SESC Pompeia faz retrospecto da trajetória de Nitsche com mais de cem obras que mostram seu flerte com a linguagem dos quadrinhos e da publicidade e sua intensa relação com a metrópole paulista

O SESC Pompeia abriga uma grande exposição de Marcello Nitsche, abrangendo os diversos períodos de sua trajetória que se revela sempre inovadora. Ana Maria de Moraes Belluzzo, curadora da mostra, intitulada LIG DES, reuniu um conjunto expressivo, com mais de cem peças, que traz de corpo inteiro a extraordinária produção do artista. A curadoria foi minuciosamente planejada e traça um olhar agudo e abrangente sobre o artista. A escolha do local foi mais uma decisão acertada de Belluzzo. A antiga fábrica, transformada em centro cultural por Lina Bo Bardi, possui espaços, materiais e volumetrias que dialogam e criam situações de convivência com os trabalhos de Nitsche. Em nenhum museu a exposição teria o mesmo resultado. E isso porque o artista sempre frequentou oficinas, trabalhou com motores e foi no chão de fábrica que concebeu suas obras mais importantes.

"Bolha Amarela" (1967/68), Marcello Nitsche/SESC Pompeia

“Bolha Amarela” (1967/68), Marcello Nitsche/SESC Pompeia

Ainda muito jovem, sua produção se destacou no panorama artístico da década de 1960. Se por um lado eram anos bicudos, de ditadura, censura e prisões, por outro, eram tempos de rebeldia, contestação, lutas ideológicas e grande transformação artística. Nitsche adotou na época a linguagem da nova figuração, de viés pop, mas com acidez, ironia e preocupação social. O crítico Mario Schenberg o considerava “o mais dotado de sua geração” e, segundo ele, sua expressão “nasce de uma vivência autêntica e profunda do ambiente da metrópole paulista, especialmente do que caracteriza como grande centro industrial brasileiro”.

O título LIG DES (de ligue/desligue), dado por Ana Belluzzo à exposição, tem origem no nome da primeira Bolha do artista, realizada em 1967. Outras viriam depois e, no meu entender, representaram uma aventura plástica de ruptura, sem precedentes, na arte brasileira. Se essa experiência tivesse sido realizada na Europa ou nos Estados Unidos, certamente faria parte de todos os compêndios de arte contemporânea, mas naqueles anos ainda não havia o fenômeno da globalização.

Lembro-me de que, em 1968, na galeria ART-ART, criada por Ralph Camargo na Rua Oscar Freire, em São Paulo, fomos assistir à abertura da mostra de Marcello Nitsche e encontramos no meio do espaço expositivo uma obra solitária. Era um pacote de tecido sobre um motor que, em dado momento, começou a funcionar ruidosamente e a inflar o tecido. Aos poucos a peça foi ganhando forma, a Bolha foi crescendo e ocupando todos os espaços da galeria, obrigando-nos a ficar colados às paredes e, como o público era numeroso, muitas pessoas foram expelidas para fora. Sobre a abertura dessa exposição, a crítica de arte e historiadora Aracy Amaral, que também estava presente, escreveu: “Toda uma série de reações coletivas pôde ser observada no decorrer da inauguração, no primeiro funcionamento da Bolha. Inclusive em seu desinflar lento, atraindo o público subitamente desamedrontado que quer tocá-la, empurrá-la, dominá-la, passada a fase do seu poderio físico maior”.

Série "Pinceladas", Marcello Nitsche/SESC Pompeia

Série “Pinceladas”, Marcello Nitsche/SESC Pompeia

Na 9ª Bienal de São Paulo, em 1967, Nitsche expôs Superman, um luminoso de veias elétricas que exibe os meios precários de sua construção. Na Bienal seguinte, ele apresentou uma grande Bolha Amarela, feita em nylon, exaustor industrial e chapa galvanizada, cuja dimensão maior atingia 25 m e ocupou parte do amplo espaço no térreo do pavilhão. O imenso tubo subia em espiral e alcançava o segundo piso. Depois, vieram as experiências de construir bolhas penetráveis. As pessoas podiam percorrer por seu interior, estabelecendo novas experiências sensoriais, de espaço e de luz. Em 1969, o artista criou uma roupa para o cantor Tom Zé, que se apresentou no Festival de Musica da TV Tupi. A indumentária, uma espécie de macacão, era feita com plástico transparente e bolsões que continham refrigerantes, em dado momento, Tom Zé, ao introduzir alka-seltzer nos compartimentos, provocou enorme efeito efervescente. Milhares de bolhas saíam dos bolsões e corriam por seu corpo. Nitsche se aproximava, como Rubens Gerchman (1942-2008), do movimento tropicalista.

Frame de "Autorretrato" (1976), Marcello Nitsche/SESC Pompeia

Frame de “Autorretrato” (1976), Marcello Nitsche/SESC Pompeia

Depois de envolver-se com motores que eram acionados para produzirem efeitos em seus trabalhos, o artista fez as Birutas, com técnica de aeromodelismo, acionadas pelo vento. Ana Belluzzo chama a atenção para essa nova fase: “No fim dos anos 1960, ao desligar as obras da tomada elétrica, tinha em mente acioná-las por forças da natureza”. As Birutas são construções geométricas e fazem referência ao construtivismo, de forte presença na arte brasileira.

As décadas se sucedem, mas seu processo criativo não se acomoda e o artista segue à procura de novas mídias e de novos materiais. Trabalhou com grandes dimensões e com pequenos formatos, às vezes até mesmo de modo intimista. Interferiu em seu próprio corpo, na obra Costuras e no Autorretrato, realizado em super-8.

Nos anos 1970, Nitsche realizou em Curitiba uma performance na Pedreira do Pilarzinho, quando interviu em escala natural na poderosa paisagem, sugerindo costuras sobre a verticalidade das pedras. Em seguida, vieram as pinturas costuradas em pequena dimensão. Mais tarde vieram as Garatujas, as pinceladas ampliadas e materializadas em lâminas de PVC, depois os Códigos de Barras. Muitas de suas séries, como Brincando com a Geometria ou os Carimbos, anteciparam-se aos trabalhos de Waltercio Caldas e Cildo Meireles.

Nas recentes aquarelas, Nitsche presta homenagem a seus instrumentos de trabalho, com o alicate, a furadeira, lixadeira. O conjunto da obra revela que estamos diante de grande artista. Um artista que não perdeu, ao longo dos anos, o vigor criativo, nem deixou de experimentar, de modo transgressor, novas possibilidades de expressão. 

LIG DES – Marcello Nitsche
Até 30 de agosto
SESC Pompeia
Rua Clélia, 93 – Água Branca – São Paulo/SP
11 3871.700 – sescsp.org.br/pompeia

Link curto: http://brasileiros.com.br/sBNDf
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