A curadora Carolyn Christov-Bakargiev apresenta, na 14ª Bienal de Istambul, 1.500 trabalhos de 80 artistas que buscam revelar códigos secretos

A pintura do brasileiro Cildo Meireles, Projeto de Buraco para Jogar Políticos Desonestos, será um dos trabalhos centrais da 14ª Bienal de Istambul, SALTWATER: A Theory of Thought Forms (Água salgada: Uma Teoria de Formas Pensantes), aberta ao público de 5 de setembro a 1° de novembro, e que terá obras de outros dois brasileiros, Lucia Koch e Frans Krajcberg. “Como estou trabalhando com essa ideia sobre aquilo que está abaixo da superfície, qualquer que seja ela, um iPad ou mesmo um iPod, é uma forma de incorporar essa questão, sobre códigos secretos”, explica a curadora, sobre a pintura de Meireles. Nessa pintura, o artista retrata Brasília como uma pequena cidade, dando mais destaque às camadas abaixo da superfície, porque soube uma vez que a crosta sob a capital brasileira seria menor do que no resto do mundo.
Nas curadorias de Christov-Bakargiev o mais aparente, como na pintura de Meireles, nem sempre é o que interessa, mas uma chave para abordar temas complexos. Em Istambul, assim será com o polêmico tema do genocídio dos armênios na Turquia, ocorrido há 100 anos. Em vez de apresentar obras literais sobre o holocausto, ela vai exibir vasos art nouveau do francês Émile Gallé. “Tratar de art nouveau é também uma forma de abordar a questão armênia, pois eles eram os artesãos que faziam moldes para os prédios de Istambul”, disse a curadora.
Em maio passado, enquanto a cantora Alcione relaxava ao lado de uma piscina em um hotel nos Jardins, Christov-Bakargiev contou à ARTE!Brasileiros os conceitos centrais da mostra turca. Responsável pela dOCUMENTA (13) de Kassel, na Alemanha, em 2012, ela segue na Turquia algumas ideias lá desenvolvidas, como o questionamento ao antropocentrismo. Para tanto, além dos objetos art nouveau, ela vai ocupar edifícios no mesmo estilo, projetados pelo italiano Raimondo Tommaso D’Aronco, em Istambul, pois constatou que o movimento do final do século XIX com suas formas orgânicas que criticavam o modernismo é semelhante a questões atuais, como a bioagricultura e a bioarquitetura. “Percebi que o que eu estava fazendo era um art nouveau de hoje, mas só entendi após a dOCUMENTA (13)”, confessou. Leia a seguir a entrevista na íntegra:

ARTE!Brasileiros  O que a levou a organizar a Bienal de Istambul depois da dOCUMENTA (13), em 2012?

CAROLYN CHRISTOV-BAKARGIEV – Eu não pretendia mais organizar exposições. Eu acho que há muitos jovens curadores e que o mundo já teve Carolyn suficiente, então entrei em um modo palestras, falando em vários lugares. Depois de três anos fazendo isso e ainda realizando uma pesquisa no Getty Center, a Bienal me convidou. Eu já estive no comitê, fiquei muito honrada. Eu queria dar um tempo do mundo da arte, ler, escrever, mas acho que ficar de fora é ser mais narcisista, não menos. Organizar uma exposição é estar a serviço dos artistas, buscar fazer a visão dos outros ser celebrada. Então voltei a essa posição.

Também sou muito próxima de quem trabalho e trabalhar com artistas é como codefinir trabalhos, eles perguntam o que eu acho, eu dou sugestões, e eu estava sentindo falta disso.

Eu realmente acredito na Bienal de Istambul. Já fui crítica das bienais, eu achava que havia em todo lugar e elas diziam mais respeito a turismo, mas agora, no mundo que vivemos, com tantas guerras e conflitos, feiras e leilões, acho que essas mostras temporárias são plataformas que precisam ser protegidas e cuidadas. Elas têm baixo orçamento, em comparação a outros eventos do mundo da arte. É preciso dedicar tempo e vida intelectual para mantê-las e engajar o público.

Carolyn Christov-Bagarkiev, curadora da 14ª Bienal de Istambul, fez agradecimentos e abriu os trabalhos falando em turco

Carolyn Christov-Bagarkiev, curadora da 14ª Bienal de Istambul, fez agradecimentos e abriu os trabalhos falando em turco

E por que o apreço a Istambul?

Istambul é uma incrível cidade moderna e cosmopolita, ela foi o coração de um império até o início do século XX. Com um período glorioso até o século XVIII. Apesar de um declínio no século XIX, continuou sendo o centro de um império, com suas vantagens e desvantagens, é uma cidade cosmopolita. Ao mesmo tempo, ela passou por tristes tragédias e traumas, como o genocídio dos armênios, que faz agora 100 anos, o que não é um detalhe, mas uma grande questão. O governo turco não o reconhece e a maioria dos jovens questiona isso. Então o que mudou? Creio que é a internet. Desde 1994, com o surgimento da internet e do uso de smartfones, é impossível controlar informações. Mesmo que os livros escolares digam uma coisa, é possível achar outras versões. Eu diria que há toda uma geração abaixo dos 50 anos disposta à reconciliação e à verdade. Isso para mim é uma razão importante para aceitar.

Mas há muitas camadas. Os gregos, por exemplo, que já foram 1/3 da população turca no fim do Império Otomano, ou seja, até no início do século XX, hoje quase não existem. Isso ocorreu não por conta de uma matança, mas por conta dos impostos muito mais altos para os gregos, produzindo uma erradicação étnica.

Istambul era uma cidade multicultural, com árabes, gregos, armênios, curdos e vários outros povos, e só ficaram os curdos, que passam por conflitos agora.

Então, há a história de uma sociedade internacional, com italianos (Garibaldi vivia lá), ingleses, russos. Trotsky chegou a ser exilado lá, entre 1928 e 1931 ou 1932, graças a um acordo entre Stálin e Atatürk (primeiro presidente turco)  e viveu na ilha Büyükada, que será um dos lugares da Bienal. Mas o que quero dizer com tudo isso é que ela passou de uma sociedade internacional e multicultural para uma monocultural.

Bige Örer, diretora da Bienal de Istambul, ao lado da curadora da mostra, Carolyn Christov-Bagarkiev

Bige Örer, diretora da Bienal de Istambul, ao lado da curadora da mostra, Carolyn Christov-Bagarkiev

E você aborda tudo isso na Bienal?

De certa forma, não de maneira direta. Não costumo ter conceito, porque conceito é uma forma de reduzir.

Na dOCUMENTA (13) você tratou da Alemanha e do Afeganistão, Istambul parece estar entre Kassel e Cabul…

Isso é interessante. De fato, algumas questões continuam em Istambul. Em Kassel tratava-se de uma mostra que participou da reconstrução de uma sociedade, depois da Guerra, que foi completamente bombardeada e destruída, ocupada pelos seus libertadores, assim como ocorria em Cabul, quando fiz a dOCUMENTA (13). Cabul era uma sociedade que saía de um regime fascista, o Talebã, terrivelmente bombardeada e ocupada por seus libertadores, especialmente norte-americanos, exatamente como ocorreu em Kassel quando Arnold Bode estava trabalhando. Contudo, o Afeganistão é um país muçulmano, bem diferente da Alemanha e também da Turquia, porque a Turquia não é um país islâmico. Ela tem uma maioria islâmica, mas o governo está baseado na distinção entre estado e religião.
Mas realmente há questões comuns que envolvem essas duas mostras. De certa forma tudo começou com a Guerra do Golfo (1990-1991), uma catástrofe que desmantelou o Iraque e foi uma espécie de Caixa de Pandora…

Em Istambul você, novamente, cria novos termos para os curadores…

Sim, agora são aliados. Em Kassel eram agentes e em Torino, correspondentes. Aliados tem a ver com desenhar, apesar de a palavra aliança lembrar muito acordos militares.

Mas, etimologicamente, a palavra alliance, em francês, que vem do latim, significa a promessa de casamento. Assim aliança é um anel, depois vem o casamento. O termo militar decorre dos casamentos de famílias reais, que eram de fato alianças. Mas se diz aliança por conta do anel em torno do dedo e isso vem do latim legare, que quer dizer ligar, uma aliança é um desenho de uma linha em torno do dedo.

A mostra é sobre linhas, como desenhar linhas, como criar linhas de fuga, quando é necessário escapar, ou linhas de resistência, quando é necessário permanecer. Todas essas relações com linhas, e portanto com desenhar, interessam. Em uma linha também é possível fazer nós, e a mostra é sobre nós e ondas. Ondas é uma linha que se repete e se dispersa, e um nó é a suspensão de um movimento. Há uma tensão entre a repetição e o trauma, que na memória acaba sendo reprimida. Ondas são as repetições, como os armênios expulsos e depois novamente os sírios, e nós são como o parque Gezi.

Muitos trabalhos serão comissionados…

Sim, a maioria dos 80 artistas irá produzir novos trabalhos, é assim que trabalho. Não vou divulgar a lista antes da abertura, mas tenho uma equação que sempre uso em toda mostra: 1/3 é formado por aqueles artistas com quem sempre trabalho, 1/3 são do lugar e 1/3 é de novos.

Depois da dOCUMENTA (13), tenho certeza que vão dizer: ah, ela chamou os mesmos artistas da dOCUMENTA (13). Na verdade, será 1/3, mas não apenas da dOCUMENTA (13), mas de todas as mostras anteriores. É a minha geração de artistas com os quais sempre trabalho, com os quais partilho muitas questões. Por exemplo, eu leio alguns autores para pensar no desantropocentrismo, enquanto Pierre Huyghe lê outros, mas partilhamos da mesma preocupação.

E artistas brasileiros?

Cildo Meireles vai estar com uma peça muito importante no contexto da mostra, Projeto de Buraco para Jogar Políticos Desonestos (2011), porque é uma ótima plataforma para tratar do que está abaixo da superfície, e ele expôs essa pintura apenas duas vezes. Como estou trabalhando com essa ideia sobre aquilo que está abaixo da superfície, qualquer que seja ela, um iPad ou mesmo um iPod, é uma forma de incorporar essa questão, sobre código secretos. Há apenas um trabalho dele, mas é uma peça central na mostra. Digamos que ela estará no cérebro da mostra.

"Projeto de Buraco para Jogar Políticos Desonestos" (2011), Cildo Meireles/14ª Bienal de Istambul

“Projeto de Buraco para Jogar Políticos Desonestos” (2011), Cildo Meireles/14ª Bienal de Istambul

Como você fez em Kassel?

Exatamente, ela está entre as peças-chave da Bienal, de todo o conceito. Dessa vez, contudo, não vou chamar de cérebro, mas vou reunir algumas peças históricas e que questionam o antropocentrismo, abordam o orgânico, o que afinal é uma espécie de continuidade de Kassel.

O que percebi é que meu interesse por bioagricultura e bioarquitetura, como isso se desenvolve no final do século XX e começo do século XXI, tem uma rejeição semelhante a uma forma de modernismo e classicismo que ocorreu no final do século XIX, quando o estilo art nouveau se desenvolveu, com suas formas orgânicas, como ondas. Isso ocorria contra a arquitetura clássica do século XIX e é paralela ao pensamento de Nietzsche, Bergson. Percebi que o que eu estava fazendo era um art nouveau de hoje, mas só entendi após a dOCUMENTA (13).

Então, agora, eu apresento art nouveau na Bienal em lindas peças de Émile Gallé (1846-1904), que era um anarquista! Os artistas do art nouveau eram contra o poder, contra a burguesia, contra o art déco.

E ele também produziu em Istambul?

O Émile Gallé não, mas toda a cidade foi reconstruída pelo arquiteto italiano Raimondo  Tommaso D’Aronco (1857-1932), que foi convidado pelo sultão para construir o pavilhão para a Feira Internacional de Agricultura, em 1894, que acabou nunca acontecendo por conta de um terremoto e D’Aronco passou 16 anos em Istambul, reconstruindo toda a cidade. Há muitos prédios dele, assim como de arquitetos armênios, aliás há muitos prédios construídos em Istambul por armênios, que depois foram decapitados! Tratar de art nouveau é também uma forma de abordar a questão armênia, pois eles eram os artesãos que faziam moldes para os prédios de Istambul.

Em cidades como Paris ou Barcelona, o art nouveau não era de fato considerado, mas construído em periferias, ao contrário de Istambul, que atualmente vejo como a bioarquitetura que é contra os prédios de Frank Gehry.

 Vaso "Mante Religieuse et Hanneton" (louva-deus e besouro), de Émile Gallé (1846-1904), vidro transparente e esmalte/14ª Bienal de Istambul

Vaso “Mante Religieuse et Hanneton” (louva-deus e besouro), de Émile Gallé (1846-1904), vidro transparente e esmalte/14ª Bienal de Istambul

O que mais vai estar nesta parte central?

Eu vou mostra outra pintura, de 1870, feita por Santiago Ramón y Cajal, que recebeu o Prêmio Nobel, em 1906, por descobrir o neurônio e, mais, por descobrir a existência de sinapses, que ele representou em imagens, então ele precedeu Paul Klee em dez anos. Como essas imagens circularam pelos jornais da época, elas são a pré-história do abstracionismo no século XX.  Eu fui até o Instituto Santiago Ramón y Cajal, em Madri, e descobri que, antes de ser neurocientista, ele queria ser artista e seu pai não deixou. Ele foi fazer Medicina, mas vou mostrar as pinturas que ele fez quando jovem, em que ele representou ondas.

E quais lugares você vai usar?

Vou usar, pela primeira vez,  o museu Istanbul Modern, além de Arter, e outros dois  espaços de arte, mas no total serão 30 locais. A maioria não são espaços convencionais e vão ser usados como ondas, do Mar Negro ao Mar de Mármara. Para visitar a mostra, será necessário usar barcos e não táxis por três dias.

E o nome Saltwater?

Saltwater é nome aberto, porque há vários significados. A água salgada absorveu o corpo dos escravos, porque o corpo dos escravos que atravessaram o Atlântico substituíram as baleias desse oceano, já que um em cada dez morreu durante a travessia, enquanto houve um empobrecimento do oceano por conta das caças às baleias para a captura de óleo. É uma história muito triste que será abordada em uma obra de Ellen Gallagher.

14ª Bienal de Istambul
De 5 de setembro a 1° de novembro
14b.iksv.org

 

 

 

 


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