Em entrevista por telefone, Lázaro Ramos fala sobre o sucesso de “Mister Brau”, a experiência de interpretar Martin Luther King e a crise política do País

10426257_955994321162197_5461011974532279166_n

Lázaro Ramos interpreta Mister Brau, ídolo pop fictício da série homônima lançada no final de setembro pela Rede Globo (foto: Divulgação / Facebook)

Nos oito anos de Brasileiros, não é exagero dizer que o ator Lázaro Ramos criou relação de afeto (recíproca, diga-se) com a revista. Lázaro esteve presente na capa de nossa primeira edição, em reportagem que discutiu o preconceito no País (leia), e voltou a estampar a primeira página na edição 42 (leia), ocasião em que lançou seu primeiro livro infanto-juvenil, A Velha Sentada. Em abril deste ano, sempre solícito, o ator baiano, que é embaixador do Unicef no Brasil, colaborou para nossa série de entrevistas com posicionamento contrário à redução da maioridade penal de 18 para os 16 anos de idade (conheça a serie), medida defendida na Proposta de Emenda à Constituição 171/93 (leia).

No final de setembro, foi à grade da Rede Globo a irreverente série Mister Brau, escrita por Jorge Furtado, dirigida por Maurício Farias e protagonizada por Lázaro e sua mulher, a atriz Taís Araújo. O casal também emplaca outro sucesso atual, de público e crítica teatral, com a peça O Topo da Montanha em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo. Baseado em texto original da dramaturga norte-americana Katori Hall o espetáculo, que também marca a estreia do ator na direção teatral, celebra o legado de Martin Luther King. A peça, protagonizada por Lázaro, reconstitui os últimos dias de luta do mártir dos direitos civis dos negros dos Estados Unidos, assassinado em 4 de abril de 1968. Em dezembro próximo, Lázaro também estará nos cinemas do País em Tudo Que Aprendemos Juntos, o mais recente filme de Sérgio Machado.

Em nova conversa, telefônica, falamos com Lázaro sobre o sucesso de Mister Brau, a experiência de interpretar Martin Luther King e o que ele pensa sobre a atual crise política do País.        

A primeira edição de Brasileiros, publicada em julho de 2007, tinha você na capa e tratava do preconceito no Brasil. Nesses oito anos, você acha que houve avanços sobre a discussão? 
Pensar sobre isso é um exercício difícil, mas acho que merecem destaque os benefícios que as cotas trouxeram. Elas abriram – e abrirão – espaço para uma galera que vem com um novo pensamento, uma nova formação e, espero e torço eu, um novo engajamento político. As cotas foram muito importantes, mas mesmo com elas ainda é pequena, por exemplo, a diversidade de cursos escolhidos por negros nas universidades. Há também milhões de pessoas que ascenderam socialmente à chamada “Nova Classe C” e – acho que temos de dar nome aos bois – a maioria desses brasileiros é negra. Esse também foi um passo fundamental. Mas há grandes mudanças que ainda não aconteceram. No Brasil, negros ainda são as maiores vítimas de homicídio, negros ainda ocupam pouquíssimos postos de comando. Na política quase não há representatividade para o tamanho da população que, nós negros, somos.

A internet tem, hoje, papel predominante na vida das pessoas. No entanto, redes sociais como o Facebook e o Twitter também se tornaram canais de difusão de discursos de ódio e preconceito. Como você enxerga movimentações como essas?
A internet também é espaço de difusão de ódio, mas acho que esse ódio racial espalhado em ambiente virtual é fruto de pessoas covardes, que sequer expõem seus nomes. Pessoas que procuro nem levar em consideração porque, na maioria das vezes, querem justamente chamar atenção. Uma das formas de combater esse comportamento é demonstrar que racismo e preconceito é problema de quem é racista e preconceituoso. Tenho mesmo é de cuidar da minha vida, e não ficar dando atenção para esse tipo de gente covarde. Minha preocupação é estudar, me formar, cuidar dos meus filhos e ser um bom representante para minha comunidade.

Como surgiu a ideia de montar O Topo da Montanha, e como tem sido interpretar Martin Luther King?
A ideia de fazer o espetáculo surgiu há dois anos, por recomendação de dois diretores amigos meus, Denis Carvalho e João Falcão. Fiz uma tradução, rápida, mas achei que o texto não ia tocar as pessoas. Um dia, fui entrevistar o ex-ministro Joaquim Barbosa em Brasília, e o chefe de gabinete dele, Silvio Albuquerque, que morou em Washington durante muito tempo, coincidentemente me procurou e, tímido, falou que conheceu um texto sobre Martin Luther King, que havia feito uma tradução amadora, e que gostaria que eu lesse essa tradução. Li e conclui que ele fez uma trabalho belíssimo. As questões que Martin levantava estavam muito presentes e percebi que a peça podia tocar profundamente o coração dos brasileiros. Foi isso que me convenceu a montar a peça. Fiquei muito feliz porque, com a preparação, conseguimos amadurecer questões centrais do texto original. Tivemos quatro meses de ensaio, tempo em que procuramos entender o que as palavras do Martin significavam para o Brasil de hoje. A peça mostra a genialidade de um homem que conseguiu enxergar muito além. Tudo que ele falava, em nome das causas pelas quais ele lutava, continua a fazer muito sentido. Quem assiste à peça se sente parte dos problemas e também capaz de ajudar a resolvê-los. É uma dramaturgia aconchegante, que desperta empatia.

 

A série Mister Brau toca, de forma irreverente, em questões como o fosso social que há entre negros e a elite do País. Você enxerga avanços no protagonismo de negros em nossos meios de comunicação?
Acho que Mister Brau, por exemplo, é um grande avanço em vários aspectos. Antes de falar da questão racial na série, vou fazer uma análise dela enquanto produto televisivo. É um projeto pioneiro, no que diz respeito às séries da TV brasileira. O resultado estético faz toda a diferença e, melhor, ele não está separado da questão racial. Acho que muito do resultado de Mister Brau vem da caneta do Jorge Furtado e da direção do Maurício Farias, que ouvem minhas opiniões, as da Taís e de todo o elenco. Eles tratam os personagens com olhar afetuoso em todos os sentidos. A maneira como eles se vestem, por exemplo, é uma releitura do que a moda africana mostrou e tem mostrado para o mundo. São pessoas de origem popular, mas que tem conhecimento da estética afro e fazem disso uma coisa pop. Acho um passo importante, porque também é uma atitude de afirmação racial. Claro, estamos fazendo uma comédia, nos dando ao direito de brincar com os temas, mas ao mesmo tempo não fugimos de tocar em assuntos que poderiam ser estereotipados. Os personagens sabem da sua origem, gostam da sua origem e não tem o menor problema em propagar essa origem. Isso vale para tudo: a cor da pele, o fato de eles virem do bairro de Madureira ou a maneira intensa com que eles festejam. Eles têm muita autoestima e Mister Brau também tem o ineditismo de ser o primeiro seriado da TV brasileira protagonizado por dois negros que são ricos.

Que leitura você faz da atual crise política e econômica do País? Acha que retrocedemos?
Vivo uma fase de muitas dúvidas de onde é que vamos parar. Acho que os avanços sociais foram importantes, mas é inegável que faltaram investimentos em educação. Ascender economicamente sem estimular ascensão educacional e cultural criou um hiato perigoso para o País. Precisamos de novas lideranças políticas, com novos pensamentos, um novo olhar para o mundo e o País. Torço para que a geração beneficiada pelos avanços sociais dê um passo além e defenda maior divisão de poder, maior diversidade social e cultural, e maiores investimentos em educação. Sim, temos muitos atrasos, mas não podemos esquecer a história do nosso País. E é muito importante que a gente revisite e reconte essa história para que as pessoas saibam quais foram os acertos e onde foi que erramos, para não repetirmos novamente esses erros. Aulas de História do Brasil: é disso que precisamos.

Em dezembro, entrará em cartaz Tudo Que Aprendemos Juntos, novo filme de Sergio Machado, que tem você como protagonista. Como foi voltar a trabalhar com Sergio (em 2005, Lázaro atuou em Cidade Baixa)?
O filme fala justamente sobre essas mudanças recentes do Brasil. Trata da história de 16 jovens que sonham com a música. Acho até que a trama do filme acabou se misturando com a história desses jovens. Eu, ao conviver com esses meninos, percebi que eles trazem outras referências culturais, outros desejos e planos de vida em relação aos jovens que fizeram Cidade de Deus. Eu tinha acabado de fazer Madame Satã (o longa-metragem do cineasta cearense Karim Aïnouz) e viajei para muitos festivais em que encontrava com eles. O filme do Sergio foi rodado em 2012. A história é contada por meninos que têm hoje 18, 19 anos. Perceber essa diferença dos sonhos que há entre eles é algo que fortalece meu otimismo. A gente vive um momento de barbárie e torço muito para que essa geração faça com que a barbárie não vença. O filme fala disso, da luta de uma juventude que sabe que pode ajudar a escrever outro País. Faço um professor de violino que é chamado para lecionar em Heliópolis (uma das maiores favelas da capital Paulista), não queria estar lá, mas vai e acaba se transformando. Há muitos anos não faço um filme que tenha me mobilizado tanto e que, penso eu, revele tanto sobre o Brasil atual. Arrisco dizer que é meu melhor filme desde Cidade Baixa e Madame Satã.

Link curto: http://brasileiros.com.br/l3dNQ
Tags: , , , ,