câmera no formato 35mm, criada em 1914 pelo engenheiro Oskar Barnack (1879-1936), então empregado da Leitz Werke Wetzlar, uma fabricante de equipamentos ópticos como microscópios e binóculos.

Em seguida, em cada uma das quatro estações da linha de produção “transparente” do Leitz-Park, os vidros que separam o público dos funcionários funcionam como telas sensíveis ao toque, em que o visitante pode assistir a vídeos com mais detalhes das etapas de fabricação e, numa chave mais lúdica, ler breves quizzes com curiosidades. Há também uma Leica Store com todo o portfólio da casa, do equipamento fotográfico às publicações, algumas delas itens colecionados pelos aficionados da marca.

Nem é preciso ser fotógrafo – ou fã de carteirinha da Leica – para sair do Leitz-Park envolvido pela aura de “sonho de consumo” em torno do charmoso logo de letras brancas sobre fundo vermelho. Além da cuidadosa fabricação à mão, outros fatos contribuem para sua imagem de exclusividade. Entre 2000 e 2006, a maison Hermès foi o principal acionista da Leica, imprimindo nela seu DNA de luxo. Em 2011, a relação com grandes nomes da fotografia foi reforçada por meio de um acordo assinado com a lendária agência francesa Magnum que rende, entre outras cooperações, um feedback de seus profissionais para o desenvolvimento de produtos.

"O Beijo", de Alfred Eisenstaedt. O clássico registro, do marinheiro com a enfermeira na Times Square, foi feito com uma Leica, no dia da capitulação do Japão diante dos EUA, em 1945. Foto: Haus der Photographie/Leica

“O Beijo”, de Alfred Eisenstaedt. O clássico registro, do marinheiro com a enfermeira na Times Square, foi feito com uma Leica, no dia da capitulação do Japão diante dos EUA, em 1945. Foto: Haus der Photographie/Leica

Há também as questões tecnológicas. A marca resistiu longamente antes de aderir aos equipamentos digitais. Salvo uma malsucedida colaboração com a Fuji, em 1998, sua primeira câmera com a tecnologia foi lançada em 2002, em parceria com a Panasonic, e bem depois das concorrentes. A primeira made in Germany foi a M8, vendida a partir de 2006, e somente três anos depois veio a primeira digital profissional, a Leica S. Essa, por sua vez, estreou também, no segmento, o foco automático. Até hoje, somente as profissionais têm autofocus. A linha M continua com foco manual, o que lhe permite compatibilidade com lentes fabricadas a partir de 1954.

Concorrência, a propósito, não é uma palavra de peso no glossário da Leica. Segundo estimativa da revista alemã
Photoscala, a empresa tem menos de 1% do market share do setor, e assim está bem. No topo estão Canon e Nikon, respectivamente em 1º e 2º lugar, seguidas de Sony, Olympus, Pentax, Samsung e Panasonic. A marca defende que sua posição reflete seu conceito de não criar um mero produto, mas uma experiência.

Parque de diversões   No Leitz-Park, na Alemanha, linha de produção “transparente” permite acompanhar manufatura dos equipamentos. Foto: Haus der Photographie/Leica

No Leitz-Park, na Alemanha, linha de produção “transparente” permite acompanhar manufatura dos equipamentos.      Foto: Haus der Photographie/Leica

“Em média, a Leica fabrica 40 câmeras por dia. A Canon ou a Nikon, 4.000. A diferença de escala é absurda, mas não é um robozinho ou um jovem inexperiente, na Ásia, que as produzem. Eles não fazem o mesmo que uma senhora de 60 anos, que há décadas está ali, polindo as lentes, fazendo ajustes, etc. As grandes são fast food, a Leica, slow food”, diz Luiz Marinho, representante da marca no Brasil, onde os equipamentos alemães têm preços que começam em R$ 5.000 e podem chegar a R$ 120 mil. “Um iPhone, que em poucos anos se torna obsoleto, é caro. Uma câmera Leica pode ficar décadas com um fotógrafo sem qualquer desabono, perda de qualidade. O fotógrafo German Lorca tem mais de 90 anos e usa uma lente Leica que comprou, nova, nos anos 1960, em uma câmera digital da marca, recente”.

Antigo anúncio seduz o comprador com desenhos dos mecanismos internos do corpo da máquina  e de sua lente. Foto: Haus der Photographie/Leica

Antigo anúncio seduz o comprador com desenhos dos mecanismos internos do corpo da máquina
e de sua lente. Foto: Haus der Photographie/Leica

A experiência com a marca alemã tem um desdobramento para um público ainda mais amplo por meio das Leica Galleries, presentes em Frankfurt, 
Wetzlar e Zingst, na Alemanha, e ainda em Praga, Milão, Nova York, Los
Angeles, Quioto, Tóquio, Salzburgo, Viena, Varsóvia, Cingapura e São Paulo, a primeira da América Latina. Inaugurada em julho, a Leica Gallery Brasil fica num prédio da década de 30, com fachada em art déco, e em processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico. Uma pequena joia arquitetônica, um fetiche bem ao estilo Leica.

*Eduardo Simões viajou a convite do Consulado da Alemanha em São Paulo

Link curto: http://brasileiros.com.br/JasEK
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